dezembro 30, 2003

Anything goes

Que leitura fazer do facto de Vital Moreira inserir com destaque na sua coluna no quotidiano O Público o endereço do blogue de que é co-autor? Já agora: que leitura fazer de terem aparecido os anúncios na plataforma portuguesa de weblogs? "Isto" está a evoluir ou apenas estamos todos a perder a vergonha (tão depressa) ? Inveja, não tenho: tenho a sensação de que vale tudo na luta por qualquer tipo de audiência, tenho a ideia de que há uma generalização do "abuso de posição dominante".
Publicado por Porfírio Silva em 05:10 PM | Comentários (0)

O teste de Turing e a blogosfera (again)

Relacionado com o assunto da minha entrada anterior (de 26 de Dezembro), recebi do humano que mexe os cordelinhos de NoseOfZeus, que escreve em o-teste-de-Turing, uma mensagem personalizada. Dela se retira, essencialmente, o que segue. (1) Ele não teve intenção de me ofender com o seu texto. Não me custa nada a acreditar nisso. Está explicado. (2) Ele não tinha entendido a minha intenção naquela entrada em que pela primeira vez o menciono. Ele acha que a minha questão não aparecia com grande clareza. Eu admito isso perfeitamente. Aliás, o meu jogo era mesmo arriscar que o editor de o-teste-de-Turing seria (quase) o único a entender esse ponto da minha entrada. Parece que exagerei na obscuridade. (3) Ele identifica uma provocação minha quando eu "estudo" a hipótese de que ele não saiba o que é o teste de Turing. É claro que é uma provocação. Aliás, um pequeno exercício de retórica suavemente polemizante. (4) Ele põe a hipótese de que este mal entendido prejudique a nossa comunicação no futuro. Discordo: não há razão nenhuma para isso. (5) Ele diz, e bem, que este "incidente" podia servir de "case study" para certas realidades da blogosfera. Claro. Alguém quer acrescentar alguma coisa?
Publicado por Porfírio Silva em 04:27 PM | Comentários (0)

dezembro 26, 2003

O teste de Turing e a blogosfera

Numa entrada que aqui publiquei a 17 de Dezembro p.p., reflectia brevemente sobre as relações na blogosfera a partir de um caso concreto mencionado por outro blogue. Essa entrada terminava assim: "Eu, pessoalmente, não posso afirmar que esteja certo de nunca ser incomodativo para outros [na blogosfera]. É que é difícil "afinar" a comunicação apenas por esta via tecnológica. O que diria disso o o-teste-de-Turing?" A 23 de Dezembro, o-teste-de-Turing publica uma entrada intitulada As Pazes da Quadra, que começa assim: "A pergunta que me fiz ao ler o texto do Porfirio Silva foi: este homem não está bom da cabeça... Então porque diabo havia eu de ficar de alguma forma chateado por causa da alguém querer homenagear a genialidade de Turing escrevendo sob a sua sombra? Força para a máquina." Eu, pelo meu lado, não esperava uma confirmação tão célere dos equívocos que pode gerar a comunicação na blogosfera. Vejamos. Eu limitei-me a colocar uma questão séria (é difícil afinar a comunicação humana apenas por uma via de intermediação tecnológica), a relacionar isso com um importante e clássico debate em filosofia da mente e em ciências cognitivas (qual é o significado do chamado teste de Turing) e a sugerir a um blogue com um nome sugestivo (o-teste-de-Turing, pois claro) que dissesse qualquer coisa sobre isso. Tudo o resto são fantasmas. A não ser que o-teste-de-Turing não leve nada a sério o seu nome... ou pelo menos não o leve tão a sério como eu o levei.
Para não ser muito longo, uso a apresentação simplificada que Simon Blackburn dá (no seu Dicionário de Filosofia, na Gradiva) do "jogo da imitação" proposto por Alan Turing em 1950, "para decidir se uma máquina faz uma simulação adequada da mente humana": "Uma pessoa e uma máquina comunicam com uma pessoa que faz perguntas, separada delas. Esta pessoa pode fazer perguntas com o intuito de distinguir o ser humano da máquina. A máquina passa o teste, ou ganha o jogo, se após um certo intervalo de tempo a pessoa que faz perguntas não conseguir distinguir a máquina do ser humano." Aspecto crucial da versão tradicional do teste de Turing é que o humano que faz as perguntas não pode ver nem o outro humano nem o computador, sendo que a comunicação é mediada por algo como terminais de computador que eliminem do jogo o factor fisionomia e tudo o que ela permite (o que facilmente desmascararia o computador como não humano). Desenvolvimento curioso foi a proposta de Harnad para um "teste de Turing total", envolvendo robots (com corpo, portanto) e em que os humanos teriam direito a ver o computador (o robot), fazendo com que forma e função fossem avaliados conjuntamente. Reflectindo apenas um pouco, vê-se que isto pode ajudar-nos a questionar a comunicação entre humanos mediada pelo computador, como acontece na blogosfera.
Pergunto eu a o-teste-de-Turing: o facto de eu lhe sugerir uma reflexão nesta linha será suficiente para o autorizar a dizer que eu não estou bom da cabeça? Uma coisa é clara: não me atrevo sequer a imaginar que os editores de um blogue chamado o-teste-de-Turing não saibam o que é o teste de Turing e tenha sido por isso que não compreenderam o meu convite (que eu pretendia fosse amável). Isso seria absurdo e eu não acredito em coisas absurdas. Ou será que eles são "apenas" um computador e eu não percebi?
Ah, já me esquecia: pode o caro o-teste-de-Turing estar descansado - eu não tenciono pedir-lhe autorização para "escrever sob a sombra de Turing". Está dispensado de gastar o seu tempo a dar-me "autorizações" que eu não lhe pedi. É claro que, se pelo contrário preferir deixar as pequenas alfinetadas e responder seriamente ao desafio de reflexão que com seriedade e cordialidade lhe lancei, será benvindo. Estamos sempre a tempo de não desperdiçar uma boa oportunidade de pensar em conjunto, não lhe parece?
Publicado por Porfírio Silva em 08:19 PM | Comentários (0)

dezembro 23, 2003

Postal de Natal

Está aberto um concurso de ideias subordinado ao seguinte lema: como extirpar das nossas famílias a extrema dependência em que nesta época natalícia a expressão de carinho se encontra relativamente ao massivo presentear com bens materiais? As respostas devem ser concretas e operacionalizáveis - e devem ser capazes de preservar tudo o que queremos preservar, apagando apenas o que nos foi sendo imposto pela esfera da exterioridade. Bom Natal, pois.
Publicado por Porfírio Silva em 03:34 PM | Comentários (2)

dezembro 22, 2003

As mulheres de Manara (agora, a BD)



