novembro 28, 2003

"Filosofia da blogosfera": o melhor post

Daniel Oliveira escreve em barnabé, num post intitulado O passeio da fama, o seguinte, a propósito do novíssimo blogue Causa Nossa: "Não gosto do conceito de juntar pessoas famosas para fazer um blogue. Porque esse conceito não evidencia outro critério que não o do golpe publicitário." Lamento. Lamento. Lamento infinitamente. Lá estamos nós outra vez a fazer teorias da blogosfera. Teorias formais da blogosfera, mais precisamente. Será muito difícil de compreender que o que interessa num blogue não são coisas dessas, como quantos são os autores, quais são os autores, qual a quantidade de fama dos autores, quantas vezes publicam por dia, etc.,etc., etc... ? Que o que interessa é "o que poderão eles dizer de novo", num país tiranizado pelo politicamente correcto?
Vejam a Embaixadora Ana Gomes, por exemplo. Tem-se fartado de dizer, sem assombro, verdades como punhos. Mas, como não as diz com punhos de renda, com a hipocrisia dominante, toca a criticar-lhe o estilo. E parece que os primeiros escandalizados são alguns socialistas. Coitados, são tão distraídos! Estamos a atolar-nos na ditadura do novo proletariado (os espectadores da M.M.Guedes) e ainda pensamos que a melhor coisa a fazer é contemporizar. E, no entanto, Ana Gomes faz, logo na sua primeira intervenção no Causa Nossa, um apontamento, intitulado Sérgio, que julgo ser um dos melhores posts portugueses de "filosofia da blogosfera". A ideia, nas palavras dela, tem a seguinte raíz: "Sérgio Manuel Pinto Moutinho. Ele não saberia o que é um blog. Eu até há muito pouco tempo também não sabia, mas logo que me explicaram percebi que o conceito era o mesmo que ele, há vinte anos, tinha inventado, embora nessa altura a gente nunca tivesse tocado num computador, nem sonhasse que passaria a depender deles." Leiam, por favor. A ver se percebemos a blogosfera com olhos de ver e não com palas mito-tecno-lógicas nos olhos.
Publicado por Porfírio Silva em 02:39 PM | Comentários (0)

A próxima semana...

Várias coisas vão acontecer na próxima semana aqui neste blog.
(1) Publicar um novo apontamento da série "História da máquina de Turing": desta vez, depois de apresentado o conceito de base, avança-se com as noções de "máquina determinista" e "máquina não determinista".
(2) "Encerrar" o debate sobre "O Erro de Damásio?", procurando tomar em consideração as observações que foram feitas.
(3) Iniciar uma mini-novela gráfica. O Rui C. fez desenhos, eu escrevo um texto que os "ilustra". Sim, um texto a ilustrar desenhos, pois então (o reverso da medalha: pode acontecer que o texto obscureça os desenhos).
E depois há sempre, claro, os imponderáveis.
Ah! já me esquecia: desculpem aqueles que pensam que na blogosfera só se pode improvisar e navegar ao sabor das ondas. Devem ficar escaldados com esta tirada de anunciar o programa da próxima semana. Mas é que eu sempre disse que vinha aqui para contar uma determinada história. E que tudo isto é uma experiência dentro dessa mesma história. E esse rumo não se perde de vista. Trata-se, é claro, apenas e só... de contar a história da máquina de Turing!

Publicado por Porfírio Silva em 11:08 AM | Comentários (0)

novembro 27, 2003

Aos que pensam que o mundo é flor que se cheire.

Preparava-me para escrever este apontamento, quando recebi uma mensagem com o assunto "A Zero Acaba". É sobre a Zero em Comportamento. Está tudo explicado no sítio deles. Em resumo, nas palavras deles: "Por isto tudo e por muito mais que fica por dizer, decidimos parar. Vamos deixar de programar o Cine-Estúdio 222." Para quem não conhece, não vale a pena explicar. Para quem conhece ... sem comentários. É isto a capital do império!

Entretanto, enquanto morria a Zero em Comportamento, ontem voltei ao teatro. ANATOMIA TITO FALL OF ROME, de Heiner Müller. O Teatro da Cornucópia, depois de ter feito o Tito Andrónico, de Shakespeare, faz este "comentário de Shakespeare".

Lê-se no programa. "Gostamos de pensar, interpretar, levar à cena, os chamados textos clássicos. E a violência do 11 de Setembro em Nova York foi ao Tiestes de Séneca e ao Tito Andrónico de Shakespeare que nos levou. (...) Difícil é para nós e para os outros fazer, no tempo em que vivemos, o que neste texto se diz que faz o gato da praça de S. Marcos: levantar na praça um pó invisível e quando um turista nos passar a mão pelo pêlo estender as garras para abrir as veias do mecenas. O teatro de Müller lembra-nos, pelo menos, o que consegue fazer o gato que aprendeu com o cão a dar ao rabo." E assim continua a Cornucópia a falar do poder. A falar aos que ainda pensam que o mundo é flor que se cheire. Veja-se. Pode-se antes passar por Cornucópia em linha, mas é obrigatório ir mesmo lá. Espectáculo para maiores de 77 anos. (O Tintim é dos 7 aos 77...)
Publicado por Porfírio Silva em 09:13 AM | Comentários (0)

novembro 26, 2003

Objectos. Um Bosch na minha biblioteca.

O "pássaro com carta" saltou do painel frontal esquerdo das Tentações de Santo Antão, tríptico de Hieronymus Bosch (n.1450/1460, m.1516) - e anda agora pelos meus papéis à cata não sei de quê. Só "o homem de barro" do Nuno lhe faz frente. Qualquer dia vou devolvê-lo ao Museu Nacional de Arte Antiga. Eles que voltem a pô-lo dentro do óleo sobre tábua, ora essa...
Publicado por Porfírio Silva em 06:01 PM | Comentários (0)

Debate. Comentário a "O Erro de Damásio?" (continua)

Recebi de C.M.R. algumas considerações acerca do meu texto que agora está em debate. As que são mais concordantes, guardo para mim (isto não é um exercício de auto-satisfação). Contudo, coloca três questões que apontam para eventuais desacordos. Cito aqui parte dessas questões.

(1) Quando o Porfírio Silva, a determinada altura escreve, no que mais uma vez estou inteiramente de acordo: “A confusão é grande. Se alguém deixar no ar ideias imprecisas acerca de matéria tão sensível estará a incorrer em grande responsabilidade. Damásio parece um determinista biológico envergonhado. Provavelmente não o é. Mas, se não é, cometeu o grave erro de confundir a presença de mecanismos biológicos activos em qualquer grupo de organismos vivos (como os humanos são) com a tentação de explicar os mecanismos sociais pela base biológica.”
... o problema não estará logo no vocabulário que se herda, em continuarmos a pensar em ‘mecanismos’, apesar da riqueza mais do que demonstrada da metáfora, porque se há mecanismos biológicos activos, como todo o mecanismo, eles determinam uma acção mecanicamente repetida e não me aparece como difícil concluir, por generalização, que do todo do mecanicamente repetido se obtenha um todo do mecanismo social. Ou é um falso problema? O mesmo não o demonstra o facto de num tal sistema não haver pontes para o valor simbólico?

(2) ... quando citando Ribeiro, escreve, “uma característica distintiva do ser humano (…) é precisamente a capacidade que ele tem (…) de projectar o desejo para além da necessidade (…)”, não se trata de petição de principio, discutindo-se precisamente o determinismo? Esse ‘para além da necessidade’, é um indecidível ou um axioma? Note que não é uma crítica, mas uma questão, porque, poder-se-á objectar que: se há múltiplas sobrevivências, haverá múltiplas necessidades ou que a providência é multifacetada, por exemplo. Faz algum sentido?

(3) Finalmente, quanto ao modo como o Porfírio Silva termina. De que modo é que o materialismo não tem de ser reducionista? Se falarmos de materialismo fisicalista, essa é a sua história. Se falamos de materialismo histórico temos a admissão de uma determinação material/modo de produção/infraestruturas, não menos reducionista, que determina a vida social, política ou intelectual. Acho que era Comte, quem, em meados de Oitocentos, dizia que materialismo e espiritualismo eram modos de ver que tinham de ser superados. Até hoje. E parece que continua uma tarefa árdua. Não, também não tenho solução.

Suponho que são questões que merecem reflexão, tal como as que suscitaram anteriores intervenientes. Adoptei como procedimento não tentar responder imediatamente. Prefiro deixar fluir o debate. Mas não me esquivarei. Tudo tem o seu tempo, mas o tempo virá. Espero por mais contributos. A crítica não me assusta. Só me assustaria a falta de capacidade para pensar em conjunto.


Publicado por Porfírio Silva em 09:58 AM | Comentários (0)

novembro 25, 2003

Prudência.

Está a bordo um apontamento sobre uma informação publicada em Rua da Judiaria e que, por sua vez, Aviz comentou. O que nos diz a bordo tem a ver com a prudência e com a relação, em ética, entre o geral e o "aqui e agora". Permito-me, pois, comentar esse ponto escaldante, mais escaldante do que possa parecer aos que julgam que as normas gerais resolvem tudo. Comentar à minha maneira, claro. Com um pequeno excerto de "parábolas e argumentos".

parábolas e argumentos (excerto)

Na primeira assembleia,
conhecido que leis importantes são as das pequenas coisas,
discutia-se a regra segundo a qual um pombo
encontrado a menos de cinquenta passos do pombal
pertence, descontados incidentes supervenientes, ao proprietário
e para lá daquela distância, ao autor do seu achamento,
quando um ancião que propôs a pergunta
"que fazer quando as patas do pombo foram encontradas
uma a menos e a outra a mais de cinquenta passos?"
foi escorraçado: crueldade?
Crueldade é não fazer como o juiz prudente
que evita a proliferação dos precedentes limitando o dispositivo invocado
que recusa antever todas as horas até ao fim dos tempos
e a vinculação futura de todos os juízes havidos e a haver
às minúcias e detalhes caprichosos do caso vertente.
E desde que a palavra chegou à cidade
nada no mundo lhe é indiferente.

in Porfírio Silva, A Arquitectura do Pecado

Publicado por Porfírio Silva em 03:16 PM | Comentários (0)

Debate. Damásio e "O Erro de Damásio?". Entra a linguagem.

