(1) Quando o Porfírio Silva, a determinada altura escreve, no que mais uma vez estou inteiramente de acordo: “A confusão é grande. Se alguém deixar no ar ideias imprecisas acerca de matéria tão sensível estará a incorrer em grande responsabilidade. Damásio parece um determinista biológico envergonhado. Provavelmente não o é. Mas, se não é, cometeu o grave erro de confundir a presença de mecanismos biológicos activos em qualquer grupo de organismos vivos (como os humanos são) com a tentação de explicar os mecanismos sociais pela base biológica.”
... o problema não estará logo no vocabulário que se herda, em continuarmos a pensar em ‘mecanismos’, apesar da riqueza mais do que demonstrada da metáfora, porque se há mecanismos biológicos activos, como todo o mecanismo, eles determinam uma acção mecanicamente repetida e não me aparece como difícil concluir, por generalização, que do todo do mecanicamente repetido se obtenha um todo do mecanismo social. Ou é um falso problema? O mesmo não o demonstra o facto de num tal sistema não haver pontes para o valor simbólico?
(2) ... quando citando Ribeiro, escreve, “uma característica distintiva do ser humano (…) é precisamente a capacidade que ele tem (…) de projectar o desejo para além da necessidade (…)”, não se trata de petição de principio, discutindo-se precisamente o determinismo? Esse ‘para além da necessidade’, é um indecidível ou um axioma? Note que não é uma crítica, mas uma questão, porque, poder-se-á objectar que: se há múltiplas sobrevivências, haverá múltiplas necessidades ou que a providência é multifacetada, por exemplo. Faz algum sentido?
(3) Finalmente, quanto ao modo como o Porfírio Silva termina. De que modo é que o materialismo não tem de ser reducionista? Se falarmos de materialismo fisicalista, essa é a sua história. Se falamos de materialismo histórico temos a admissão de uma determinação material/modo de produção/infraestruturas, não menos reducionista, que determina a vida social, política ou intelectual. Acho que era Comte, quem, em meados de Oitocentos, dizia que materialismo e espiritualismo eram modos de ver que tinham de ser superados. Até hoje. E parece que continua uma tarefa árdua. Não, também não tenho solução.
Suponho que são questões que merecem reflexão, tal como as que suscitaram anteriores intervenientes. Adoptei como procedimento não tentar responder imediatamente. Prefiro deixar fluir o debate. Mas não me esquivarei. Tudo tem o seu tempo, mas o tempo virá. Espero por mais contributos. A crítica não me assusta. Só me assustaria a falta de capacidade para pensar em conjunto.
parábolas e argumentos (excerto)
Na primeira assembleia,
conhecido que leis importantes são as das pequenas coisas,
discutia-se a regra segundo a qual um pombo
encontrado a menos de cinquenta passos do pombal
pertence, descontados incidentes supervenientes, ao proprietário
e para lá daquela distância, ao autor do seu achamento,
quando um ancião que propôs a pergunta
"que fazer quando as patas do pombo foram encontradas
uma a menos e a outra a mais de cinquenta passos?"
foi escorraçado: crueldade?
Crueldade é não fazer como o juiz prudente
que evita a proliferação dos precedentes limitando o dispositivo invocado
que recusa antever todas as horas até ao fim dos tempos
e a vinculação futura de todos os juízes havidos e a haver
às minúcias e detalhes caprichosos do caso vertente.
E desde que a palavra chegou à cidade
nada no mundo lhe é indiferente.
in Porfírio Silva, A Arquitectura do Pecado
Da Professora M.A.B. recebi elementos para um debate em curso. Segue-se transcrição parcial, incluindo já excertos de um diálogo electrónico entre nós.