Tal como "prometi" no postal endereçado ao Rui C., aqui se abre outro percurso: a Banda Desenhada. Que cruzamentos ensarilhados são estes que encontrarão ruelas tão dispersas? Os tempos dirão.
Milo Manara, desenhador, perdeu a arte de contar estórias e disfarça isso continuando a desenhar corpos de mulheres. Eu disse: corpos de mulheres, querendo com isso dizer que Manara perdeu a capacidade de olhar as mulheres na sua complexidade. Ora, um desenhador que deixa de saber ver o seu modelo, está perdido. (Estará?) Nos últimos anos, o que domina são os álbuns do género Clic: título de uma série cujo álibi é um dispositivo que (à distância, wireless) excita desbragadamente uma mulher em qualquer lugar e circunstância, contra a sua vontade, expondo-a ao ridículo. (Manara parece um tanto senil ao associar gozo sexual com ridículo, mas ele não está só, certamente.) A estratégia aqui é a da banal repetição (mais do mesmo), como em toda a pornografia que não sai do chão. Também há tentativas toscas de cobrir de papel celofane (falsos temas) meros corpos de fêmeas com as saias sempre aos saltos e as coxas sempre arrebitadas. Ainda nesses casos, o papel celofane (falsa cobertura) é apenas o embrulho para permitir que os álbuns saiam das prateleiras para adultos das livrarias. É o caso d' A Revolução (2000).
Contudo, as excepções são notáveis - e são elas que tornam Manara um case studie para a questão da fronteira entre erotismo sexuado,por um lado, e porno, por outro. Se ele só fizesse pornochachadas, nada haveria a interpretar. (Atenção: o meu ponto aqui não é moral, é estético: não quero ser enganado quando compro uma BD e não espero que me vendam um "filme" de mau gosto.) Mas como pode Manara, com o mesmo traço, fazer umas vezes do mais intediante e outras vezes do mais subtil e bonito? Alguma coisa Manara há-de ter, para ter tido cruzamentos tão importantes como com Fellini e Pratt.
Entre as excepções dos últimos anos, temos álbuns magníficos: Um Verão Índio (1987) com Pratt, Rever as Estrelas (1998) , A Metamorfose de Lúcio (1999). Como em toda a máquina de sonhos que funciona, aqui a estratégia já não é repetitiva, mas divergente. Outros mundos (im)possíveis, encruzilhadas improváveis mas desejantes. Continuam servidos - esses impossíveis - por belas mulheres (as célebres "mulheres de Manara"): mas elas aqui aparecem belas, de facto.
A pergunta permanece: porque pode Manara o sublime e o rasteiro?
Resposta provisória: pergunte ao seu corpo.
Mas isso é para a continuação desta história.
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Na imagem acima, reconstrução de uma cena de Um Verão Índio. Na imagem abaixo, cena de A Metamorfose de Lúcio.


Publicado por Porfírio Silva em 12:26 PM | Comentários (3)

dezembro 21, 2003

Foi virtual, o jantar?

O meu amigo Absorto jantou. Eu também. Falámos durante esse jantar. O que supõe (bem) que jantámos o mesmo jantar. Fora da blogosfera. Para quando jantarmos um mesmo jantar dentro da blogosfera? Não sejamos nós o repasto da blogosfera, coisa que alguns já temem.
Publicado por Porfírio Silva em 07:09 PM | Comentários (0)

dezembro 20, 2003

Crónicas das traseiras da blogosfera

Ontem, ao jantar, vários amigos me perguntaram duas coisas sobre a blogosfera. Primeiro. Porque é que há pessoas que têm blogues? Respondi: pelas mais diversas razões, não vejo padrão nenhum. Continuo satisfeito com essa resposta. Segundo. Porque é que eu tenho um blogue? Dei várias respostas, todas me continuam a parecer "correctinhas", mas sinto que não eram "a minha resposta". A minha resposta talvez seja: tenho um blogue porque aqui aparecem juntos, e não espartilhados, vários dos meus interesses. Por exemplo: na vida institucional, a minha investigação em filosofia das ciências não tem nada a ver com a minha poesia. No blogue, tem. Acho que é por isso. É também por essa razão que o meu blogue não é redundante em relação a mim.
Publicado por Porfírio Silva em 12:36 PM | Comentários (0)

dezembro 18, 2003

Objectos. Marionette.

Há por aí na blogosfera quem sofra dores horríveis por ser mantido afastado de um computador com internet (aqui, por exemplo). Eu sofro, também, de coisas dessas. Ou parecidas. Ou "parecidas". Eis a tortura que um esbirro ideal escolheria para mim: marionette (boneco movido por meio de cordéis manipulados por pessoa oculta) pendurada de costas para os livros na biblioteca. Estou farto de perguntar a esta minha marionette se ela quer que a volte e ela nunca mo confirmou. Terá ela saudades de Praga na Primavera? Também eu tenho (na Primavera e no Inverno) e não me ponho assim calado.

Publicado por Porfírio Silva em 05:33 PM | Comentários (0)

dezembro 17, 2003

Natal na blogosfera

Alguém aí pode informar entre que dia e que dia fecha a blogosfera por ocasião do Natal? E por ocasião do balanço anual? E o horário diário continua a ser o mesmo?
Publicado por Porfírio Silva em 07:54 PM | Comentários (1)

Como é difícil a Glória Fácil

Meu caro João Pedro: podes não acreditar, mas eu não tinha chegado a saber que, no já longínquo 24 de Outubro (do corrente ano, vá lá) tu, no vosso Glória Fácil..., tinhas feito tão simpática referência (aqui) à minha humilde pessoa e a este blogue que aqui corre. E eu que até te leio! Mas nessa altura eu estava ainda pior do que estou hoje quanto a desembaraçar-me com os aspectos técnicos desta coisa. Que selva ! Tu só me vês de dois em dois anos, mas eu leio-te todos os dias: em papel e/ou nas estrelas. Embora por vezes para discordar (ou até para me rir à socapa a pensar na tua cara a escrever certas coisas sobre certos "companheiros"), fazes parte dos que escrevem com a cabeça (e não com os pés) e pensam com as mãos (fazem coisas, não se limitam a idealizá-las). Aparece.
Publicado por Porfírio Silva em 04:55 PM | Comentários (0)

Terrorismo na blogosfera

O E Deus tornou-se visivel publica uma nota com o título Grandes males... que, com uma vénia, nos permitimos reproduzir: "Retirei a possibilidade de comentar este blog. Graças a um senhor que é fruto de uma educação cada vez mais em voga nesta sociedade. Que lhe faça bom proveito e que tenha bastante sucesso na sociedade que está a ajudar a desenvolver. E que o feitiço não se volte..." . É o terrorismo na blogosfera? E como nos defendemos? Não conheço o caso em concreto, mas há uma variante que parece menos violenta mas é igualmente destrutiva: leitores tão "simpáticos" que querem ficar eternamente a dialogar connosco, como se eles fossem a nossa única vida e tivéssemos todo o tempo do mundo para eles. Nós, aqui, até ao momento não temos razões de queixa. Mas temos visto isso acontecer por aí, noutros blogues. Eu, pessoalmente, não posso afirmar que esteja certo de nunca ser incomodativo para outros. É que é difícil "afinar" a comunicação apenas por esta via tecnológica. O que diria disso o-teste-de-Turing?
Publicado por Porfírio Silva em 02:11 PM | Comentários (1)