Da Professora M.A.B. recebi elementos para um debate em curso. Segue-se transcrição parcial, incluindo já excertos de um diálogo electrónico entre nós.

Professora M.A.B. Questão 1: A distinção operada por Damásio entre emoções e sentimentos (ditos sociais) não aponta para a intervenção, em qualquer patamar de formação, da linguagem como forma e formulação dos ditos sentimentos (sociais). Ora, do ponto de vista da linguagem, é importante salientar que os processos de subjectivação não são anteriores e autónomos da sua discursivização. Quando se diz que a enunciação não é uma tradução da subjectividade entende-se que a própria subjectivação, aquilo que acaba por formar sujeito se vai constituindo na e através da discursivização. Quer isto dizer que o campo do subjectivo é o campo da linguagem, o campo pré-linguístico é a-subjectivo, passional, singular, pontual, intensivo, mais do domínio do isto - neutro - que do domínio do eu. E, nessa medida, a discursivização forma o lastro cultural dos sentimentos. O sentimento tem uma formulação muito própria, imbuída de uma vivência cultural, de escrita, de herança histórica que faz dele um pathos linguístico. Estou a pensar na inveja, no ciúme, no amor ou na amizade, relativamente às afecções que lhes correspondem, muito mais indizíveis, que passariam antes por categorias tímicas de natureza eufórica ou disfórica… Como falar de "amor" à margem do Tristão e Isolda, daquilo que coloca Denis de Rougemont, etc, etc? Isto é, ao contrário do que se poderia dizer ou pensar, não existe primeiro o sentimento, envolto na sua indecibilidade, ao qual depois a linguagem vem dar forma, mas o próprio sentimento é marcado, desde logo, pela sua inscrição linguistico-cultural e social. Cada um, portanto, de acordo com a sua inserção num universo literário, cinematográfico, etc, trabalha as suas experiências sentimentais; o seu foro íntimo é muito mais sociável do que se possa pensar. Por outro lado, qualquer afecção é trazida a um grau de consciência tanto mais apurado quanto ela for matéria de exploração na e pela escrita ou qualquer outra forma plástica. É aí, nessa sua aparente exteriorização que o sentimento ganha espessura, que se instaura como sentimento propriamente dito. E esta tese não aceita a dimensão reducionista que consistiria em dizer que só a linguagem pode dizer ou representar o foro íntimo. Não se trata de representação mas antes de formulação e exteriorização que têm, em retorno, incidências de novo no sujeito. De qualquer forma, o indizível da linguagem será sempre o campo da afecção, o campo onde um corpo afecta um outro corpo.

Interrompo eu Tenho dúvidas acerca da afirmação de que "o campo pré-linguístico é a-subjectivo, passional, singular, pontual, intensivo, mais do domínio do isto - neutro - que do domínio do eu." Tenho dúvidas por aquilo que diz a psicologia do desenvolvimento: há uma constituição de eu como ponto de referência (que se vai construindo aos poucos) que é uma espécie de ponto de vista para uma série de imagens de outros corpos que vão "tocando" aquele corpo. E isso é claramente pré-linguístico. E sem isso não haveria linguagem. Poderia haver linguagem sem subjectividade? Mas isso apoia outra coisa do que dizes: "o foro íntimo é muito mais sociável do que se possa pensar". Estou em crer que o humano individual é constituído como tal pelos outros, desde o seu aparecimento no mundo e talvez mesmo ainda na barriga da mãe.

Responde M.A.B. à interrupção É que eu restrinjo muito a noção de subjectividade a sujeito - a eu da enunciação: a capacidade que o sujeito tem de se autonomear - e essa é mais tardia, totalmente constituida na linguagem; por isso eu falar de singularidade pré-linguística, que retira uma carga de consciência, de constituição, de racionalidade até à dita instância subjectiva. Ora a questão não é tanto a de estar ou não no simbólico, é antes a de uma certa postura do sujeito; a literatura, nomeadamente as experiências modernistas, vieram conferir à escrita esse outro bordo de anonimização ou des/im-pessoalização do sujeito, que permite um abrandamento da consciência, da censura até, que o simbólico exerce, formatando o sujeito à lógica assertiva ou tética.

E continua a Professora M.A.B. Aqui passaria para uma outra questão, abordada por Deleuze àcerca de Espinoza. Questão 2: «Une affection, c'est quoi? En première détermination, une affection, c'est ceci: c'est l'état d'un corps en tant qu'il subit l'action d'un autre corps. Qu'est-ce que ça veut dire? "Je sens le soleil sur moi", ou bien, "un rayon de soleil se pose sur vous"; c'est une affection de votre corps. Qu'est-ce qui est une affection de votre corps? Pas le soleil, mais l'action du soleil ou l'effet du soleil sur vous. En d'autres termes, un effet, ou l'action qu'un corps produit sur un autre, une fois dit que Spinoza, pour des raisons de sa physique à lui, ne croit pas à une action à distance - l'action implique toujours un contact- eh bien c'est un mélange de corps. L'affectio c'est un mélange de deux corps, un corps qui est dit agir sur l'autre, et l'autre recueillir la trace du premier. Tout mélange de corps sera nommé affection.» Esta citação, retirada de um seminário de Deleuze, dá a dimensão da re-leitura dinâmica que ele faz da Espinoza e que ajuda a entender essa relação indissociável entre a ideia e a afecção.

Publicado por Porfírio Silva em 12:38 PM | Comentários (6)

Mapa do mundo em construção.

Publicado por Porfírio Silva em 09:29 AM | Comentários (0)

novembro 24, 2003

Objectos. O "homem de barro", do Nuno.

Diz-me, Nuno, quando eras pequeno e fizeste este barro, em que estavas a pensar?
Já sabias que eu to iria pedir, que tu mo irias dar - e que ele andaria agora pelo meio dos meus papéis a afugentar as más ideias?
Ou hei-de eu temer que também ele tenha más ideias?

Publicado por Porfírio Silva em 01:54 PM | Comentários (0)

novembro 23, 2003

As palavras e as fotos. Dedicado aos foto-blogs.

Dedico esta citação aos blogs cuja "linha geral" é apresentada principalmente em fotografias (cujo exemplo mais notório, pelo menos para os meus parcos conhecimentos, é xupacabras).

Escreve Susan Sontag, em Olhando o Sofrimento dos Outros (Gótica): «Quer a fotografia seja vista como um objecto ingénuo ou como o trabalho de um artífice experimentado, o seu significado - e a resposta de quem vê - depende do modo como a fotografia é identificada ou falseada; ou seja, depende das palavras.» (p.36)

Publicado por Porfírio Silva em 10:46 PM | Comentários (2)

Debate. Comentário a "O Erro de Damásio?"

Recebi de António Jorge Filipe Fonseca a seguinte mensagem relativa ao meu texto "O Erro de Damásio?", cuja publicação na Crítica está anunciada num post anterior. Como me interessa o contraditório, aqui fica (com autorização do autor). Espera-se que o debate continue.

«Li com bastante interesse o seu comentário critico sobre o último livro de Damásio que divulga a partir do seu blog. Gostaria de por minha vez o criticar também, pois penso não ser correcta a apreciação que faz daquilo que Damásio pretende dizer. Confesso que ainda não li o livro, mas a forma clara e fundamentada como o cita e critica permitem-me dizer-lhe o que acho que está em questão. Não vou citá-lo ponto por ponto pois seria demasiado fastidioso para si e para mim, por isso agradecia que tomasse em conta apenas um ponto de vista: A certo passo você afirma: "A confusão é grande. Se alguém deixar no ar ideias imprecisas acerca de matéria tão sensível estará a incorrer em grande responsabilidade. Damásio parece um determinista biológico envergonhado. Provavelmente não o é. Mas, se não é, cometeu o grave erro de confundir a presença de mecanismos biológicos activos em qualquer grupo de organismos vivos (como os humanos são) com a tentação de explicar os mecanismos sociais pela base biológica." Não sei donde tirou a conclusão que "Damásio é um determinista biológico envergonhado", só a posso interpretar no sentido em que não acredita que é possível um conhecimento nestas matérias definitivo e conclusivo. Eu acho que Damásio não é um determinista no que respeita à causalidade dos fenómenos biológicos e sociais, e tendo em conta o evolucionismo e a hipótese do 'encaixe' que eu melhor defeniria como uma 'ressonância da materia biológica' a tese de Damásio é perfeitamente aceitável. Do meu ponto de vista, e seguindo Damásio e muitos outros autores que partem de dados biológicos objectivos, faz de facto sentido dar primazia à homeostase biológica nos fenómenos sociais. Se, e aqui é reside o cerne da questão, se aceitarmos que não existe um determinismo no devir temporal mais básico e físico da matéria, o qual se reflete num não-determinismo na própria Biosfera. Podem-se assim compreender fenómenos anómalos como o que retive e que citou da Inquisição, e de outros fenómenos sociais prejudiciais ao individuo ou à sociedade numa determinada circunstância particular. É perfeitamente compatível aceitar que o organismo bio-social que é a humanidade pode eventualmente enveredar por fenómenos a ele próprio prejudiciais, como pode acontecer no individuo biológico por exemplo, alergias e outras doenças auto-imunes sem qualquer finalidade útil. É tudo uma questão de acaso e acerto, que é no fundo o que o evolucionismo vem defendendo desde Darwin. A tendência organizativa do próprio ser biológico encarrega-se de lhe dar forma. Acho que esta é a mensagem fulcral do livro. Quanto ao resto do seu texto encontrei, do meu ponto de vista, algumas más interpretações do livro que noutra altura poderei discutir consigo se o quiser, mas de um modo geral gostei de o ler e da forma extensiva como faz a recensão da sua leitura, coisa a que um curioso da filosofia como eu está pouco habituado.»

Publicado por Porfírio Silva em 10:13 PM | Comentários (0)

O erro de Damásio?

Com este título, publiquei hoje um artigo na Crítica (revista de filosofia e ensino, disponível em linha). Resumo. Faz-se uma análise crítica das teses de António Damásio acerca das emoções e dos sentimentos sociais, tal como são apresentadas no seu livro mais recente Ao Encontro de Espinosa - As Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir. A análise é enquadrada por uma problematização das noções de emoção e sentimento nesse Autor, contextualizadas de forma mais global pelo seu projecto de revalorização do corpo na compreensão da natureza humana. Da análise realizada resultarão algumas apreciações críticas acerca do bem fundado de algumas das teses damasianas relativas à base biológica das instituições sociais.
Pode ler-se em O erro de Damásio?
Publicado por Porfírio Silva em 01:38 PM | Comentários (1)

Pequena história da Máquina de Turing (1)

EU PROMETI CONTAR A HISTÓRIA DA MÁQUINA DE TURING! E JÁ HÁ QUEM SE TENHA QUEIXADO DE QUE NUNCA MAIS COMEÇAVA...

