março 31, 2004

Luto (3)

Terceiro dia de uma semana de luto pelo estado do mundo.

Introdução à história geral dos impérios


Estavam os homens a escrever palavras no papel
e as palavras bebiam a água devida à raiz das plantas.
Os homens diziam que as plantas não se movem.
Certa manhã, partindo cada uma do canto de sua casa,
todas as mulheres batem com a mão no peito
com uma vontade (de quê, não sei) que o país inteiro estremece.
Como dos braços do regente com orquestra nascem sons,
dos olhares que lançam sobre os povos saem pedras
em concerto elas, em desconcerto eu
busco as brechas entre a partitura e a interpretação,
o acto entre a herança e a profecia,
o caminho (que estreito nas minhas mãos...) entre o reconhecimento e o receio.
Mas mesmo não o querendo, temo.
Era deveras meu intento acreditar
mas pousei a pedra em cima do livro
e a fractura passou do livro para a pedra,
a água que inchava as folhas de papel rasgou o minério.
Sabia-se que não é nada difícil ver o invisível:
basta espalhar um pouco de pó do chão por cima
e os contornos do mundo aparecem.
Difícil é compreender a prioridade aos lírios do campo.

in Porfírio Silva, Cinco Sonetos Imperfeitos de Amor e outras narrativas

Publicado por Porfírio Silva em 10:16 PM | Comentários (0)

março 30, 2004

Luto (2)

Segundo dia de uma semana de luto pelo estado do mundo.

Construtores de almas


Nada tanto como os animais selvagens
sabe do método de construção de almas.
É simples: vagueia-se pela planície, predador e presa,
avança-se lentamente com os membros anteriores flectidos
arrastando o sexo hirto pelas pedras no solo
preparando a culminante cópula desta estação
como mandam as leis do reino.
Assim avança o travejamento da alma do animal,
até que ele esteja pronto a compreender
os astros que alumiam a planície à noite
e as instituições do grupo a que assim cada vez mais pertence.
A alma é uma tenda onde o animal se abriga,
ao lado dos seus irmãos e dos seus medos,
estrutura que enforma matérias várias consoante a espécie:
aos homens, as palavras dizem muito.
Vê por ti:
limpas o aparo da caneta na carne
a raiva das palavras na tinta inflama o corpo
a febre sobe e fragiliza-te
o animal que da carne vai à tinta alimenta a escrita
rebentos verdes urgem no corpo agora rugoso da caneta
a caneta move-te a mão navegante no papel
e vês-te autor de palavras que com esforço haverás de interpretar.
Roçando o corpo nas palavras dos seus irmãos
o homem faz a alma à sua medida,
faísca apertada entre pedras.

in Porfírio Silva, Cinco Sonetos Imperfeitos de Amor e outras narrativas

Publicado por Porfírio Silva em 05:58 PM | Comentários (0)

Crítica da lucidez anunciada

Lido o último Saramago, concluo pela dificuldade da lucidez. Pelos vistos, apesar da pose grave que tem posto o nobel autor nestes dias de publicidade, não é lúcido quem quer. O interesse narrativo só deixa os lugares comuns lá para meio do livro, quando este romance se engancha no outro "ensaio" (sobre a cegueira). Até se chegar a essa terra do meio (talvez descontado o breve impulso do arranque), a banalidade impera, o esquema básico é uma espécie de ficção política de cordel, por demais previsível e sonolente. Depois do meio, quando a narrativa da lucidez passa a repousar no reenvio para a narrativa da cegueira, o mundo ganha então alguma espessura. As personagens descobrem-se, só aí, possuídas do mistério saramaguiano. O final-mesmo-no-fim volta a ser de telenovela: simplista, a preto e branco, maniqueísta como é na totalidade este "ensaio sobre a lucidez". Puro engano: não há nunca lucidez no simplismo. O maniqueísmo esquematista deste "ensaio" é assustador. A metáfora central (a do voto em branco) é capaz de dar votos na eleição do mercado (Zeferino anuncia 100.000 exemplares), mas é pobremente manuseada no texto literário propriamente dito. A lucidez é muito difícil. E a triste comédia do exílio a cuja encenação Saramago agora volta não é mais lúcida do que o ensaio (tenha lá ele as razões que tenha, e tem). Senhor candidato pela CDU: o senhor mostra bem que a cegueira é mais fácil do que a lucidez. Já n'A Caverna devia ter percebido que a subtileza literária da evidência não usa ser muito estimulante. Agora reincide. É lá consigo. Não vale a pena é tanto lirismo pseudo-radical só para vender. Em todo o caso, um "saramago" é um "saramago". Vale a pena ler. Ainda por lá andam umas quantas páginas do mistério que recobre as paredes mais quotidianas.
Publicado por Porfírio Silva em 09:18 AM | Comentários (0)