Heresias e outros caminhos

Leio, em a bordo, numa entrada de ontem 16 de Dezembro de 2003: "Ao contrário das confissões que de algum modo tenderam a fazer santos de todos os fiéis, o Catolicismo sempre foi um comboio com duas carruagens. Ao lado dos que se submetiam à disciplina da santificação, sempre teve espaço para aqueles que não a suportaram por esta ou aqueloutra razão. Para uns e para nós, isto é uma virtude. Outros poderão – e justificadamente o fazem – ver nisto apenas um pretexto para o pecado e para o vício." Deixe-me conversar consigo, nessa clave, como segue.

parábolas e argumentos (outro excerto)


Mas em certa linhagem Nabucodonosor não entra e se entra se confunde,
pois o arquitecto, avisado, nas parábolas labirintos inacabados determinou.
Que o trigo desejado e o joio acrescentado devam como irmãos crescer juntos até à ceifa
e até lá sorver da mesma água e alimentar-se na mesma terra
e que tal convenha ao lavrador, prevenido contra o zelo intempestivo,
nada apura da natureza essencial ou contingente das espécies botânicas implicadas.
Que da repartição desigual dos talentos, do capital, do empenho e da astúcia
resulte que a todo aquele que tem, dar-se-á e terá de sobejo
e àquele que não tem, mesmo o que tem lhe será tirado,
não chega a resolver as equações atinentes aos dramas da liberdade e da responsabilidade.
E das parábolas do fermento e do grão de mostarda
(da força dos pequenos e de como as aves do céu vêm abrigar-se nos seus ramos),
da ovelha perdida, do filho pródigo e do bom estrangeiro
(das alegrias e dos receios que parecem desajustados),
da rede lançada ao mar, dos dois devedores, do amigo importuno
(da clemência e dos estratagemas a que recorremos na sua falta),
dos trabalhadores da vinha, do semeador e do administrador infiel
(do peso do mundo e das manhas que ele origina),
- não posso dizer que resulte orientação preclara e distinta,
antes avenidas como becos, impasses
de que me alimento quotidianamente enquanto a saciedade me não devora.
Preferirias talvez convocar concílios para estreitar a variação semântica,
mas procura antes pares para a escuta dos silêncios nas parábolas
e com eles cerzir uma forma de vida.
Digo-te que colombo inventou a américa como tu descobres passagens numa parábola
e que prefiro a lei das parábolas,
que te perguntam
e te perguntam como perguntar
e te perguntam se vês a quem perguntas
o rosto que lá há-de estar.

Porfírio Silva, in A Arquitectura do Pecado

Publicado por Porfírio Silva em 10:19 AM | Comentários (1)

dezembro 16, 2003

Um murro no estômago

Depois de almoço, antes de recomeçar a trabalhar, dou uma voltinha pela blogosfera. Bendita sorte: apanhei um murro no estômago! O Cidadão do Mundo publicou, já há alguns dias, uma entrada intitulada O paradoxo de Zenon , que é preciso ler. Ele garante que a história é verdadeira. E se não for, isso que interessa? Há outras como essa que são verdadeiras, podem estar certos. E bom Natal, sim !?
Publicado por Porfírio Silva em 02:50 PM | Comentários (1)

harém (excerto)

Entretanto, a verdadeira Xerazade nunca viu à sua volta belezas despidas e mudas,
a sua única dança é a das palavras pela noite dentro
e quando olha dois de nós, dos que viram numa prisão apalaçada um festim orgiástico,
face ao desvario, pensa:
no caso de uma revolução, qual deles mandaria matar o outro?

Se o axioma da conservação da continuidade explicasse o mundo
e o demónio de Laplace conhecesse os estados iniciais de todas as partículas
e todas as forças de que é composto o universo,
os modelos de funções analíticas explicariam
a génese e a mutação das formas
o nascimento e a morte dos alicerces
o gérmen de fissura nas caves da construção
a multiplicação dos exércitos de um homem só
as crianças com uma face que ri e outra que chora
e os lagos como o de Balkashe: metade é salgado, metade é doce
os peixes de água doce na metade salgada
os peixes de água salgada na metade doce.
Mas não explica.

in Porfírio Silva, A Arquitectura do Pecado

Publicado por Porfírio Silva em 11:21 AM | Comentários (0)

dezembro 15, 2003

Um argumento a favor da diversidade

Eis um argumento a favor da diversidade (de Leibniz, via Borges). Consideremos duas bibliotecas com exactamente o mesmo número de livros. Vamos supor que há um livro que é o melhor livro do mundo: o livro perfeito. Suponhamos que o livro perfeito é a Eneida, de Vergílio. Uma daquelas bibliotecas só tem exemplares da Eneida. A outra biblioteca tem um exemplar da Eneida e todos os outros livros são exemplares de livros inferiores ao livro perfeito. Qual das bibliotecas é a mais interessante? (lembrado por G.J. Chaitin)
Publicado por Porfírio Silva em 03:32 PM | Comentários (0)

dezembro 14, 2003

Aveiro

Estou contente de poder "ver" a Aveiro-real através dos olhos da blogosfera. Através de uns olhos atentos que estão em o lado esquerdo. Uns olhos que me parece continuam críticos, mas que me parece que não se tornaram amargos. Em o lado esquerdo lê-se, como se fosse um estatuto editorial: "O que se vê de Aveiro, do mesmo modo se vê dos outros lugares. Tentamos ler e escrever do nosso ponto de vista. Tanto pode ser diferente como igual ao ponto de vista dos outros, quem quer que sejam. Não lutamos pela diferença nem pela igualdade na escrita. Interessam-nos outras igualdades e respeitamos muitas diferenças, mas nem todas." Sábio, o Arsélio. É assim que me lembro dele. Há tanto tempo... Atenção: aquilo não é "o farol da barra". Vêem-se, a partir dali, coisas que interessam a todas as paragens. Visite-se.
Publicado por Porfírio Silva em 04:49 PM | Comentários (0)

dezembro 12, 2003

Tempos e ritmos na blogosfera

Um aspecto curioso da blogosfera é que os ritmos são relativos. Vou tentar dizer isto de forma ordenada. Ponto 1. Nem todos os "habitantes" o são do mesmo modo, nem todos usam a mesma frequência, uns escrevem e/ou lêem várias vezes ao dia, outros quando calha. Ponto 2. Cada "habitante" segue certos "temas", "ondas", "eventos", "polémicas" - pode até apenas seguir certos e determinados "outros habitantes". Ponto 3. Do ponto de vista de quem "persegue": se aqueles com quem dialogamos falam N vezes por dia, temos de os ler N vezes por dia, sob pena de perdermos o fio à meada. A não ser que o ritmo seja indiferente: mas então estaremos menos distantes de sites vulgares e menos próximos de certos ideais de weblog. Ponto 4. Mas há outro ponto de vista possível. Se nos interessa o diálogo com quem quer conversa cinco vez por dia, para alimentarmos o diálogo temos de falar cinco vezes por dia - sob pena de caírmos fora da troca. Ao contrário: se nos interessa "este comércio de ideias" com quem só lê uma vez por semana, estaremos a saturar a linha de comunicação se escrevermos cinco vezes por dia. Quando chegarmos a ser lidos, o nosso interlocutor já só encontra esqueletos frios de um caminho que para nós teve o calor do momento em que nos deu a febre nos dedos. É assim como se houvesse leitores de jornais diários que só lessem de mês a mês. Ou se um leitor de semanários quisesse ter leitura diária. Conclusão: os nossos ritmos dependem daqueles com quem queremos falar. Não dependem só da nossa vontade de falar. Porque não distinguir uma blogosfera "rápida" (fervente, talvez mais tecnológica, talvez mais sofisticada) e uma blogosfera "lenta" (de círculos assumidamente mais restritos, com temas menos populares, mais intimistas ou minoritários)? Fará sentido. Eu, por mim, sigo na faixa da direita... Embora por vezes dê a ideia de que há forças objectivas que parecem tender a centrifugar a blogosfera. (By the way: eu disse "forças objectivas", não disse "teorias da conspiração"...)
Publicado por Porfírio Silva em 07:14 PM | Comentários (0)

dezembro 11, 2003

Uma moralidade. (6/6)