AVISO AO NAVEGANTE DESPREVENIDO: O texto que se segue NÃO tem palavreado técnico. Quem saiba um pouco de português não precisará sequer de um dicionário. MAS é preciso um bocadinho de atenção para o compreender. E talvez também um bocadinho de tempo. Com uma contrapartida saborosa: quem se permitir esse pequeno investimento compreenderá mais cabalmente os episódios seguintes desta história. Críticas serão acolhidas com gratidão: tanto quanto ao conteúdo como quanto à clareza da apresentação.

Qual é o interesse de saber o que é uma máquina de Turing?

O computador digital é um ícone da cultura contemporânea. Mais do que tudo, porque correntes pesadas do pensamento ocidental concebe(ra)m a "natureza humana" como racionalidade de um certo tipo. Para essas correntes, o humano caracteriza-se fundamentalmente pela inteligência e a inteligência corresponde essencialmente a processos computacionais. Numa versão mais específica, o que importa é o programa (software); desde que ele corra, a base material (o hardware) é de somenos importância.
Ora, um aspecto interessante desta questão é que essa visão das coisas não foi inspirada pela existência de computadores: ela é historicamente anterior ao aparecimento dos modernos computadores digitais. A máquina de Turing (MdT) tornou-se uma ferramenta para pensar a razão à luz da ideia de um autómato digital que não depende das minudências da implementação física - e isso antes de virem ao mundo os hoje banais computadores digitais.

Uma MdT é um computador... abstracto !
A MdT foi concebida pelo matemático britânico Alan Turing (1912-1954), muitos anos antes de existirem os modernos computadores digitais (o artigo de referência foi publicado em 1936). Turing também se envolveu na construção de máquinas para quebrar os códigos secretos das comunicações alemãs durante a II Guerra Mundial.
Num sentido preciso, uma MdT é um modelo abstracto de um computador, que se atém apenas aos aspectos lógicos do seu funcionamento e não à sua implementação física. Numa MdT pode modelizar-se qualquer computador digital. Entretanto, é mais fácil explicar o que é uma MdT apresentando-a como uma máquina realizada fisicamente.
A componente física da máquina é muito simples:
- uma fita, dividida em células ou casas, estando inscrito em cada célula um símbolo;
- uma cabeça de leitura e escrita, que se move ao longo da fita (esquerda ou direita) parando em cada casa e procedendo do seguinte modo: lê o conteúdo da célula, apaga o símbolo que lá está e escreve um novo (pode reescrever o mesmo), executa um dos movimentos possíveis.


Como funciona uma MdT?
A MdT funciona seguindo instruções, que especificam qual a acção que a máquina deve executar em determinada situação. Há muitas maneiras possíveis de conceber o modo concreto de funcionamento de uma MdT, e portanto de estruturar as suas instruções. Contudo, para efeitos de ilustração, uma instrução típica tem o seguinte formato:

instrução-1, 1, 0, E , instrução-2 .

Isto quer dizer: esta é a instrução-1; se o símbolo na célula for 1, executa esta instrução como segue; escreve o símbolo 0; move para a esquerda; passa para a instrução-2. O conjunto de instruções é o programada máquina. O programa está na "memória" da máquina. A máquina apresenta um resultado quando pára e isso envolve um dos aspectos práticos a definir quando se define uma MdT. No exemplo que apresentaremos abaixo, o resultado é representado por uma sequência de símbolos 1 que começa na célula em que a cabeça parou e continua para a direita (até à primeira interrupção, o primeiro 0). Se uma MdT nunca pára quando está a executar um programa, isso pode dever-se a um defeito do programa ou ao facto de não ser possível uma decisão (pelo menos num tempo finito) do problema que era suposto o programa resolver.
Em geral, uma MdT é determinista, isto é: para cada situação, há uma e só uma instrução que a máquina tem de seguir.

Para definir uma MdT é preciso definir: - o alfabeto: o conjunto finito de símbolos com que a máquina trabalha; - o conjunto dos movimentos possíveis da cabeça: mover-se para a esquerda, mover-se para a direita, permanecer na mesma posição - o conjunto de estados em que a máquina pode ser colocada (o conteúdo da memória).
Quanto ao alfabeto, muitas opções são possíveis. Aqui, vamos considerar que ele é composto por 0 (zeros) e 1 (uns). Temos sempre que dar uma interpretação aos símbolos. No exemplo que a seguir daremos, os 1 e 0 não terão o significado que têm nos modernos computadores digitais, que usam numeração binária. Aqui usaremos uma numeração unária: um 4 em numeração decimal será representado por 1111. O zero significa apenas "ausência de uns".
A fita da máquina supõe-se ser infinita. No entanto, basta que nunca falte fita para a operação e podemos dispensar na prática a infinitude da fita.

Um exemplo muito concreto: uma máquina de somar

Vamos agora dar um exemplo de uma MdT que adiciona dois números inteiros positivos. As instruções desta máquina são simplificadas, porque só mandam escrever um símbolo ou fazer um movimento (a mesma instrução nunca pede as duas coisas). Normalmente, há duas versões de cada instrução: uma para o caso em que se leia um 0 e outra para o caso em que se leia um 1 na célula em observação. A paragem da máquina é aqui determinada por uma instrução que só contempla um dos símbolos (quando a máquina parar, teremos o resultado).
Neste exemplo, trata-se de adicionar 1 e 2 (representados por 1 e 11 em numeração unária).

O programa para somar é o seguinte:

instrução1, 1 , D , instrução1
instrução1, 0 , 1 , instrução2
instrução2, 1 , E , instrução2
instrução2, 1 , E , instrução2
instrução2, 0 , D , instrução3
instrução3, 1 , 0 , instrução3
instrução3, 0 , D , instrução4
instrução4, 0 , D , instrução4

Damos de seguida o comportamento da máquina a seguir este programa. A fita é representada por :::::::::::::::::::::::::: e sobre ela inscrevem-se os símbolos (0 e 1). A posição da cabeça, com o conteúdo da célula que está a ser observada, é assinalada por [>1<] e [>0<]. O processamento começa pela instrução1. Como o conteúdo da célula que a máquina lê no estado inicial é 1, é a versão correspondente da instrução1 que é executada inicialmente. O avançar do programa é indicado passo a passo.
inst1, 1 , D , inst1---> :::0:::::[>1<]::::::0::::::::1:::::1:::::0::
inst1, 0 , 1 , inst2--->:::0::::::::1::::::[>0<]:::::1:::::1:::::0::
inst2, 1 , E , inst2--->:::0::::::::1::::::[>1<]:::::1:::::1:::::0::
inst2, 1 , E , inst2--->:::0:::::[>1<]::::::1::::::::1:::::1:::::0::
inst2, 0 , D , inst3--->[>0<]::::::1:::::::::1::::::::1:::::1:::::0::
inst3, 1 , 0 , inst3--->:::0:::::[>1<]::::::1::::::::1:::::1:::::0::
inst3, 0 , D , inst4--->:::0:::::[>0<]::::::1::::::::1:::::1:::::0::
inst4, 0 , D , inst4--->:::0::::::::0::::::[>1<]:::::1:::::1:::::0::


A situação final é esta:

Como é que este programa em concreto faz o trabalho? Verifique-se: (i) começa por procurar o 0 que separa as duas parcelas e, substituindo o 0 por 1, junta as duas parcelas; (ii) depois procura a posição onde começa a primeira parcela (encontra o 0 mais à esquerda e avança uma casa para a direita); (iii) substitui o primeiro 1 da primeira parcela por um 0, compensando assim o 1 que introduzira no lugar do separador entre as duas parcelas; (iv) pára, indicando que na sequência ininterrupta de 111 da cabeça para a direita está o resultado. Note-se que, com este simples programa, a máquina somaria com a mesma correcção quaisquer dois números inteiros positivos. E isso funcionando puramente como um autómato, sem que a máquina tenha qualquer noção do que seja "somar"!
Esta história vai continuar, aqui no blog. Vamos fazer aqui uma viagem por certas paisagens da cultura do século XX... e talvez também do século XXI. Mas sem pressas, intercalando outras coisas (que, afinal, se revelarão perfeitamente relacionadas).

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Querendo experimentar tudo isto, pode descarregar um pequeno programa que simula uma máquina de Turing. (Inclui manual de instruções e exemplos.)
Ir buscar programa Turingx.zip (50KB)


O artigo original de Turing pode ser lido aqui , mas é preferível começar por uma introdução séria e concisa (de onde foi tirado o "programa de somar") como esta . A menos que se prefira dar uma espreitadela ao artigo "máquina de Turing" em BRANQUINHO e MURCHO (orgs.), Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos, da Gradiva.

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APÊNDICE

Na mesma MdT apresentada acima, o seguinte programa multiplica por dois qualquer inteiro positivo:
instrução1, 1 , E ,instrução2
instrução2, 0 , E ,instrução3
instrução2, 1 , E ,instrução3
instrução3, 0 , 1 ,instrução3
instrução3, 1 , E ,instrução4
instrução4, 0 , 1 ,instrução4
instrução4, 1 , D ,instrução5
instrução5, 0 , D ,instrução6
instrução5, 1 , D ,instrução5
instrução6, 0 , E ,instrução7
instrução6, 1 , D ,instrução6
instrução7, 0 , E ,instrução8
instrução7, 1 , 0 ,instrução7
instrução8, 0 , E ,instrução11
instrução8, 1 , E ,instrução9
instrução9, 0 , E ,instrução10
instrução9, 1 , E ,instrução9
instrução10, 0 , D ,instrução2
instrução10, 1 , E ,instrução10
instrução11, 0 , D ,instrução12
instrução11, 1 , E ,instrução11

Porque não tentar perceber como funciona este?