Interrompo eu Tenho dúvidas acerca da afirmação de que "o campo pré-linguístico é a-subjectivo, passional, singular, pontual, intensivo, mais do domínio do isto - neutro - que do domínio do eu." Tenho dúvidas por aquilo que diz a psicologia do desenvolvimento: há uma constituição de eu como ponto de referência (que se vai construindo aos poucos) que é uma espécie de ponto de vista para uma série de imagens de outros corpos que vão "tocando" aquele corpo. E isso é claramente pré-linguístico. E sem isso não haveria linguagem. Poderia haver linguagem sem subjectividade? Mas isso apoia outra coisa do que dizes: "o foro íntimo é muito mais sociável do que se possa pensar". Estou em crer que o humano individual é constituído como tal pelos outros, desde o seu aparecimento no mundo e talvez mesmo ainda na barriga da mãe.
Responde M.A.B. à interrupção É que eu restrinjo muito a noção de subjectividade a sujeito - a eu da enunciação: a capacidade que o sujeito tem de se autonomear - e essa é mais tardia, totalmente constituida na linguagem; por isso eu falar de singularidade pré-linguística, que retira uma carga de consciência, de constituição, de racionalidade até à dita instância subjectiva. Ora a questão não é tanto a de estar ou não no simbólico, é antes a de uma certa postura do sujeito; a literatura, nomeadamente as experiências modernistas, vieram conferir à escrita esse outro bordo de anonimização ou des/im-pessoalização do sujeito, que permite um abrandamento da consciência, da censura até, que o simbólico exerce, formatando o sujeito à lógica assertiva ou tética.
E continua a Professora M.A.B. Aqui passaria para uma outra questão, abordada por Deleuze àcerca de Espinoza. Questão 2: «Une affection, c'est quoi? En première détermination, une affection, c'est ceci: c'est l'état d'un corps en tant qu'il subit l'action d'un autre corps. Qu'est-ce que ça veut dire? "Je sens le soleil sur moi", ou bien, "un rayon de soleil se pose sur vous"; c'est une affection de votre corps. Qu'est-ce qui est une affection de votre corps? Pas le soleil, mais l'action du soleil ou l'effet du soleil sur vous. En d'autres termes, un effet, ou l'action qu'un corps produit sur un autre, une fois dit que Spinoza, pour des raisons de sa physique à lui, ne croit pas à une action à distance - l'action implique toujours un contact- eh bien c'est un mélange de corps. L'affectio c'est un mélange de deux corps, un corps qui est dit agir sur l'autre, et l'autre recueillir la trace du premier. Tout mélange de corps sera nommé affection.» Esta citação, retirada de um seminário de Deleuze, dá a dimensão da re-leitura dinâmica que ele faz da Espinoza e que ajuda a entender essa relação indissociável entre a ideia e a afecção.
Diz-me, Nuno, quando eras pequeno e fizeste este barro, em que estavas a pensar?
Já sabias que eu to iria pedir, que tu mo irias dar - e que ele andaria agora pelo meio dos meus papéis a afugentar as más ideias?
Ou hei-de eu temer que também ele tenha más ideias?