Na rua, enquanto os outros riam com a vingança ardilosa contra o descuido do automobilista, o cão mais velho lia para os outros uma passagem do Tratado sobre a Abstinência, que o filósofo Porfirio, nascido na Fenícia, escreveu no século III: "E, uma vez que isto se considera uma injustiça, que não se faça uso do leite, da lã, dos ovos, nem do mel. Porque do mesmo modo que é um delito tirar as roupas a uma pessoa, o mesmo acontece com o tosquiar de uma ovelha, pois a lã é a sua veste."(FIM)


Desenho: Rui C. / texto: Porfírio Silva.
Pode ver/ler todos os capítulos na sua sequência natural: na coluna da esquerda, em TEMAS, clique em "Novela Gráfica".
Publicado por Porfírio Silva em 09:34 AM | Comentários (0)

dezembro 10, 2003

Pensar nas ciências (nas duras e nas moles...)

Ainda ontem me atrevi a sugerir que fossem a Em Expansao Vertiginosa ler esta entrada, que se enquadra num debate calmo mas sem falinhas mansas acerca da ciência e da forma de a pensar. Fiz essa sugestão apesar de (perdão, precisamente porque) essa entrada critica coisas que aqui dissemos. Aí, o "tipo" de ciência em causa é o das ciências da natureza (física, ...). Agora, no ...blogo existo está uma entrada intitulada Não está certo abusar da ingenuidade da juventude. O tópico directo é a ciência da economia. Um "tipo" diferente de ciência, portanto. Mas, a meu ver, os tópicos em debate são muito aparentados. Podem enquadrar-se, ambos, na busca de uma resposta a esta questão: como é que o pensamento das ciências disciplinares e o pensamento "filosófico" se cruzam? Provavelmente, nenhum dos autores das entradas referidas concorda com esta minha maneira de colocar a questão. Mas ela não poderá ser encarada por esse ângulo?
Publicado por Porfírio Silva em 10:49 PM | Comentários (1)

Uma metamorfose que se aconselha

Como é que eu gostaria que fosse a blogosfera? Perguntas a sério? Passa por a-metamorfose e lê uma entrada sobre uma história pouco provável . "Isso" é que eu gostava que fosse a blogosfera. Mas é mais como se não houvesse modo nenhum de sair dos caminhos habituais. Salvo raros golpes de asa de borboleta nos antípodas. Olhando para os comentários que suscitou essa entrada, também eu dou por mim a desejar que tenha sido verdade. Dê por onde der.
Publicado por Porfírio Silva em 10:11 PM | Comentários (1)

parábolas e argumentos (outro excerto)

Desde a invenção dos argumentos / e a sua colocação iminente no plano da justificação e do bom fundamento, / insistem escolas e santos doutores em tresler / em quanto concerne ao apropriado do seu campo de aplicação / e cada um grava na pedra o mais que pode dos rendilhados do seu espécime. / Insiste Anselmo que àquele «algo maior do que o qual nada pode ser concebido» / que existe no entendimento / não pode faltar a perfeição da existência / fora do entendimento, / sem deixar Gaulino, monge, de lhe replicar / que houvera de ser certo então existir uma ilha perfeita / pois uma ilha perfeitíssima que existe unicamente na imaginação / não é obviamente tão boa como uma que realmente existe nas águas / - enquanto a nós, mais lhanamente, ocorre perguntar se ninguém reparou que / tudo quanto existe, vemos que não é perfeito / e nisso até achamos graça e diferença. / Se, em sua pequenez relativa ou absoluta, todo o ente depende de algum outro ente / e tal, de razão, pede um ser supremo que de coisa nenhuma está suspenso e por si só, é; / e se a este argumento cosmológico cedemos consideração / bem como às variantes do relógio que pede um relojoeiro e da obra que pede um arquitecto / - não vislumbramos assim mesmo em quê nem por quê / daí resulta na divindade qualquer solicitude ou interesse por nós, / conquanto não conste que ocorresse a alguém / aplicar o argumento das mãos sujas à origem do universo, / como se o criador tivesse pensado de si para si / resignado / "se não formos nós a fazê-lo, alguém o fará".

in Porfírio Silva, A Arquitectura do Pecado

Publicado por Porfírio Silva em 05:29 PM | Comentários (1)

Uma moralidade. (5/6)

Acordei a meio da noite. Na cela em frente, acompanhada de dois matulões, a mulher que me atropelara, pouco vestida, bebia champanhe e dançava. Não estava nada com ar de doente. Donde viria a música? (conclui amanhã)



Desenho: Rui C. / texto: Porfírio Silva.
Pode ver/ler todos os capítulos já publicados na sua sequência natural: na coluna da esquerda, em TEMAS, clique em "Novela Gráfica".
Publicado por Porfírio Silva em 08:27 AM | Comentários (0)

dezembro 09, 2003

Ciências, saberes, sabores

Há coisas do saber que têm sabor. Ideias expressas de forma demasiado rude podem ter um sabor amargo. Ideias expressas com frontalidade e gentileza têm (para mim) um sabor mais apetecível. No Em Expansao Vertiginosa está uma entrada que, de certo modo, responde a algo que eu escrevi aqui. Até certo ponto, pode parecer uma discordância comigo. Talvez a discordância entre nós não seja, afinal, assim tão grande. Mas o texto de Em Expansao Vertiginosa, ao mesmo tempo que é firme a discordar, é muito civilizado. E entra por outros caminhos que eu gostaria de debater. Já fui lá bater à porta e "ameaçar" que vou tentar alimentar o debate. Entretanto, sugiro que leiam, AQUI, a entrada a que tenho estado a referir-me.
Publicado por Porfírio Silva em 06:13 PM | Comentários (0)

Fazer implodir este blogue...