Publicado por Porfírio Silva em 12:00 PM | Comentários (0)

novembro 21, 2003

Uma curiosa fraude científica

O Público - Última hora publica (21.Nov.03, 9h22) "Fraude do Homem de Piltdown foi desmascarada há 50 anos". O texto começa assim: "Poucas fraudes científicas terão atingido o requinte da do Homem de Piltdown. Em 1912, foram encontrados na localidade de Piltdown, na região de Sussex, em Inglaterra, umas ossadas que foram consideradas vestígios de um antepassado dos humanos modernos com 500 mil anos, um "elo perdido" da evolução, que apresentava características de homem e de macaco. Os fósseis foram levados para o Museu de História Natural de Londres e lá ficaram, durante mais de 40 anos, até cientistas da Universidade de Cambridge terem conseguido provar que os fósseis eram falsos. O museu só reconheceu o engano histórico a 21 de Novembro de 1953, faz hoje 50 anos. O autor da fraude, no entanto, nunca foi descoberto."
Dado que este é um curioso motivo de reflexão acerca das relações entre ciência, pseudociência e sociedade, gostaria de acrescentar aqui qualquer coisa. Socorrendo-me de quem saiba mais do que eu, é claro. Stephen Jay Gould faz, em O Polegar do Panda (Gradiva), uma análise deste caso (pp. 120-138), extraíndo dele certas conclusões. Resumo como segue a leitura de Gould.
Nos anos 1910, foi apresentado na Grã-Bretanha o que ficou conhecido como "o homem de Piltdown": fragmentos de uma caveira, incluindo partes de um crânio e o maxilar inferior, datados como muito antigos. O notável é que o crânio era claramente humano e a mandíbula claramente simiesca. A descoberta foi considerada notável pelos maiores paleontólogos ingleses e demorou trinta anos a estabelecer com segurança que se tratava de uma fraude: uma mistura intencional de remanescentes de dois animais diferentes. Gould pergunta-se "porquê?" e aponta quatro razões:
(i) a imposição de fortes esperanças sobre evidências dúbias: a paleontologia inglesa desesperava com falta de indícios dos seus antepassados, enquanto os franceses lidavam com superabundância de restos de Neanderthaler e Cro-Magnons - e agora, de repente, o homem de Piltdown, nosso antepassado mais antigo, reduzia o Neanderthaler a ramo lateral;
(ii) redução de anomalias ("buracos" numa teoria científica) encaixando-as em preconceitos culturais: favorecia as teorias da primazia do cérebro na evolução humana: foi um cérebro moderno disponível desde o princípio que nos deu vantagem evolutiva e inspirou as modificações no corpo;
(iii) redução das anomalias equiparando os factos à expectativa: o crânio era completamente moderno, mas na altura foi descrito como se tivesse características próprias para ser tão antigo como era necessário para o engano funcionar;
(iv) prevenção da descoberta pela prática: o comportamento do Museu Britânico tornava praticamente impossível a outros investigadores, que não os proponentes do achado, examinar os originais da caveira.
No global, Gould considera que isto mostra a ciência "como uma actividade humana, motivada pela esperança, pelos preconceitos culturais e pela busca de glória, cambaleando na sua trajectória errática em direcção a um melhor conhecimento da natureza".


Na ilustração: caveira da fraude e esquema do puzzle de despojos humanos e simiescos.


Para mais informações sobre esta fraude científica, consultar (por exemplo) a página que Richard Harter dedica em exclusivo a este tema: aqui

Publicado por Porfírio Silva em 11:00 AM | Comentários (0)

novembro 19, 2003

Debate sobre a Vida, Debate Democrático


1. A Comissão Europeia apresentou (9.Jul.03) uma proposta relativa ao financiamento de investigação com células estaminais provenientes de embriões humanos. O Público - Última hora (19.Nov às 13h24) noticia que "O Parlamento Europeu defendeu hoje, em Estrasburgo, o financiamento comunitário à investigação das células estaminais em embriões humanos, com vista a encontrar soluções para doenças como o Parkinson e Alzheimer."
2. Miguel Ramalho Santos (1) dá-nos em poucas palavras o conceito científico de base: "A maioria das células de um organismo é especializada para desempenhar funções essenciais como digestão, percepção do ambiente ou locomoção. As células estaminais são raras e indiferenciadas, e tanto podem auto-renovar-se como dar origem a descendência diferenciada que, por sua vez, irá desempenhar essas funções essenciais. Assim, as células estaminais são células de reserva que contribuem para reabastecer o organismo durante a perda fisiológica de células diferenciadas ou em casos de perda aguda de células devido a lesões." (pp.473)
3. A Comissão Europeia traça assim o alcance deste tipo de investigação: "A investigação sobre células estaminais é um domínio promissor da biotecnologia para a saúde humana, abrindo perspectivas para o desenvolvimento de novos métodos de reparação ou substituição de células ou tecidos danificados por lesões ou doenças e de tratamento de doenças crónicas graves, como as doenças de Parkinson e de Alzheimer, bem como de doenças mais comuns como a diabetes. Espera-se que a investigação sobre células estaminais proporcione uma melhor compreensão sobre a vida humana e o desenvolvimento das doenças. Esta investigação resultará no desenvolvimento de medicamentos mais seguros e eficazes. Todavia, essa investigação coloca questões éticas quando as células estaminais são derivadas de embriões humanos supranumerários."(2)
"Embriões humanos supranumerários"? O que é isso? Trata-se, em geral, de embriões in vitro que resultaram, em laboratório, de técnicas de reprodução medicamente assistida - mas que acabaram por não ser utilizados. Ora, a utilização desses embriões na investigação levanta, claro, questões éticas.
4. É precisamente sobre essas questões éticas que o filósofo belga Michel Ghins (Professor de Filosofia na Universidade Católica de Louvain) publica uma nota interessante no Le Soir Forum, de Bruxelas (5.Set.03), sob o título La recherche destructrice d'embryons sape la démocratie. O essencial do argumento parte de um livro do filósofo alemão Jürgen Habermas, L'avenir de la nature humaine. Vers un eugénisme libéral (Gallimard, 2002) e corre como segue.
Habermas, em nome de uma "ética da espécie humana", pronuncia-se contra qualquer investigação "consumidora de embriões". Habermas (explica Ghins), em vez de se basear numa metafísica do embrião humano, parte do seguinte postulado: cada um de nós tem o direito de livramente tomar parte no debate democrático que possa chegar a um consenso sobre os valores éticos e as decisões políticas. Consequência imediata: qualquer decisão política que conduza à limitação (ou, a fortiori, à supressão) do direito de cada um a tomar parte no debate democrático - é uma decisão moralmente inaceitável. Assim, a pena de morte é inadmissível, porque exclui alguém definitivamente do debate público. É pela mesma ordem de razões que Habermas considera inaceitável a destruição de um embrião humano, na medida em que o embrião é antecipação de uma pessoa livre e não está em condições de participar na decisão relativa à sua própria eliminação.
Uma vez que a investigação com células estaminais do embrião humano implica a morte desse embrião, essa investigação é moralmente inaceitável - conclui Ghins (na linha de Habermas). E acrescenta: há quem argumente que é preferível dar uma utilidade a embriões que estão condenados a morrer, do que deixá-los morrer sem qualquer utilidade. E responde: isso seria como começar a tirar órgãos a um condenado à morte, em antecipação dessa morte - e é igualmente inaceitável.
Articulando a argumentação de Habermas, Ghins conclui que destruir um embrião, que é a antecipação de um humano que poderia opor-se aos nossos planos, é negar o postulado habermasiano de que o debate democrático exige que ninguém possa ser impedido de participar na preparação das decisões políticas. Nesse sentido, a investigação destruidora de embriões humanos "mina os próprios fundamentos das nossas democracias" (Ghins).
5. O objectivo primeiro deste meu comentário era dar conta da tomada de posição de Michel Ghins (porque será que em Portugal os filósofos falam tão pouco sobre o mundo enquanto filósofos?). Mas há um comentário que quero fazer para espicaçar a reflexão.
A argumentação Habermas-Ghins tem um ponto de contacto evidente com o debate sobre o aborto: a partir de que "ponto" há vida humana nos precursores biológicos de um indivíduo perfeitamente diferenciado? Só que, contrariamente ao que defendem certas vozes "pró-vida", a argumentação Habermas-Ghins assenta num postulado acerca das exigências da democracia. Isso suscita dois tópicos. Primeiro: estão os "pró-vida" disponíveis para uma aplicação política mais generalizada desse tipo de postulado? É que isso pode ressuscitar o velho debate acerca da liberdade: liberdade formal ("burguesa") versus liberdade concreta (direito às condições materiais que permitem a fruição efectiva das possibilidades da vida).
Segundo: se o argumento Habermas-Ghins for válido, isso implica que esse debate é um debate político, que implica uma escolha política - contrariamente àqueles que pretendem subtrair essa questão ao âmbito da decisão democrática, pretendendo que ela seria uma questão de moral que, como tal, "não se vota".

(Agradeço ao Michel Ghins por me ter chamado a atenção para o seu texto.)

______________________________________
(1) SANTOS, M.R., "Células estaminais como densidades autopoiéticas", in SANTOS,B.S. (org.), Conhecimento Prudente para uma Vida Decente, Porto, Afrontamento, 2003, pp.471ss
(2) Comunicado da Comissão Europeia sobre a investigação com células estaminais embriónicas humanas (versão portuguesa)

Publicado por Porfírio Silva em 02:07 PM | Comentários (0)

novembro 17, 2003

Ainda as guerras da "ciência"?