março 29, 2004

Luto (1)

Farei em cinco dias uma semana de luto. Pelo estado do mundo. Com um texto em cada dia. Pelo estado do mundo. Depois de terem passado as manifestações, venho eu agora ao luto. Pelo estado do mundo.


Fragmento de uma de biologia dos monstros antigos


Poderás pelo poder da tua fábrica produzir monstros antigos?
Poderás, mesmo sem vestígios fósseis,
pela pura compreensão do seu genoma,
construir um centauro,
de raiz, sem pai nem mãe,
como um programa na máquina a correr,
ou apenas com peças avulsas de monstros modernos?
Será possível um corpo,
metade homem metade cavalo,
que a evolução não trouxe, natural, até hoje,
resultar da tua habilidade recente?
Nasceria de tal arte um rosto, torso e braços semelhantes aos teus
com garupa e pernas de equídeo?
Pergunto-me de que outras estruturas corporais complicadas
será capaz o teu engenho.
Bichos fantásticos, metade lagostim metade cabra,
vivendo ora em seco ora na água?
entes metade anjo metade escorpião,
metade virgem metade rei,
metade candura metade linguagem?
Estará no poder da tua fábrica
compreender a génese ao ponto
de estruturas corporais espantosas resultarem,
produzindo novos monstros antigos,
metade palavra metade silêncio,
vivendo ora nos teus ora nos meus medos?

in Porfírio Silva, Cinco Sonetos Imperfeitos de Amor e outras narrativas

Publicado por Porfírio Silva em 09:58 PM | Comentários (0)

março 26, 2004

Bienal de Sydney

Há muitas razões para uma pessoa querer ir à Bienal de Sydney. Talvez para um português haja ainda mais razões desta vez. Vá ver porquê na página respectiva. Ainda havemos de falar nisso aqui.
Publicado por Porfírio Silva em 10:17 PM | Comentários (0)

março 25, 2004

"Amor pela passiva" e "amor pela activa"