Andou aqui, durante algum tempo, um debate sobre a obra de António Damásio, centrado no seu livro mais recente. O pretexto foi um texto meu, publicado em linha num sítio de respeito (a Crítica). Depois de vários contributos para esse debate, senti-me no dever (e no prazer) de dar o meu ponto de vista sobre o que tinha sido dito. Isso resultou numa entrada, que publiquei aqui no blogue, no passado dia 5.Dez - e que é monstruosa: perto de 3.000 palavras e quase 16.000 caracteres (sem espaços). Manter um debate deste tipo, com esta duração, que ainda por cima acaba com uma entrada deste tamanho: isto assim ainda é um blogue? Quando acabei de escrever essa entrada, pensei que não podia publicar aquilo assim. Podia talvez publicar por partes - mas os diferentes aspectos estavam relacionados. Não podia não publicar. Decidi avançar. Quem chegue ao blogue e dê de caras com "aquilo", certamente foge logo, não é?
Será que a única forma de sair disto é o que um "colega bloguista" fez há tempos: pedir que imprimam o texto para o lerem? Mas isto fará sentido? Um blogue de papel? Um blogue impresso às fatias?
Outro aspecto curioso deste processo é que há pessoas, mesmo entre as que participaram no debate, que de modo nenhum são blogonautas, nem sequer grandes internautas. E certas coisas, para não nos encerrarmos nas fronteiras da tecnologia, têm que ser pensadas para os não-iniciados que não queremos que sejam excluídos deste meio. Isso significa que a "plataforma" pode ter efeitos de exclusão - e que é necessário pensar na forma de fazer as coisas para que isso não se verifique. E que isso talvez signifique subalternizar a plataforma. E talvez isso seja uma questão interessante para a blogosfera: como é que ela se mistura com a vida que anda aí fora?
Penso que estas questões são interessantes para quem por aqui anda. (Eu disse "interessantes", não disse "novas" e muito menos "inovadoras".)

Publicado por Porfírio Silva em 10:20 AM | Comentários (0)

Uma moralidade. (4/6)


A única cela ocupada naquele piso (ou seria em toda a cadeia?) era a minha. Entre as sete e meia da manhã e as oito da noite ninguém disse nada, ninguém apareceu, o abandono total doía-me mais do que a fome e a sede. Apesar de vir de uma noite de borga, não consegui dormir o dia todo. Às oito da noite aparece um tipo (seria um guarda? mas estava vestido com um fato de treino ridículo, às riscas pretas e brancas, como uma zebra…) que me olhou sem uma expressão, sussurrou "até qualquer dia" e saiu. Deitei-me e acabei por adormecer. Sentia-me como um elefante doente deitado num quarto de hotel de quinta categoria. (continua amanhã, conclui depois de amanhã)


Desenho: Rui C. / texto: Porfírio Silva.
Para ver/ler todos os capítulos já publicados na sua sequência natural: na coluna da esquerda, em TEMAS, clique em "Novela Gráfica".

Publicado por Porfírio Silva em 10:02 AM | Comentários (0)

dezembro 05, 2003

Debate sobre "O Erro de Damásio?". Ponto parágrafo intervalo.