Requentadas, continuam entre nós as "guerras da ciência". Dois protagonistas maiores: Boaventura Sousa Santos (BSS) e António Manuel Baptista (AMB). O último julga ter por missão defender a ciência das teorias sociológicas do primeiro. BSS tem uma certa tendência para pensar que a ciência é literatura. De há uns tempos para cá que ando com vontade de atacar a retórica de BSS, mas AMB não deixa espaço nenhum: porque é um provocador, um praticante do estilo panfletário que julga ser seu dever defender a santidade da ciência. Assusto-me só de pensar que, criticando BSS, possa parecer que defendo AMB. BSS organizou um volume com contribuições variadas acerca dos aspectos sérios desta polémica: Um Conhecimento Prudente para uma Vida Decente (Afrontamento). Muitos textos apoiam aspectos das teses de BSS, outros mostram mais os seus limites. Mas é um volume mais interessante do que eu estava à espera. Que tem argumentos. Alguns incorrectos, mas que exigem análise e resposta. AMB não arranjou nada melhor do que responder com um texto que só posso considerar insultuoso. Foi publicado no suplemento Actual do Expresso de 15/Nov. Duas páginas completas (!) intituladas "Conversa de pássaros". Começa longamente por emparelhar (embora obliquamente) BSS e Lysenko, da ex-URSS. Não é possível explicar aqui o que significa Lysenko para a história da ciência, mas tal "recurso estilístico" neste contexto está abaixo de uma brincadeira de mau gosto. Diz que BSS ter ido a Belém com directores de institutos científicos é "como se soubéssemos que um músico «pimba» (sem ofensa) tinha ido com Sequeira e Coste e Mª João Pires". O "sem ofensa" deve ser para os músicos pimba, suponho... Diz que uma forma de desacreditar a ciência é pessoas como BSS considerarem-se cientistas. Diz que "a prosa do professor de sociologia de Coimbra, tão fluentemente rara de argumentos, se adorna e recreia (como dizem os aficionados tauromáquicos) em páginas e páginas". E diz outras coisas - mas não dá argumentos. Só berra. É uma pena. Cientistas destes é que prejudicam a imagem da ciência. Aliás, um fanático mal-educado prejudica qualquer causa, por muito nobre que ela seja.
Dedico a AMB, que deve julgar-se o cientista modelo em defesa da sua dama, o seguinte excerto de O que é uma lei física?, de Richard Feynman, prémio Nobel da Física (Gradiva):
«Para aqueles que insistem em que a única coisa importante é a concordância da teoria com a experiência, gostaria de imaginar uma discussão entre um astrónomo maia e um seu discípulo. Os Maias eram capazes de calcular com grande precisão as efemérides, por exemplo, os eclipses, a posição da Lua no céu, a posição de Vénus, etc. Faziam tudo com o auxílio da aritmética. Contavam um dado número, subtraíam outros números, etc. Não discutiam o que era a Lua, não questionavam o que se passava. Só calculavam a ocorrência de um eclipse ou da fase de lua cheia, etc. Suponhamos que um jovem ia ao astrónomo e lhe dizia: "Tenho uma ideia. Talvez esses objectos andem à roda, talvez existam lá em cima bolas feitas de algo semelhante a pedra e possamos calcular os respectivos movimentos de um modo completamente diferente do da previsão simples do seu aparecimento no céu." "Sim", diz o astrónomo, "e com que precisão consegue prever os eclipses?". Resposta do jovem: "Ainda não desenvolvi a coisa a esse ponto." Então replica o astrónomo: "Bem, consigo calcular eclipses com muito maior exactidão do que o seu modelo, pelo que a sua ideia não é muito relevante. O esquema matemático é certamente melhor." Quando alguém nos surge com uma ideia e diz "suponhamos que o mundo é desta maneira", existe uma tendência muito grande para lhe respondermos: "Qual é a resposta para este e para aquele problema?". Ele diz: "Ainda não desenvolvi a coisa a esse ponto." E os outros:"Pois bem, nós obtemos respostas muito precisas." O problema consiste, portanto, em saber se devemos preocupar-nos ou não com filosofias por detrás das ideias.» (pp. 217-218)


Publicado por Porfírio Silva em 11:17 PM | Comentários (3)

Memórias. Berlim, 1989, um dia como este, um muro como qualquer outro.


Quando começaram a abrir rasgões no muro da vergonha, eu estava lá (tinha ido à conferência "Security in Europe: Challenges of the 1990's" e fiquei mais uns dois ou três dias, porque era a primeira vez que ía a Berlim e queria conhecer). No princípio, as máquinas abriram só umas "portas" no betão e só passavam (de leste para oeste) os reformados que tinham família do lado de cá, talvez porque o regime achava que já só davam despesa. Só depois é que a brecha se foi alargando. Descobri agora duas folhinhas que escrevi na altura, "do lado de lá", no meio da agitação. Estão a ficar roídas pelo tempo. Antes que desapareçam, transcrevo-as para este arquivo-pessoal-público.

Folha 1. "Aqui é a Marx-Engels Platz, em Berlim Leste. Hoje são 17 de Novembro de 1989. O Muro já tem aberturas mas ainda falta muita coisa. Aqui está a ocorrer uma manifestação (ou concentração) de estudantes (pelo menos parecem, pela sua juventude, apesar de também haver gente mais velha). Vim para aqui directamente da estação de metropolitano, onde comprei o meu visto e troquei os obrigatórios 25 DM por 25 marcos da DDR. Do lado de lá vale, não 1 para 1, mas 1 para 10 ou ainda mais. Há o pequeno pormenor de que tenho a máquina fotográfica da Guida ao ombro, mas não consigo tirar nenhuma fotografia. Até o azar pode ser histórico... Outro pormenor é que está um frio danado, que entra por todo o lado apesar de estar com dois pares de meias calçados, camisa, camisola de gola alta, casaco de inverno e gabardina. São aqui 15.50H."
Folha 2. "No mapa, tenho aqui uma indicação sobre a Igreja de S. Nicolau, no centro histórico de Berlim. Fui para entrar, vi que se pagavam entradas e que havia um museu. Como não estou com grande tempo para museus, fui perguntar se também se pagava para ver a igreja. Resposta: «Isto não é uma igreja. Isto é um museu.» Entendi: estamos, realmente, no Leste. São 16H 13M."

Memórias das minhas ingenuidades, pois. Eu não falava uma palavrinha de alemão, mas recolhi um comunicado da SPARTAKIST - Herausgegeben von der Trotzkistischen Liga Deutschlands, com o título "Für eine leninistisch-trotzkistische Arbeitpartei!". E em baixo de página: "Für den Kommunismus von Lenin, Luxemburg und Liebknecht!". Ainda tenho uns jornais, uns autocolantes, uns "alfinetes de peito", desses dias. E, claro, umas pedrinhas pequeninas que eu próprio rapei do muro, à unha, enquanto outros já andavam em cima dele com picaretas.
Agora, já não há muro, mas há um grande fosso que permanece. Se aquilo fosse um fecho éclair, em vez de um muro, ainda estaria aberto?

Publicado por Porfírio Silva em 03:12 PM | Comentários (0)

Entre saber uma coisa e tê-la experimentado...


De um amigo, para publicação, recebi o que segue: texto; desenho original. Obrigado, Rui C. - porque não podemos estar atentos apenas àquilo de que estamos à espera, devemos estar gratos aos que nos puxam o olhar para outros lados.
"Entre saber uma coisa e tê-la experimentado vai uma grande diferença. O espírito queria conhecer-se de modo experimental. A consciência conceptual não era suficiente. Então concebi um plano. Foi a ideia mais extraordinária de todo o universo e o partenariado mais espectacular. Eu digo partenariado, não porque esteja na moda mas porque vocês participam de igual modo do que Eu. De acordo com este plano vós, espíritos, iriam entrar no universo físico que Eu tinha acabado de criar. Isto porque a materialização é o único modo de conheceres de modo experimental o que tu já sabes de modo conceptual. Continuando nesta lógica tu não podes fazer a experiência de ti mesmo na base do que tu és, antes de teres encontrado o que tu não és. Esta é a base da teoria da relatividade e de toda a vida física. O que é definitivo é o que tu não és." (Adaptado de "Conversas com Deus" de Neale Donald Wasch)
Rui C. (Bruxelas)


No Jardim - Desenho original de Rui C.

Publicado por Porfírio Silva em 10:19 AM | Comentários (0)

novembro 16, 2003

Uma teoria da blogosfera?


Está uma interessante reflexão sobre a blogosfera em (o vento lá fora). Mas eu, que sou novo nisto, fico a pensar. Em qualquer roda de amigos, há sempre os que gostam mais de falar do que ouvir e os que gostam mais de ouvir do que falar. Os que gostam mais de falar são normalmente mais populares. Em qualquer roda de amigos, há sempre os que têm opiniões firmes sobre qualquer assunto que venha à baila e os que muitas vezes estão mais a tentar perceber do que a tentar opinar. Os que têm sempre uma sentença a ditar, são tidos por mais "afirmativos". Em qualquer parlatório, há sempre os que puxam para acentuar as diferenças e os que preferem procurar sobreposições. E assim por diante... porque o mesmo se passa na blogosfera. Parece que alguns se escandalizam com a ignorância técnica de outros. E daí? Eu até gostaria de melhorias, a começar pelo meu blog - mas tenho mais que fazer, não tenho tempo para isso, essa é a verdade. E mais: não considero isso essencial. Um dos debatentes diz que certos blogs podiam ser escritos em Word. Pois podiam: até os Lusíadas podiam ser escritos em Word, o problema é que eu tenho Word mas não tenho unhas para escrever os Lusíadas. Na blogosfera, como em qualquer lado, há os falam aos berros e os que falam baixinho. Há os que falam sobre qualquer coisa e com quem quer que seja: é como aquelas velhinhas que nos apanham sózinhos nos comboios e não se calam até ao Porto. Há quem goste, mas eu não. Há os que teorizam que é preciso postar todos os dias, mas isso a mim não me diz nada: se escrever todos os dias, ou deixo de trabalhar ou só escrevo porcarias. Gabo a diligência dos que não têm as minhas limitações. O que não me sinto é obrigado a ser como os outros. E não percebo muito bem certas ideias de fixar o que é "bem" e o que é "mal" na blogosfera. Ou a ideia é fazer uma moralidade blogosférica? Só me faltava essa. E há mais: parece que há gente demais a querer ser imediatamente identificada como sendo "de esquerda", "de direita", disto ou daquilo. Eu não ando nessa. O que eu quero dizer não se diz em três semanas. Não vim para aqui para lançar muitos foguetes e ir-me embora a correr. Eu tenho qualquer coisa para dizer, mas não o posso dizer como se isto fosse um comício. Por isso vou com calma. Se puser a ligação do blog XPTO no meu blog, assim sem mais nem menos, fico conotado. E farto de rótulos já eu estou. Para conhecer os outros também preciso de tempo. Não sou dos que pensem que lêem um post e já toparam a pinta do seu autor. Pode-se comentar aquilo que se passa sem falar no nome de ninguém: pode é ser mais difícil de compreender. Em suma, porque o desabafo já vai longo demais: abaixo as teorias explicativas da blogosfera, vivam as teorias (e as práticas) da diversidade! Abaixo a moda da hiperactividade, viva a liberdade de escolher a hiperactividade, a inactividade, a contemplação ou qualquer outra posição que se deseje! (Mesmo que seja de cócoras?!?!) Boa noite.
Publicado por Porfírio Silva em 05:13 AM | Comentários (0)

novembro 14, 2003

"...até que a mão aprenda a ver." (Paula Rego)


Carina Carvalho (Euronotícias, 14.nov) obteve de Paula Rego a seguinte frase: "(...) pode-se aprender a desenhar à vista, a copiar, a copiar ... até que a mão aprenda a ver." A entrevista mostra cultura e conhecimento (da entrevistadora) e um bocadinho do mundo "retorcido" de Paula Rego. Sem medo de olhar para dentro de nós e ver as pedras que lá andam aos tombos. Vale a pena ler.
Publicado por Porfírio Silva em 06:20 PM | Comentários (0)

Relógio de pulso com Mostarda (produto pluridisciplinar mítico). Uma abordagem integrada do tempo e da alimentação (ensaio sobre as teorias da inovação).