Escreve Susan Sontag, em Olhando o Sofrimento dos Outros (Gótica): «Quer a fotografia seja vista como um objecto ingénuo ou como o trabalho de um artífice experimentado, o seu significado - e a resposta de quem vê - depende do modo como a fotografia é identificada ou falseada; ou seja, depende das palavras.» (p.36)
«Li com bastante interesse o seu comentário critico sobre o último livro de Damásio que divulga a partir do seu blog. Gostaria de por minha vez o criticar também, pois penso não ser correcta a apreciação que faz daquilo que Damásio pretende dizer. Confesso que ainda não li o livro, mas a forma clara e fundamentada como o cita e critica permitem-me dizer-lhe o que acho que está em questão. Não vou citá-lo ponto por ponto pois seria demasiado fastidioso para si e para mim, por isso agradecia que tomasse em conta apenas um ponto de vista: A certo passo você afirma: "A confusão é grande. Se alguém deixar no ar ideias imprecisas acerca de matéria tão sensível estará a incorrer em grande responsabilidade. Damásio parece um determinista biológico envergonhado. Provavelmente não o é. Mas, se não é, cometeu o grave erro de confundir a presença de mecanismos biológicos activos em qualquer grupo de organismos vivos (como os humanos são) com a tentação de explicar os mecanismos sociais pela base biológica." Não sei donde tirou a conclusão que "Damásio é um determinista biológico envergonhado", só a posso interpretar no sentido em que não acredita que é possível um conhecimento nestas matérias definitivo e conclusivo. Eu acho que Damásio não é um determinista no que respeita à causalidade dos fenómenos biológicos e sociais, e tendo em conta o evolucionismo e a hipótese do 'encaixe' que eu melhor defeniria como uma 'ressonância da materia biológica' a tese de Damásio é perfeitamente aceitável. Do meu ponto de vista, e seguindo Damásio e muitos outros autores que partem de dados biológicos objectivos, faz de facto sentido dar primazia à homeostase biológica nos fenómenos sociais. Se, e aqui é reside o cerne da questão, se aceitarmos que não existe um determinismo no devir temporal mais básico e físico da matéria, o qual se reflete num não-determinismo na própria Biosfera. Podem-se assim compreender fenómenos anómalos como o que retive e que citou da Inquisição, e de outros fenómenos sociais prejudiciais ao individuo ou à sociedade numa determinada circunstância particular. É perfeitamente compatível aceitar que o organismo bio-social que é a humanidade pode eventualmente enveredar por fenómenos a ele próprio prejudiciais, como pode acontecer no individuo biológico por exemplo, alergias e outras doenças auto-imunes sem qualquer finalidade útil. É tudo uma questão de acaso e acerto, que é no fundo o que o evolucionismo vem defendendo desde Darwin. A tendência organizativa do próprio ser biológico encarrega-se de lhe dar forma. Acho que esta é a mensagem fulcral do livro. Quanto ao resto do seu texto encontrei, do meu ponto de vista, algumas más interpretações do livro que noutra altura poderei discutir consigo se o quiser, mas de um modo geral gostei de o ler e da forma extensiva como faz a recensão da sua leitura, coisa a que um curioso da filosofia como eu está pouco habituado.»
EU PROMETI CONTAR A HISTÓRIA DA MÁQUINA DE TURING! E JÁ HÁ QUEM SE TENHA QUEIXADO DE QUE NUNCA MAIS COMEÇAVA...
Qual é o interesse de saber o que é uma máquina de Turing?

Um exemplo muito concreto: uma máquina de somar
O programa para somar é o seguinte:
| inst1, 1 , D , inst1---> | :::0::::: | [>1<]::: | :::0:::::::: | 1::::: | 1::::: | 0:: | |
| inst1, 0 , 1 , inst2---> | :::0::::: | :::1:::::: | [>0<]::::: | 1::::: | 1::::: | 0:: | |
| inst2, 1 , E , inst2---> | :::0::::: | :::1:::::: | [>1<]::::: | 1::::: | 1::::: | 0:: | |
| inst2, 1 , E , inst2---> | :::0::::: | [>1<]::: | :::1:::::::: | 1::::: | 1::::: | 0:: | |
| inst2, 0 , D , inst3---> | [>0<]::: | :::1:::::: | :::1:::::::: | 1::::: | 1::::: | 0:: | |
| inst3, 1 , 0 , inst3---> | :::0::::: | [>1<]::: | :::1:::::::: | 1::::: | 1::::: | 0:: | |
| inst3, 0 , D , inst4---> | :::0::::: | [>0<]::: | :::1:::::::: | 1::::: | 1::::: | 0:: | |
| inst4, 0 , D , inst4---> | :::0::::: | :::0:::::: | [>1<]::::: | 1::::: | 1::::: | 0:: |
A situação final é esta:

------------------------------------------------------------
Querendo experimentar tudo isto, pode descarregar um pequeno programa que simula uma máquina de Turing. (Inclui manual de instruções e exemplos.)