A 23 de Novembro publiquei na Crítica o texto "O Erro de Damásio?" e anunciei aqui no blogue esse facto. A partir daí nasceu (quem diria) um debate. Confesso-me muito contente com o que aqui aconteceu: foram-me comunicadas várias apreciações críticas ao meu texto, algumas foram publicadas, todas me parecem pertinentes, isso proporciona uma boa reflexão. Que mais poderia eu desejar? Não vou dar respostas específicas e circunstanciadas a todas as questões levantadas: a qualidade dessas questões impede um tratamento "acelerado". Vou, pois, dar apenas pistas gerais da minha reflexão sobre elas. Com todo o respeito e reconhecimento pelos vários participantes. (Quem queira seguir todo o debate por ordem cronológica, favor ir à coluna da esquerda e, em TEMAS, clicar "O Erro de Damásio?")
(1) Lembrar o tópico central do meu texto. Começo por lembrar como foquei o meu texto, quando escrevi logo no início (última frase da introdução): "No essencial, [esta] crítica organiza-se em torno do seguinte tópico: Damásio parece acreditar em alguma modalidade de determinação do social pelo biológico." Mantenho esse ponto. Seguem dois exemplos claros disso mesmo. Damásio cita, de forma aprovadora e quase a título de síntese, a seguinte frase de Espinosa: "Os contratos sociais e políticos são extensões do mandato biológico pessoal." Damásio, falando de constituições democráticas, leis, sistema judicial, mesmo organizações internacionais, diz: "Todos eles estão ligados por um longo cordão umbilical a outros níveis de regulação homeostática básica ". A este respeito mantenho o que considero ser a minha pergunta essencial, tal como a fiz no texto de partida. Quando Damásio escreve que "a natureza tem disposto de milhões de anos para aperfeiçoar os dispositivos automáticos da homeostasia, enquanto os dispositivos não-automáticos dispõem de uns escassos milhares de anos", eu pergunto: quer isso dizer que a natureza vai aperfeiçoar as instituições? O aperfeiçoamento das instituições, dos sistemas sócio-políticos, das leis, das convenções - é um processo "natural"? Essas são, no meu texto, as perguntas centrais. E essas perguntas resultam claramente de afirmações de Damásio.
(2) Haverá um grão de inconsistência em Damásio? Também se podem encontrar afirmações mais cautelosas no texto de Damásio. Eu também as mencionei no meu texto. Mas aqui coloca-se uma questão de interpretação. Parece que muitos leitores gostaram do estilo literário deste "terceiro Damásio". Pois eu detestei esse estilo "literário", porque ele me parece má filosofia: faz-me lembrar os filósofos que abusam dos jogos de palavras para não se perceber bem o que dizem. Eu alertei para este ponto no meu texto inicial. Escrevi: "Damásio enquadra a apresentação das emoções e dos sentimentos num «espaço retórico» acerca do carácter automático dos respectivos mecanismos, sendo que esse espaço retórico é gerido de tal forma que temos dificuldade em chegar a uma leitura unívoca do que o Autor nos quer dizer. O resultado de uma gestão talvez demasiado literária desse espaço é o que nos parece ser a sobrevivência de certas margens de imprecisão quanto às teses em presença." Esse é, para mim, um importante defeito deste livro. E por isso digo que certas teses de Damásio aparecem de forma "envergonhada": porque estão lá, são argumentadas, mas convivem com afirmações contraditórias. Mas isso não é uma "condenação" de Damásio, é um "pensar em conjunto" com ele. Penso que se aplica aqui um pensamento de Stephen Jay Gould, em A Vida é Bela (Gradiva): "Os estudiosos erram frequentemente ao considerarem que a sua exegese de grandes pensadores produz um texto totalmente consistente. Os grandes cientistas podem andar toda a vida à volta de certos assuntos sem nunca chegarem a uma conclusão. Podem sentir a tensão de interpretações conflituosas e sucumbir à atracção de ambas. A sua luta não tem de acabar em consistência." (pp. 262-263) Passo agora a questões mais específicas.
(3) António Jorge Filipe Fonseca (23 de Novembro) escreve várias coisas importantes. Destaco apenas a sua forma de combinar duas ideias: por um lado, "a primazia da homeostase biológica nos fenómenos sociais"; por outro lado, a ideia de que se não existir determinismo no "devir temporal mais básico e físico da matéria", isso "se reflecte num não-determinismo na própria Biosfera". Interessante, por duas razões. Primeiro, porque remete para uma tese metafísica que muitos cientistas e filósofos gostam de considerar uma tese científica: a tese de que o nível físico é o nível básico da matéria, no sentido em que é nos fenómenos físicos que se devem procurar todas as leis pelas quais se rege o mundo material. Segundo, porque neste caso essa tese arrasta como consequência a ideia de que se não houver determinação do físico para o biológico também não pode haver determinação do biológico para o social. Eu contraponho outra ideia: a ideia de que diferentes níveis de organização da matéria podem reger-se por princípios próprios, que não sejam em última instância determinados por princípios regendo outros níveis. Por exemplo, o chamado "individualismo metodológico" (em ciências sociais e em economia) acredita que se compreende o funcionamento da sociedade compreendendo apenas (sublinho o apenas) como funcionam os indivíduos que constituem essa sociedade. Outros acreditam que se compreende o funcionamento dos indivíduos numa sociedade se se compreenderem as relações sociais. Eu não acredito numa coisa nem noutra: acredito antes que cada nível de organização, mesmo que seja (e é) influenciado por outros níveis de organização, tem princípios próprios que regem o seu funcionamento e que têm de ser descobertos empiricamente. Os humanos são seres biológicos e seres sociais, o facto de serem biológicos condiciona o seu comportamento individual e social, mas não o determina. Eu escrevi no meu texto de partida: "a base biológica não pode ser ignorada; e tem mais força do que muitas vezes tendemos a admitir (somos mais animais do que é usual gostarmos de reconhecer); e condiciona de algum modo outros níveis de explicação. Mas nada indica que apenas a partir da base biológica se possa explicar todos os outros níveis." Isso remete para a questão da linguagem.
(4) A questão da linguagem. Relevo, no contributo de M.A.B. (25 de Novembro), a questão da linguagem. E ligo isso à quarta questão de J.P.M., que foi o último interveniente. Quando J.P.M. diz que, na ética e na sociabilidade, não vê nada que seja especificamente humano que não passe pela questão da linguagem simbólica, eu concordo inteiramente (embora provisoriamente, porque me sinto necessitado de pensar mais nessa questão). De passagem, esclareçamos que "linguagem simbólica" não remete exclusivamente para "linguagens artificiais" como a linguagem da lógica simbólica ou da matemática. Falamos de linguagens simbólicas na acepção de linguagens que usam símbolos, linguagens que vivem à custa de elementos cujo sentido é determinado de forma convencional: não há nada de "natural" em que "mão" represente a parte terminal dos nossos membros superiores, enquanto há algo de "natural" em considerar que um céu carregado de nuvens anuncia borrasca. As nossas linguagens naturais (português, alemão) são linguagens simbólicas. Nesse sentido, vivemos entre/dentro/com "jogos de linguagem" que dependem das nossas "formas de vida" (à maneira de Wittgenstein). E aí o essencial (como diz M.A.B.) é que, o que na linguagem é "formulação e exteriorização", tem, "em retorno, incidências de novo no sujeito". Isto é: tendo a crer que a capacidade da linguagem para criar "factos" que estão para além de qualquer outro nível de funcionamento da matéria, "realidades" que não poderiam existir se não fossemos animais dotados de linguagem simbólica, produz efeitos próprios que retroagem sobre nós de uma forma que "baralha" os nossos mecanismos animais e cria por essa via um nível de especificidade humana que tem vindo a "engrossar" ao longo da evolução. Cabe notar que Damásio, quando explica a sua concepção de "consciência alargada" (O Sentimento de Si), é muito justo quanto ao papel de extrema relevância que dá à linguagem - e isso é bem mais razoável do que tentar a operação de "expulsar" a linguagem deste debate.