1. Tome-se um relógio de pulso perfeitamente clássico. Acrescente-se mostarda. Em caso de um ataque de fome, o novo produto é indiscutivelmente muito mais útil do que o produto clássico. Trata-se de uma inovação. As mentes esclarecidas dar-se-ão imediatamente conta da sua valia, com base na adesão ao princípio geral da superioridade intrínseca das inovações. Contudo, dada a raridade crescente dessas mentes esclarecidas, deve prever-se um processo de demonstração da superioridade desta inovação particular em concreto (método delineado nos pontos seguintes).
Esquerda: Relógio de pulso clássico. Direita: Relógio de pulso com mostarda.
À esquerda: Relógio de pulso clássico. À direita: Relógio de pulso com mostarda.


2. Constrói-se um relógio de pulso com mostarda degenerado (isto é: sem mostarda). Torna-se trivialmente patente que mesmo o relógio de pulso com mostarda degenerado, apesar de não ser tão completo como o relógio de pulso com mostarda original, é tão útil para medir o tempo como um relógio de pulso clássico.
À esquerda: Relógio de pulso com mostarda. À direita: Relógio de pulso com mostarda degenerado.
À esquerda, relógio de pulso com mostarda. À direita, relógio de pulso com mostarda degenerado.


3. Considerando:
(a) que os novos relógios de pulso com mostarda são pelo menos tão bons como os relógios de pulso clássicos a fazer a única coisa que fazem os relógios de pulso clássicos (medir o tempo);
(b) que os novos relógios de pulso com mostarda têm uma valência completamente ausente nos relógios de pulso clássicos (culinária);
deve concluir-se pela superioridade dos relógios com mostarda.

Anexo: Cuidados a ter com indivíduos pouco sensíveis à inovação.
Parte I - Se ao cozinheiro se fizer notar o ligeiro gosto metálico que tomou o condimento, responda-se que há que atender ao facto de que nunca antes a mostarda se vira assim associada à medição do tempo.
Parte II - Se ao relojoeiro alguém apontar que os ponteiros estão parados, faça-se ver quão notável contributo deu o pertinente cozinheiro à nouvelle cuisine.


__________________________________
Bibliografia sumária: Jean-Yves Girard, "Intelligence artificielle et logique naturelle", in TURING e GIRARD, La machine de Turing, Paris, Seuil, 1995
Publicado por Porfírio Silva em 05:09 PM | Comentários (0)

novembro 10, 2003

Damásio na imprensa portuguesa (ou as políticas da ciência)


António Damásio (AD) publicou recentemente em versão portuguesa mais um dos seus livros de grande divulgação (no mesmo ano da publicação do original em inglês, o que não é novidade absoluta, mas é sempre de assinalar e saudar): Ao Encontro de Espinosa - As Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir (Publicações Europa-América). A obra merece uma análise, que faremos noutro sítio. Aqui, daremos apenas algumas notas sobre a cobertura desse lançamento pela imprensa.

1. A primeira constatação, óbvia, é sobre o volume: com o impulso da presença do Autor em Portugal, foram publicados materiais, num intervalo de muito poucos dias, nos seguintes órgãos de comunicação social escrita, com os seguintes títulos (trata-se quase sempre de entrevista ao Autor):
Diário de Notícias: "Neurobiologia dará mais consciência à humanidade" (31.Out);
Euronotícias: "As pessoas querem tomar Prozac" (31.Out);
O Independente: "Estamos constantemente a ser manipulados" (31.Out);
O Semanário: um dossiê intitulado "O retorno do obscurantismo" (31.Out);
Jornal de Notícias: "Há o aspecto natural que nos leva à inveja e racismo" (31.Out);
Público: "Os sentimentos confundem-se com o princípio da consciência" (2.Nov);
A Capital: "A neurobiologia pode reduzir o sofrimento" (5.Nov);
Visão: "O Homem, essa fábrica de emoções" (30.Out), "O mestre das emoções" (6.Nov);
Focus: "Não me estou a intrometer no território dos poetas".
(Não excluo que outras peças me tenham escapado, durante a semana que andei pelo Novo Mundo. Obrigado à M.M. pelos recortes dos jornais.)

2. A segunda constatação, talvez menos óbvia, é sobre os destaques (títulos): têm, em muitos casos, pouco a ver com o que é mais importante cientificamente na obra de AD. AD tem dado contributos relevantes à compreensão do que é o humano, a partir da neurobiologia. Lateralmente, acrescenta coisas mais vagas, menos fundadas e/ou menos originais sobre aspectos relacionados mas não centrais. Em quase todas as entrevistas publicadas há um elemento (normalmente, aparece depois das perguntas sérias) de concessão à actualidade e ao imediatismo. Por exemplo, a entrevista de Fernando Esteves (Independente), que não deixa de ter interesse, não resiste a puxar o processo da Casa Pia para o subtítulo. Em certos trechos, é como se entrevistassem Galileo Galilei e ele respondesse: "Já leram a peça que o Brecht escreveu sobre mim?". Mas, isso até acaba por ser pouco importante, porque há matéria muito interessante nas peças em análise. Aqui, quero dar particular atenção às perguntas, mais até do que às respostas.

3. A melhor entrevista é a de André Barata (Público). As perguntas são relevantes, informadas, questionantes - e não declarações admirativas do brilho do génio. Confrontam AD com alguns limites da sua proposta. Introduzem um elemento de diálogo cosmopolita: pergunta-se (e obtém-se uma resposta substancial) sobre a polémica iniciada no New York Times pelo filósofo Colin McGinn. Esta entrevista é um verdadeiro princípio de debate. Por vezes, o entrevistador parece não ficar muito convencido com as respostas obtidas (bravo!).
Em certos casos, talvez compreensivelmente, as teses de AD que roçam mais a actualidade política são objecto de leituras demasiado imediatas. Por exemplo, Carina Carvalho (Euronotícias), pergunta pelo Iraque, pelas organizações internacionais, pela liberdade de expressão. Compreende-se, em parte porque AD valorizou particularmente na versão portuguesa (com um subtítulo diferente do original inglês) as suas supostas novidades acerca das emoções sociais. Nesta entrevista, AD dá um toque da sua ingenuidade, quando diz que a maior adversidade que hoje se coloca à ciência é "a limitação dos meios para a investigação" e que "desde que haja fundos para a investigação não há qualquer adversidade" - embora acautele: "aquilo que realmente é importante é que o público (...) esteja envolvido na forma como a ciência decorre". A entrevista estava a acabar, mas foi pena não se ter aproveitado esta deixa para questionar AD sobre as "guerras da ciência" à portuguesa.
Filomena Naves (Diário de Notícias) parece ter percebido (ou pelo menos intuído) a ingenuidade de AD no tocante às emoções sociais, quando pergunta: "Como é possível então à pequena parte da humanidade que é rica desenvolver a compaixão social, quando mais de metade da população mundial vive abaixo do limiar da pobreza?" Boa questão, e o grande problema é que AD parece pensar que a sua teoria neurobiológica pode responder a isso.
Eduarda Ferreira (Jornal de Notícias) faz uma pergunta muito interessante a AD: "Com base nos pressupostos que apresenta no seu livro, a Humanidade só poderá caminhar para o bem-estar e para a felicidade, para uma situação positiva, precisamente porque estará condicionada para essa auto-regulação. É isso?" Resposta: "Não, não é. A sociedade pode caminhar no bom ou no mau sentido. (...)" Boa pergunta, Eduarda Ferreira: esse equívoco não é seu, é dele - e esse problema é central para compreender o defeito da teoria damasiana.
Paula Santos Ferreira (A Capital) começa pela grande questão: se as emoções e sentimentos são biológicos, não são exclusivos do ser humano, isso não os desqualifica? Nas palavras dela "não está a destruir a magia e a desmistificar a crença?" O início da resposta é um magnífico sumário das ambiguidades de AD: "é talvez um desmistificar da crença, mas não se perde a magia." E a entrevistadora ainda insistirá no alcance da explicação biológica, que é de facto a chave para uma leitura de AD.
Já em resposta directa a uma pergunta da Visão, AD mostra outro lance do problema das suas teses: "Estamos completamente à mercê da natureza".
Digo eu: muitos dos entrevistadores tiveram ou uma compreensão clara do que pode ser problemático na propostas de AD, ou pelo menos "um vislumbre" disso. Trabalho útil a apelar à leitura da obra, portanto.

4. Claro, já não se pede à imprensa generalista coisas como detectar diferenças pequenas mas significativas entre o original em inglês e a versão portuguesa (que é do próprio Autor, o que torna as variantes merecedoras de atenção). Por exemplo, logo a abrir o capítulo 5 (Corpo, Cérebro e Mente), depois de explicitar algumas das questões atinentes ao chamado "problema mente-corpo", AD diz em português que "poucas respostas há que satisfaçam a maioria daqueles que reflectem sobre tais perguntas" (p. 207). Uma verificação vaga e genérica. Mas, nesse mesmo sítio, na versão em inglês da Harcourt o mesmo AD diz algo de muito mais substancial: "general agreement is confined to the notion that mind is a process, not a thing" (p. 183) A variação não é menor e deve ter uma boa explicação. Estou em crer que o objectivo de AD não seja evitar chocar aqueles que veriam na frase "disfarçada" uma confissão demasiado directa de monismo materialista. Se fosse esse o caso, ele não seria o primeiro: muitos cientistas temem as reacções vulgares às suas ideias mais ousadas. O que seria chocante seria outra coisa, se fosse esse o caso aqui: Damásio julgaria que o público "esclarecido" do mundo anglo-saxónico suporta bem esse materialismo, enquanto o sensível público português poderia horrorizar-se se tivesse, condensada numa única frase, uma ideia que obviamente está omnipresente em todos os seus livros de grande divulgação. Daí que tenha todo o interesse a seguinte pergunta da Visão: "[tal como Espinosa e Descartes], também tem cuidado com o que escreve?" (querendo dizer: "também esconde parcialmente o que pensa?").