Ir buscar programa Turingx.zip (50KB)
O artigo original de Turing pode ser lido aqui , mas é preferível começar por uma introdução séria e concisa (de onde foi tirado o "programa de somar") como esta . A menos que se prefira dar uma espreitadela ao artigo "máquina de Turing" em BRANQUINHO e MURCHO (orgs.), Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos, da Gradiva.
------------------------------------------------------------
APÊNDICE
Na mesma MdT apresentada acima, o seguinte programa multiplica por dois qualquer inteiro positivo:
instrução1, 1 , E ,instrução2
instrução2, 0 , E ,instrução3
instrução2, 1 , E ,instrução3
instrução3, 0 , 1 ,instrução3
instrução3, 1 , E ,instrução4
instrução4, 0 , 1 ,instrução4
instrução4, 1 , D ,instrução5
instrução5, 0 , D ,instrução6
instrução5, 1 , D ,instrução5
instrução6, 0 , E ,instrução7
instrução6, 1 , D ,instrução6
instrução7, 0 , E ,instrução8
instrução7, 1 , 0 ,instrução7
instrução8, 0 , E ,instrução11
instrução8, 1 , E ,instrução9
instrução9, 0 , E ,instrução10
instrução9, 1 , E ,instrução9
instrução10, 0 , D ,instrução2
instrução10, 1 , E ,instrução10
instrução11, 0 , D ,instrução12
instrução11, 1 , E ,instrução11
Porque não tentar perceber como funciona este?
Para mais informações sobre esta fraude científica, consultar (por exemplo) a página que Richard Harter dedica em exclusivo a este tema: aqui


No Jardim - Desenho original de Rui C.



passas a mão pelo pêlo do bicho
e escreves "hirto, o pêlo do bicho"
e confias que eu compreenda:
porque conheço o pêlo, conheço o bicho e conheço "hirto"
já os encontrei em outros dias não olvidados
já usei essas palavras e esse bicho
tudo isso tu esperas
imaginas que por muito pobre que eu seja hei-de ter visto um bicho algures
afinal, livros com histórias compreensíveis estão à venda nos quiosques de jornais
qualquer jornal televisivo encontra cientistas sociais nos seus inquéritos de rua
alma por alma, tens a tua, imaginas tu nos teus diálogos amorosos comigo, teu leitor;
mesmo os pedintes podem nos cruzamentos ver toda a sorte de fantasias
como se acolitassem o sumo pontífice em audiência à embaixada
que o pitoresco e gastador monarca enviou com elefantes e onças amestradas
para que se soubesse na cristandade a ventura que era ser rei deste reino de portugal
e ter assistido à descoberta do caminho marítimo para a índia e à rota do brasil
o que tu não podes saber é de onde conheço eu o bicho
nada suspeitas quanto a que hirto está o meu pêlo
e que o que mais temo é que me toques o dorso
e que o meu receio é a fraca agilidade para morder-te a mão;
transtorna-me que penses sequer no meu abrigo natural
e não penso uma só vez que isso aconteça apenas na camada de cima do teu poema
se pudesses morder-me, eu compreendia-te
mas tu escreves para que as palavras me façam sentido
para que haja uma palavra tua para cada tijolo do mundo
seja por nomeares as peças da máquina com palavras próprias
seja por podares as palavras sem dono
e isso cria-me o desconforto de sugerir que te compreendo:
parece que me desejas um abrigo
imagino a tua disposição para me acolher no recanto de onde parte o teu olhar
e isso incomoda-me
se quisesse morder-te, compreendia-te
mastigar explica muita coisa
mas como queres que a gente se morda num abrigo?
se me expulsasses
se pairassem alienígenas nas nossas salas
se as nossas mães com armas mirabolantes se apresentassem nos nossos quartos
e os nossos filhos fossem enxertados em artefactos engenhosos
se os incendiários não usassem tão apenas querosene
talvez o falecer da compreensão me ajudasse
- mas como queres que valha a pena ouvir o que já está escrito?
Podes até acariciar-me, isso não faz mal algum
porque nada explica
mas esquecem-se-me os poemas, prefiro as parábolas
fugidias.