(5) Mecanismos, reducionismos, materialismos. Às várias questões levantadas por C.M.R. (26 de Novembro) respondo provisoriamente como segue. Primeira questão. A presença de "mecanismos" (biológicos, por exemplo) num sistema, não determina a natureza do sistema. Em particular, mesmo que aceitemos que os "mecanismos" biológicos dos humanos são deterministas, isso não implica que eles só se possam encaixar em sistemas deterministas. Veja-se, sobre este ponto, a última entrada da minha "Pequena história da máquina de Turing" neste blogue. Admitamos (for the sake of the argument) que um humano é um sistema não determinista. Admitamos (no mesmo regime) que os computadores são sistemas deterministas. Se temos um humano a operar vários computadores, esse sistema no seu conjunto é não determinista. Mesmo que a nossa biologia seja determinista, basta que tenhamos "uma peça" não determinista para que não possamos ser descritos de forma determinista. Julgo (provisoriamente) que a nossa "peça não determinista" é a linguagem. Segunda questão. Diz-me que argumentar, para atacar o determinismo, que uma característica distintiva do ser humano é projectar o desejo para além da necessidade, é uma petição de princípio. O ponto é excelente. Só tem um defeito. Eu não vejo isto como uma disputa teórica num sentido estreito. Vejo questões como essa como questões empíricas, que é preciso desenvolver pela investigação empírica. Suponho que há elementos da psicologia que suportam empiricamente essa ideia. Mas concordo que o argumento não pode ser usado em abstracto, sob pena de cair na categoria "petição de princípio". Terceira questão. Como posso eu partilhar uma estratégia de investigação materialista e rejeitar o reducionismo? Em geral, deixo essa questão para o fim deste texto, quando discutir a questão da emergência, suscitada por outro coloquiante. Mas, sobre o materialismo histórico também ser reducionista: concordo que essa é a interpretação dominante ou mesmo ortodoxa, não concordo que essa seja a única interpretação possível. Não cabe aqui aprofundar essa questão, mas, por exemplo, Daniel Bensaïd, Marx l'intempestif (Paris, Fayard, 1996), vai claramente neste sentido e contra as leituras dominantes. Ele diz, por exemplo, que O Capital não é a ciência das leis da história, mas a crítica da economia política, um conhecimento que deve potenciar a capacidade para agir sobre o real; que o que prevalece em Marx não é uma filosofia da história teleológica, nem a ideia de uma sociedade terminal necessária, mas uma teoria aberta do conflito, a ideia de que é a actividade real do humano real e vivo que trava os combates pelos seus próprios objectivos, que faz a história; que a história é o desenvolvimento real de relações conflituais. (cf. por exemplo, pp. 20, 24-25, 28). Bensaïd mostra que outros, antes (Gramsci, por exemplo), também foram por esta leitura e não por uma leitura reducionista. É claro que é difícil discutir tudo isto actualmente, porque há um véu ideológico sobre Marx que dificulta discutir o cerne destas questões, mas as questões que contam não morrem só porque a política de curto prazo as encobre. Mas adiante.
(6) A última série de comentários a ser publicada directamente neste blogue tem como autor J.P.M. (4 de Dezembro) e passo agora a considerar os seus pontos. Na sua primeira questão duvida da pertinência dos meus receios acerca de Damásio dar lugar a uma "determinação do social pelo biológico". Chamei a atenção para o alcance e os limites dessa minha "tese" no ponto (1) acima. Na segunda questão, critica-me a mim e critica LeDoux mais ou menos pelo mesmo defeito: como é que pode haver alguma coisa que não esteja no corpo? Como pode a "imaginação" ou o "intelecto" gerar algo que não venha pelo corpo? Não teremos aqui uma espécie de dualismo? Tenho de reconhecer que este equívoco resulta em larga medida de eu não ter trazido para o meu texto uma precisão terminológica que Damásio faz desde sempre e que eu aceito e pratico. Damásio explica (O Erro de Descartes, p.102) que, quando usa "corpo", toma esse termo como abreviatura de "organismo menos as componentes central e periférica do sistema nervoso" e que quando usa "cérebro" isso é uma abreviatura de "sistema nervoso", o qual também faz parte do corpo. Nesse sentido, não há qualquer dualismo: trata-se apenas de distinguir o que se passa em certas partes do corpo do que se passa em outras partes desse mesmo corpo. Mas cabe acrescentar o seguinte: o argumento de LeDoux (e o meu aproveitando LeDoux) assenta completamente em algo que é da autoria de Damásio: os chamados "mecanismos como se", a alucinação do corpo, os "falsos mapas". Será que eu sou o único a achar estranho que Damásio (que já escreve sobre esses mecanismos há vários anos) não faça uma tentativa mais profunda para perceber as implicações desses mecanismos? A terceira questão é sobre se Damásio diz em algum lado que pode haver sentimentos não conscientes. Se não dissesse, isso prejudicaria esse passo do meu argumento. Pois, mas Damásio é muito claro: "Alguns leitores podem ficar perplexos com a distinção de acabo de fazer entre "sentimento" e "conhecimento de que temos um sentimento". Será que o estado de sentir não implica, necessariamente, que o organismo que sente está consciente da emoção e do sentimento que se estão a desenrolar? Ora, sugiro que não, que um organismo pode representar, em padrões neurais e mentais, o estado que nós, criaturas conscientes, denominamos de sentimento, sem nunca saber que esse sentimento está a acontecer. (…) Não existe qualquer prova de que estejamos conscientes de todos os nossos sentimentos, e existem muitas que sugerem que não estamos."(O Sentimento de Si, p. 56) A quarta questão de J.P.M. já a comentei (ponto 4 acima), quando me referi à questão da linguagem.
(7) Emergência. Darei agora atenção a uma questão suscitada dentro deste debate mas fora deste blogue. O Em Expansao Vertiginosa publicou uma entrada, no dia 28 de Novembro, intitulada Emergência. No essencial, diz que o problema do meu texto é ter dificuldade em incorporar o conceito de emergência. E depois associa o conceito de emergência ao conceito de reducionismo. Citando: "O progresso científico a que assistimos e aquele que podemos antever tem como ponto de partida uma identificação dos ingredientes, das origens do fenómeno, dos componentes e das interacções entre componentes, que tipicamente se encontram num patamar inferior, num patamar mais fundamental. Dessas interacções e dessas componentes emerge um comportamento complexo. Pode chamar-se a isto uma espécie de reducionismo, admito que sim, mas até agora não vi qualquer alternativa que possa ser produtiva." E depois passa a extensas citações de Damásio. Dada a importância desta questão, ela merecia ser tratada autonomamente - mas não quero desfalcar este debate desse aspecto e, por isso, vou atacá-la de forma muito resumida.
É preciso começar por dar um enquadramento mínimo a esta questão. O que é o reducionismo? A ideia básica (muito abreviada e simplificada) é como segue. Aparentemente, existem vários níveis de organização da matéria e, correspondentemente, diferentes disciplinas científicas para lidar com diferentes níveis (física, química, biologia, psicologia, sociologia). Mas, na realidade, há um nível fundamental ou básico (normalmente, corresponde aos fenómenos estudados pela física ou mesmo pela microfísica). Quando compreendermos bem como funciona esse nível, compreendemos como funcionam todos os outros níveis. Esta concepção corresponde claramente ao contributo de Em Expansao Vertiginosa.
O que é o emergentismo? Há muitas espécies de emergentismo, mas a ideia básica é esta: há diferentes níveis de organização da matéria e cada nível rege-se por princípios ou leis que lhes são próprios e não podem ser explicados apenas pelo conhecimento das leis ou princípios que regem os outros níveis. Exemplos populares: se eu souber toda a física que há a saber acerca de todas as peças de um automóvel, não fico por isso a saber como funciona o automóvel; se me informarem dos constituintes químicos da água e das leis que os regem, isso não me faz sequer ficar a saber que daquela junção de moléculas resulta aquela substância - e muito menos me esclarece acerca de como se comporta essa substância.
Qual é a relação entre reducionismo e emergentismo? Simplificando o mais possível, destaco duas concepções acerca da relação entre redução e emergência. Numa delas, o que nos parece ser emergente é apenas o resultado da ignorância, de não conhecermos melhor a relação entre as leis de níveis diferentes. Noutra, há de facto princípios de organização da matéria que são próprios a cada nível e cada nível tem de ser estudado empiricamente na sua diferença.
Temos, então, várias coisas a dizer. Primeiro, a concepção que Em Expansao Vertiginosa tem da redução e da emergência não é a única possível. Segundo, Damásio é muito mais cauteloso quando trata dessa questão. Escreve na nota 21 ao capítulo 5 (p. 352) da obra em análise (versão portuguesa): "É aqui necessário qualificar o tipo de reducionismo de que estou a fazer uso. O nível mental dos fenómenos biológicos inclui especificações que não estão presentes no nível dos mapas neurais. Espero que a investigação futura nos venha permitir explicar como é que se caminha do nível de mapas neurais para o nível mental, embora o nível mental não seja redutível ao nível dos mapas neurais visto que possui propriedades emergentes criadas a partir do nível dos mapas neurais." Curiosamente, na versão americana há mais uma frase nesta nota: "There is nothing magic about those emergent properties, but there is a lot that remains mysterious, given our massive ignorance of what they may involve." (p.325) Portanto, Damásio identifica uma tensão entre reducionismo e emergentismo (o que Em Expansao Vertiginosa não faz) e está consciente de que por aí não temos uma solução "chave na mão" (consciência que Em Expansao Vertiginosa não tem). Terceiro, isto não elimina (nem resolve) nenhum dos problemas que levantei no meu texto. Quarto, não vale a pena invocar arbitrariamente diferenças de natureza entre leituras filosóficas e leituras científicas: Damásio dá, nesse campo, um bom exemplo, que consiste em fazer ciência-com-filosofia e filosofia-com-ciência. Essa é, aliás, a melhor maneira de fazer ciência-com-consciência.
Obrigado! Muito agradeço a todos a riqueza e diversidade das contribuições que deram para este debate. Sinceramente.