5. Contudo, há um caso muito especial nesta "revista de imprensa": o tratamento dado pelo Semanário. A entrevista é hilariante. Numas perguntas iniciais parece haver algum interesse sobre qualquer coisa relacionada com a obra, mas as respostas de AD parecem ter como conteúdo exclusivo a mensagem "vossa mercê não percebeu nada do que eu escrevi" (leitura benévola). Depois, as perguntas passam para o que o título da peça indicia: "o outro lado de Damásio": livros, filmes, música, etc.. Nada, pois, que tenha a ver com a neurobiologia. Dá a ideia que AD já sabia que a introdução à entrevista conteria "mimos" como "esquivou-se a falar do seu sistema". Confesso que gostava de ouvir a gravação da entrevista, o tom de voz talvez seja esclarecedor. Sem tentar uma explicação, limito-me aqui a mencionar as outras peças deste dossiê. Há um texto (longo) de Lília Marcos que parece pretender resumir o livro: tenho dúvidas sobre a fidelidade de alguns pontos da recensão, mas reconheço que incarna um serviço que outros jornais não prestaram. Parece respirar-se alguma ironia contida na apresentação, mas isso não é criticável. A outra peça - que abre o dossiê, intitulado "O retorno do obscurantismo" - não é assinada (tanto quanto eu posso perceber) e versa sobre a conferência organizada pela Ordem dos Advogados onde AD orou. Esta peça, sim, é digna de atenção! O título é Os fundamentos biológicos do mal ou o regresso da Novíssima Direita. Apenas algumas citações:
§ 2 - "Ao obscurantismo religioso (...) AD opõe o obscurantismo da evolução e o dogma da origem neurofisiológica do mal, fazendo apelo a que o Direito nas sociedades contemporâneas consagre a maldade definitiva dos lesionados."
§ 3 - "a proposta é mais que uma ousadia, fazendo lembrar um país provinciano que vai nas modas que, de dois em dois anos, alguns estrangeirados lhe trazem. AD nem é o primeiro, mas, como outros, acaba por servir uma opção ideológica do bastonário, como António Borges serve para o provincianismo da agenda económica de Durão Barroso."
§ 7 - "Para AD o homem é emoção e Descartes passa a não constar dos livros da escola."
§ 8 - "Tentar ler a realidade através da ciência passou a ser um absurdo que a epistemologia da ciência já há muito desmontou. Mas não falta quem faça afirmações definitivas, sobretudo quando se vem da América à terra que o viu nascer."
§ 9 - "as hipóteses de AD servem, vinte anos depois, de bases fisiológicas da «Novíssima Direita»".
§ 11 - "AD, ao contestar a esquerda e Descartes, não tinha ido mais longe que o «amor» no cristianismo. Agora, proclama um novo humanismo, o humanismo de um homem mal formatado na evolução e cujo erro o neurocirurgião poderá corrigir."
Que não se fique por isto: leia-se o original integral, que é "notável"!
O que é pena é que há neste texto elementos para um verdadeiro debate, mas as confusões são tantas que esta peça se torna imprestável para qualquer tentativa de ver mais claro. Porque será que um jornal que dedicou tanto esforço a questionar AD não teve o cuidado de tratar os assuntos sem ser à pedrada?

6. Neste, como em muitos outros casos, as ideias contam. As ideologias não desapareceram, nem vão desaparecer. Esquerda e direita ainda existem e ainda são diferentes. Mas as fronteiras são cada vez mais caprichosas. Muitos debates continuam a travar-se na fronteira esquerda/direita. Mas outros travam-se em fronteiras dentro da própria direita. E outros travam-se em fronteiras dentro da própria esquerda. Nos debates que se travam dentro da direita, a esquerda pode estar a favor de uma direita contra outras (exemplo: direita religiosa ou "moralista" vs. direita laica). Nos debates que se travam dentro da esquerda, a direita pode estar a favor de uma esquerda contra as outras (exemplo: a direita tem tendência a gostar dos economistas da esquerda que tentam mover-se no quadro neoclássico). E, noutros casos, a confusão é total (por exemplo, sempre houve esquerda e direita mais proteccionista em termos de comércio internacional, como sempre houve esquerda e direita mais liberalizadora nesse aspecto). É precisamente por isso que parece um pouco anacrónico situar hoje o debate do determinismo como um debate entre direita e esquerda. Isso pode ser tranquilizador para alguns: pouparia a maçada de pensar, bastaria seguir um dos rebanhos. Mas as coisas estão hoje em dia um pouco mais complexas: o debate do determinismo passa, em grande medida, por dentro da própria esquerda (e também talvez por dentro da própria direita), como passa por dentro da própria esquerda e da própria direita o debate acerca do papel da ciência na sociedade. Apontar o dedo e acusar "vem aí a direita determinista", é pouco esclarecedor, não é um argumento, é uma cegueira. É um novo "ensaio sobre a cegueira".
Como assinala Richard Lee ("O destino das «duas culturas»: mais uma salva de tiros nas «guerras da ciência»", in Boaventura Sousa Santos (org.), Conhecimento Prudente para uma Vida Decente, Afrontamento, pp. 81-98), as guerras da ciência são encaradas por alguns intérpretes como uma luta no interior da esquerda política: a "velha esquerda", que vê a ciência como instrumento de luta pela justiça social; a "esquerda cultural", para quem a ciência é um poder que pode ser opressor. A imagem a preto e branco está desfocada. Alguma subtileza recomenda-se.



Rembrandt, A Lição de Anatomia do Dr. Tulp, 1632
(comentário pp. 244-247 de Ao Encontro de Espinosa)
Publicado por Porfírio Silva em 11:53 AM | Comentários (0)

Postal para o meu amigo Rui C.


A Bélgica é um paraíso para os amantes de Banda Desenhada: aí há muita, boa, variada, inovadora. Em Bruxelas, é um especial prazer passar pela Brüsel, verdadeiro microcosmos de desenhos em tiras.
Vem isto a propósito de me teres enviado um volume de Monsieur Jean, Inventaire avant travaux, de Dupuy-Berberian, publicado na Dupuis. Usa-se pouco um adulto oferecer a outro adulto um álbum de BD. Porquê? Pura ignorância, suponho eu. Só pode ser isso, dado o facto de haver coisas tão esteticamente relevantes e tão intensas em BD. Talvez alguns tenham medo de serem tomados por "infantis". Adiante: tu (e eu) não tens (não temos) esse problema. Ainda bem. Obrigado pela prenda. Dizes, a propósito deste álbum: "acho que o Truffaut ou o Rohmer não conseguiam fazer em cinema uma coisa tão engraçada como esta história". És capaz de ter razão. Por isso mesmo, pergunto-te eu: porque será que a BD é tão pouco conhecida?
Com este envio deste-me uma ideia: vou abrir uma "linha" sobre BD neste meu blog. Isso já estava para acontecer de forma incidental (lateral), por causa da "história da máquina de Turing" que aqui vou contar. Mas agora vai mesmo ter uma vida própria. Depois verás. Um abraço.

Publicado por Porfírio Silva em 09:13 AM | Comentários (0)

novembro 08, 2003

FAHRENHEIT 452 (carta aos novos poetas portugueses)

passas a mão pelo pêlo do bicho
e escreves "hirto, o pêlo do bicho"
e confias que eu compreenda:
porque conheço o pêlo, conheço o bicho e conheço "hirto"
já os encontrei em outros dias não olvidados
já usei essas palavras e esse bicho
tudo isso tu esperas

imaginas que por muito pobre que eu seja hei-de ter visto um bicho algures
afinal, livros com histórias compreensíveis estão à venda nos quiosques de jornais
qualquer jornal televisivo encontra cientistas sociais nos seus inquéritos de rua
alma por alma, tens a tua, imaginas tu nos teus diálogos amorosos comigo, teu leitor;
mesmo os pedintes podem nos cruzamentos ver toda a sorte de fantasias
como se acolitassem o sumo pontífice em audiência à embaixada
que o pitoresco e gastador monarca enviou com elefantes e onças amestradas
para que se soubesse na cristandade a ventura que era ser rei deste reino de portugal
e ter assistido à descoberta do caminho marítimo para a índia e à rota do brasil

o que tu não podes saber é de onde conheço eu o bicho
nada suspeitas quanto a que hirto está o meu pêlo
e que o que mais temo é que me toques o dorso
e que o meu receio é a fraca agilidade para morder-te a mão;
transtorna-me que penses sequer no meu abrigo natural
e não penso uma só vez que isso aconteça apenas na camada de cima do teu poema

se pudesses morder-me, eu compreendia-te
mas tu escreves para que as palavras me façam sentido
para que haja uma palavra tua para cada tijolo do mundo
seja por nomeares as peças da máquina com palavras próprias
seja por podares as palavras sem dono
e isso cria-me o desconforto de sugerir que te compreendo:
parece que me desejas um abrigo
imagino a tua disposição para me acolher no recanto de onde parte o teu olhar
e isso incomoda-me

se quisesse morder-te, compreendia-te
mastigar explica muita coisa
mas como queres que a gente se morda num abrigo?
se me expulsasses
se pairassem alienígenas nas nossas salas
se as nossas mães com armas mirabolantes se apresentassem nos nossos quartos
e os nossos filhos fossem enxertados em artefactos engenhosos
se os incendiários não usassem tão apenas querosene
talvez o falecer da compreensão me ajudasse
- mas como queres que valha a pena ouvir o que já está escrito?

Podes até acariciar-me, isso não faz mal algum
porque nada explica
mas esquecem-se-me os poemas, prefiro as parábolas
fugidias.


Publicado por Porfírio Silva em 05:56 PM | Comentários (0)

DREYFUS E MAIS ALÉM


Robert O. Paxton publicou, na já longínqua edição de 27 de Fevereiro de 1986 da The New York Review of Books, uma recensão da edição em inglês de um livro de Jean-Denis Bredin sobre o famoso caso Dreyfus. Grande parte do que se segue são excertos desse comentário ao livro.

1. Um resumo dos factos: as falsificações existem. «Um dia em 1894 uma mulher-a-dias da embaixada alemã em Paris, que trabalha para a espionagem francesa, encontra no caixote do lixo do adido militar um papel indicando que um oficial francês está a passar segredos militares aos alemães. O capitão Alfred Dreyfus, único oficial judeu no Estado-maior francês, é injustamente acusado e oficiais superiores da espionagem fazem a acusação vingar forjando mais documentos. Adicionando ilegalidade à falsificação, mostram-nos secretamente ao tribunal militar, mas escondem-nos da defesa. Como o herói apodrece na Ilha do Diabo, apenas a sua esposa, o seu irmão, e alguns outsiders mantêm a crença na sua inocência. Os seus esforços para descobrir a verdade e persuadir outros da inocência do herói, passam-se em anos de voltas e reviravoltas. (...) Finalmente, após doze anos de luta, a justiça triunfa. O tribunal de recurso anula as duas condenações do tribunal militar.»

2. As conspirações são muito manhosas. «[O livro] está admiravelmente livre das teorias barrocas da conspiração que proliferam luxuriantemente em ambos os lados deste caso. Recusa supor que todos os mistérios devem ser solúveis por construção lógica. Está pronto a admitir que muitos detalhes continuam por esclarecer, mesmo após estudo aturado do dossier. (...)»

3. Liberdade individual e liberdades cívicas. «O autor teve inevitavelmente um interesse especial pelos dois advogados incompatíveis de Dreyfus. O velho e tradicionalista Edgar Demange quis arguir o caso em termos estritamente técnicos, limitar-se a suscitar uma dúvida salvadora, aplacar o exército, e aproveitar os compromissos propostos pelo governo. Colidiu com o jovem e flamejante Fernand Labori, que estava apaixonadamente empenhado em discutir o caso em termos de liberdades civis em sentido lato e em lutar pela vitória total. Dreyfus e sua família preferiram Demange. (...) Este homem austero e recatado, que queria apenas ser deixado só para viver a sua vida de patriotismo e dever, decepcionou os seus apoiantes mais militantes que desejavam uma cruzada. (...)» Mas, dizemos nós, o problema é que nem todos os exercícios de cidadania podem ser desempenhados de forma recatada ? e a tentativa de assassinato cívico de um líder político não se trava na secretaria.

4. A justiça e a política não são como a água e o azeite. «O caso Dreyfus ocorreu num momento muito particular do desenvolvimento da política de massas (...). Demagogos através de toda a Europa experimentaram, nos anos 1880 e 1890, o anti-semitismo e o nacionalismo como a cola de um novo conservadorismo de massas. Tiveram sucesso considerável em separar uma parte da classe trabalhadora do socialismo. Mais de 39 por cento dos subscritores do "memorial a Henry," um fundo que o insolentemente anti-semita jornalista Edouard Drumont recolheu para apoiar a viúva do major Henry, o falsificador que estivera na origem do caso, após o seu suicídio, foram trabalhadores ou artesãos, que se juntaram com padres, oficiais e a pequena aristocracia rural para dar uns tostões e fazerem umas provocações.»

5. Convém não esquecer as lições da história. «[O autor] tem o equilíbrio para ver o caso de Dreyfus como mais do que um marco na história do anti-semitismo moderno. (...) A lealdade de grupo de um oficialato sitiado e a famosa justificação que Charles Maurras fez dos actos do major Henry como "falsificação patriótica", certamente a defesa mais seca da raison d'état alguma vez escrita, não tem uma conexão necessária com o anti-semitismo. Há perigos em todos os estados modernos (...).»

6. Do século XIX para o século XXI. Nesta nossa democracia, tantas vezes se toma quase como insulto ser ?um homem de partido?. Mas é isso que permite que, em determinado momentos, saibamos com que opções e biografias concretas contamos. Contrariamente a certos providenciais instantâneos, que de repente se apresentam com as credenciais da falta de passado partidário, nós sabemos de onde vêem certos homens e mulheres porque são ?de partido? e porque os partidos servem também (embora sem exclusivo) para estruturar personalidades representativas com profundidade, que sejam ?marcos? no terreno público e forneçam à comunidade referenciais devidamente identificados e escrutinados anos a fio.
Houve-se muito agora o slogan ?os políticos são iguais aos outros?. Ora, os políticos não são iguais aos outros. Os privilégios e responsabilidades acrescidas dos políticos devem ser proporcionadas às necessidades do bem comum. Mas nenhuma sociedade é suficientemente rica para se permitir destruir os seus recursos escassos. E os bons políticos são recursos escassos, em toda a parte. Os políticos bem preparados, experientes, honestos, escrutinados ao longo de anos ? são recursos escassos e vitais. A democracia não pode dar-se ao luxo de os destruir levianamente e sem motivo, abusando da fragilidade imensa da credibilidade pessoal. Ignorá-lo, em nome de um igualitarismo puramente abstracto, a coberto da tentação de ser agradável ao maior número, é uma irresponsabilidade que não deveria cometer-se.
Pior ainda quando, na mesma maré, se esquece que a demagogia em nome das vítimas é criminosa. E se ela visar, conscientemente ou por mera leviandade, os mecanismos que no concreto viabilizam a democracia, essa demagogia precisa ser combatida, sem tergiversação e sem medo. Embora o populismo e a facilidade tenham a boca larga e estejam sempre prontos a engolir-nos ? e possam mesmo ensaiar a tentativa de limitar o direito à opinião livre, por formas capciosas disfarçadas de moralismo de qualquer obediência.
Publicado por Porfírio Silva em 05:50 PM | Comentários (0)

Prefácio à história da máquina de Turing


Valerie

Um destes dias vou começar a contar a história da máquina de Turing. A Valerie terá algo a dizer sobre isso, mas só lá para o fim. As coisas começam por um lado bem mais rudimentar. Mas as coisas rudimentares têm interesse quando nelas já germina o desafio. Isto é história que nos explicará uma parte importante do sentido do século XX.

Publicado por Porfírio Silva em 02:47 PM | Comentários (2)

novembro 07, 2003

POUSIO


Como dizia a Professora T.A., "pousio". Para pensar, é preciso dar pousio. Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, pousio é "período geralmente de um ano em que as terras são deixadas sem semeadura, para repousarem". O resultado é que as terras voltam, depois disso, a uma maior força produtiva. Quando se deixa de querer remeter para o cultivo da terra, a referência ao ritmo anual deixa de ser importante. O pousio pode ter outros tempos. Mas permanece necessário.
Entretanto, no mesmo (magnífico) dicionário, a entrada seguinte é "pouso", que pode ser, por exemplo, "lugar onde uma ave descansa de voar". Diria que o pousio pode ser o pouso de quem pensa. Para voar com outro rumo.
Pode um blogue dar a pensar? O pousio o dirá. Quanto a este blogue, isso quer dizer: devagar, um(a) (a)post(a) de cada vez. De vez em quando. Dar pousio aos elementos que rolam pelos dias ao sabor das razões e das emoções, da diversidade que falta à máquina.
O problema desta explicação é ela ser apenas "racional", dando a aparência de ser desinteressada (a lógica serve-se fria?).
A outra explicação, mais interesseira, talvez seja, então, o "ritmo biológico". Pegando, por exemplo, em O Polegar do Panda - Reflexões sobre História Natural, de Stephen Jay Gould (versão portuguesa na Gradiva), lemos que ele nos diz(ia) que o tempo biológico dos animais se distingue do tempo newtoniano. Nos mamíferos, por exemplo, todos respiram uma vez por cada quatro batimentos cardíacos - mas os mamíferos pequenos respiram e batem os seus corações mais depressa do que os grandes mamíferos. A taxa metabólica também aumenta com o aumento do peso do corpo. Também o cérebro. "Medidos pelos seus relógios internos, os mamíferos de diferentes tamanhos tendem a viver a mesma quantidade de tempo. É um hábito profundamente entranhado no pensamento ocidental que nos impede de conceber este importante e reconfortante conceito. Somos treinados desde muito novos para encarar o tempo absoluto newtoniano como único estalão válido de medida num mundo racional e objectivo." (p. 338)
Gould, falando-nos dos "tempos de vida que nos couberam em sorte", relacionando tamanho com tempo, dá-nos uma pista: porque não viver como um grande animal? Por que não "postar" apenas semana a semana, aumentando o nosso tempo de vida (talvez cheguemos a ser tão velhos como a baleia ou o elefante). Claro que os animais mais pequenos são mais irrequietos, dão mais cor à praça. Paciência. Se os blogues apelam a que sejamos autores, usemos os truques do ritmo biológico para sermos autores do nosso tamanho.
É claro: é preciso reconhecer que esta é a via segura para o anonimato...

Publicado por Porfírio Silva em 11:31 PM | Comentários (0)

Uma família de máquinas de Turing


Este blog está organizado por ordem cronológica directa: esta entrada é a primeira, as seguintes para baixo são mais recentes. Nesse sentido, este blog é o irmão gémeo-inverso de outra Turing Machine alojada em http://turing-machine.blogspot.com
Como pode acontecer a quaisquer gémeos, para já são muito parecidos, mas nada garante que no futuro isso continue assim. Quem pode ditar o que dois seres independentes farão pela vida fora, ao crescer? Contudo, por muito independentes que eles sejam, sempre sofrerão certas influências do meio ambiente. Neste blog, como na vida, não é de momento muito evidente como isso acontecerá. O tempo dirá. A única pista de que disponho deste momento é esta dupla gestão da cronologia: um par de gémeos, em que um cresce para a frente e outro cresce para trás.
A coluna vertebral deste blog será a história da Máquina de Turing - mas será uma história à minha maneira. Isto é: com o tempo perceber-se-á porque quero contar essa história, e que "moral" vou dela retirar. Mas isso será a seu tempo. Entretanto, a história vai partir-se por vários caminhos diferentes, alguns deles meros atalhos, outros talvez becos sem saída.
A técnica não me ajudará muito, porque ela me falta. Deixo tudo nas mãos do engenho? Que perigo inconsiderado, que risco desmedido, que irresponsabilidade.
Publicado por Porfírio Silva em 07:24 PM | Comentários (1)