Henri Rousseau, Surprise! (1891)

Henri Rousseau, Surprise! (1891)

Publicado por Porfírio Silva em 05:00 PM | Comentários (1)

Uma moralidade. (3/6)


"Senhor guarda… eu não atropelei mulher nenhuma. Está no hospital? Mas foi ela que se atirou ao carro! Foi ela que me virou, como se eu fosse uma sardinha dentro da lata! Se eu estou a gozar? Mas como posso eu estar a gozar com uma coisa destas? Ela está muito ferida? Mas eu não fiz nada! Nada! Preso? Preso, como?!" (continua na terça-feira)



Desenho: Rui C. / texto: Porfírio Silva.
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Publicado por Porfírio Silva em 09:27 AM | Comentários (0)

dezembro 04, 2003

Debate. Ainda "O Erro de Damásio?".

Parece que ainda não chegou a hora de eu tentar dar um fecho (mesmo que provisório) a este debate. De facto, recebi de J.P.M. um comentário ao meu texto. Esse comentário, além de algumas palavras elogiosas, contém também críticas e questões. Que interessam. E que por isso passo a citar, em excertos. E que tem como efeito adiar o meu "ponto parágrafo intervalo" neste debate.

(1) «Haveria que discutir a acusação da sua p. 2 [as páginas remetem para uma versão a que J.P.M. teve acesso mas que não foi divulgada; mantenho as referências porque dão localizações aproximadas mesmo para aqueles que só viram a versão em linha], de "determinação do social pelo biológico". Vejo Damásio mais numa longa linha que vai de Darwin a Moscovici, passando por K. Lorenz (mas sem passar por Spencer ou qualquer darwinista social), onde o biológico oferece para o social uma base muito mais ampla do que a dos que ignoram o darwinismo, mas sem determinação "dura", e muito menos determinismo, acusação que o meu amigo não faz "em força" mas sugere na sua p. 18, aliás com graça, ao falar de "determinismo envergonhado". Creio que o biológico e o social interagem, como em La Société Contre Nature, de Moscovici, onde algumas formas de sociedades pré-hominídeas fizeram parte das constrições selectivas para o surgimento do nosso Sapiens Sapiens. E não vi no Damásio "biologização" que me chocasse. E talvez o darwinismo seja sempre anti-determinista, pelo espaço cedido ao acaso, o que livraria Damásio, junto com Popper e muitos outros, desse "vírus" que Laplace passou, entre outros, a Kant.»
(2) «Não vejo como aprovar LeDoux (sua p.12, fim), no argumento da imaginação como geradora de sentimentos não produzidos pelo corpo. Creio que para Damásio, e certamente para mim próprio, a imaginação é uma capacidade do corpo, tal como a consciência, de modo que também esses sentimentos, até melhor argumento, são gerados no corpo.E não percebi a sua própria observação da p. 13: dizer que um processo começou no intelecto e não no corpo não arrasta alguma espécie de "dualismo" intelecto/corpo? Algo que obviamente pode ser defendido, mas que os 3 livros de Damásio buscam combater. Haveria que combater também este combate.»
(3) «Logo a seguir (...), dizer que o sentimento teria que ser completamente consciente só é problema se o Damásio disser explicitamente que há sentimentos inconscientes (além de emoções), o que não encontrei. Mas certamente mo apontará no livro.»
(4) «Por último, na sua p. 14 reclama-se o desenho de uma "especificidade humana no domínio da ética e da sociabilidade". Inclino-me para pensar que, após muitas tentativas para definir o exclusivamente humano (a sociedade, a moral, estas duas também em Hume), e muitas outras, a única diferença clara é a linguagem simbólica (referida na sua p. 19), da qual não vejo sinais em outras espécies, embora em muitas destas haja claramente linguagem não simbólica. As diferenças morais e sociais não seriam derivadas da filtragem de tudo pela linguagem simbólica? Há algum exemplo de especificidade humana que fosse inconcebível ter essa origem? Talvez para poder ser acusado de reduzir o social ao biológico (sua página final) Damásio tivesse que ter alguma tese biológica, que não tem, reduzindo o simbólico ao biológico. Mas este ponto é mais duvidoso.»
Publicado por Porfírio Silva em 01:00 PM | Comentários (1)

Uma moralidade. (2/6)

Foi tudo muito brusco. A mulher de vermelho, afogueada, aparecida de um buraco qualquer, salta-me ao caminho pela esquerda. Esbaforida, corre contra o carro, grita-me qualquer coisa que não entendo (mas é de raiva), empurra o carro com uma só mão, não posso crer, o carro vira-se, estou de cabeça para baixo dentro do carro, a mulher grita "socorro! socorro! este malandro atropelou-me! estou desgraçada!". Desgraçada, ela?! Ora essa… (continua amanhã)



Desenho: Rui C. / texto: Porfírio Silva.
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Publicado por Porfírio Silva em 09:58 AM | Comentários (0)

dezembro 03, 2003

Uma moralidade. (1/6)

Novela gráfica. Começa hoje e continua durante seis dias úteis consecutivos: desenhos originais de Rui C. e texto de Porfírio Silva.

6 da manhã. Conduzo, vagamente acordado, depois de uma noite de copos. Desço a rua dos eléctricos, carreiro metálico escorregadio que nos puxa para o rio ao fundo. O sol matinal cega-me os olhos pestanejantes. Não se vê vivalma. Apenas uma matilha de cães excitados vagabundeia. (continua amanhã)

Desenho: Rui C. / texto: Porfírio Silva.

Publicado por Porfírio Silva em 03:01 PM | Comentários (0)

Pequena história da máquina de Turing (2)

No apontamento anterior desta série demos o conceito básico de "máquina de Turing" (MdT). Damos agora mais um passo, explicitando as noções de "estado da máquina" e "configuração da máquina" e introduzindo a distinção entre máquinas deterministas e máquinas não deterministas (utilizarei esta distinção no fecho provisório que vou dar ao debate sobre o meu texto "O Erro de Damásio?").

Estado e configuração de uma MdT
Em cada instante, uma MdT encontra-se num determinado estado. Dois estados característicos são: o estado inicial (como está a máquina antes de começar a processar a primeira instrução) e o estado final (quando a máquina parou por já não ter nenhuma instrução que possa executar). Entre o estado inicial e o estado final, a máquina vai passando por outros estados à medida que vai seguindo as instruções. De uma forma simples, o estado da máquina é a fase de execução do programa em que ela se encontra. Designaremos por configuração da máquina num dado momento o seguinte conjunto de elementos: o estado da máquina, a célula em observação nesse momento e a sequência de símbolos na fita à esquerda e à direita da cabeça.

Máquinas deterministas e máquinas não deterministas
A MdT tradicional é determinista: a acção a executar pela máquina em cada momento é determinada pela configuração da máquina. Dado o ponto de execução do programa, a situação da fita, qual a célula em observação nesse momento, o que a máquina fará de seguida está perfeitamente determinado. Em cada momento, a máquina executa uma determinada acção e nenhuma outra é possível - e assim do princípio ao fim do programa. Vendo esta questão do ponto de vista do programa, isso significa que para cada situação só há uma instrução a seguir. Em qualquer outro caso, a MdT é não determinista: se em algum ponto do programa houver uma escolha quanto à instrução a seguir e essa escolha não for ditada pelo próprio programa (a escolha pode ser deixada à máquina, por exemplo implementando uma escolha aleatória - ou ser entregue a um decisor exterior, por exemplo um humano).

Publicado por Porfírio Silva em 02:01 PM | Comentários (2)

dezembro 02, 2003

Debate. Ainda Damásio e "O Erro de Damásio?".

Preparava-me (depois de um exílio num refúgio sem banda larga e onde não tenho paciência para "navegar" com linha telefónica normal) para dar um fecho a este debate. Eis que recebo notícia (pelo seu autor) de uma crítica ao meu texto "O Erro de Damásio?", que se encontra em Em Expansao Vertiginosa com o título Emergência. O tema é de grande relevância para o debate em questão e enriquece esta troca de ideias. Vou pensar nele, prometo - e não deixarei de o ter em conta no meu próximo (e último, espero) apontamento desta série.
Publicado por Porfírio Silva em 07:22 PM | Comentários (0)