Ontem, pela noite, Teatro do Bairro Alto, Companhia de Teatro da Cornucópia, Filodemo de Luís de Camões. Auto. Comédia. Tragicomédia. A minha companhia de teatro de culto, desta vez mais longe da camada de chumbo que recobre o mundo e que com tanto saber nos costuma dar a saborear. Desta vez, pequenas tragédias quotidianas com que nos rimos até. Por outro lado, este encenador continua a explorar a favor do teatro o facto de que nem todos somos iguais nos nossos corpos, de que uma parte da alma (no sentido que se queira dar-lhe) está à flor da pele que nos delimita o volume. A editora Cotovia continua a dar expressão a estas jornadas culturais da Cornucópia, mais uma vez tornando acessível o texto que se leva à cena. Tantas coisas boas numa só noite... Só uma sombra: em termos de teatro (e não só) dá pena não podermos viver também em outras terras deste país (o Porto, por exemplo; mas não só).
Nos "textos de apoio" disponibilizados no sítio do Teatro da Cornucópia, o seguinte diálogo aparece como exemplo do contraste entre amor platónico ("amor pela passiva") e amor fisicamente expresso ("amor pela activa"):
FILODEMO - (...) é necessário que primeiro alimpeis como marmelo e que ajunteis pera um canto da estrebaria todos esses maus pensamentos vossos, porque, segundo estais, mal avinhado, danareis tudo o que agora em vós deitar. O caso é este. Já vos dei conta da pouca que tenho com toda a outra que não é servir a senhora Dionisa; e ainda que a desigualdade dos estados o não consinta, eu não pretendo daqui outra senão não pretender cousa nenhua. O que lhe quero, consigo mesma se paga. É este meu amor como ave fénix, que de si só nasce e não de nenhum outro interesse.(...)
DORIANO - Eu vo-lo direi: porque todos vós outros, que amais pola passiva, dizeis que o amador fino como melão que não há de querer mais de sua dama que amá-la viva. E virá logo o vosso Petro Bembo, Petrarca e outros trinta Platões (mais safados destes hipócritas que uas luvas dum pajem d'arte) mostrando-nos rezões verisemelhantes pera homem não querer mais de sua dama que ver, até falar. E ainda houve outros inquisidores d'amor, mais especulativos, que defenderam a vista por não emprenhar o desejo. E eu faço voto a Deos, se a qualquer destes lh'entregarem sua dama entre dous pratos, tosada e aparelhada, que não fique pedra sobre pedra nem lugar sagrado em que se possa dizer missa daí a mil anos, nem lugar tão preveligiado em que a fúria da justiça não buscasse até os caminhos escaninos. De mim vos sei dizer que os meus amores hão de ser activos. E eu hei de ser a pessoa agente e ela a paciente. E esta é a verdade. Mas tornando a nosso prepósito... Vá vossa mercê com sua história avante.
Publicado por Porfírio Silva em 09:49 AM | Comentários (0)

março 24, 2004

Ensaio sobre a lucidez

Há fins de tarde que correm bem. Acabo de comprar o último (em data) romance de José Saramago, Ensaio sobre a Lucidez. O lançamento é só no próximo dia 29, mas chegou hoje à livraria onde passei. Não sei se devo ter muita esperança de vir a gostar tanto deste "ensaio" como do anterior (Ensaio sobre a Cegueira, que é o meu preferido de todos os saramagos, o mais metafísico). Apesar de que (ou antes "porque") acabo de ouvir na TSF o autor dizer que se acha lúcido. Pode um cego escrever um ensaio sobre a cegueira? Pode um lúcido escrever um ensaio sobre a lucidez?
Publicado por Porfírio Silva em 07:36 PM | Comentários (2)

março 23, 2004

Ciência e Política

O jornal Público publica hoje, num texto com o título "EUA aliviam censura nas publicações científicas", uma informação que no essencial é captada pela seguinte citação: «A Secretaria de Controlo de Bens Estrangeiros, que controla a aplicação das leis do embargo - que abrangem não apenas Cuba, mas também o Irão, a Líbia e o Sudão - proibiu, em Setembro do ano passado, a publicação de artigos científicos [enviados por investigadores daqueles países] em revistas norte-americanas onde se faz avaliação prévia pelos pares (...). Quase todos os artigos recebidos pelas revistas científicas são avaliados e editados, no conteúdo e na forma, antes de serem publicados. A Administração Bush considerou que estes métodos acrescentavam uma mais-valia para os manuscritos originais e, desta forma, representavam, para todos os efeitos, uma contribuição financeira ao país em causa, violando a lei de embargo norte-americana. A edição e publicação de artigos provenientes dos países embargados só poderia ser feita com uma licença especial, que era emitida pelo mesmo organismo.» Depois deste enquadramento, a notícia é: vai ser emitida uma licença geral para os efeitos do mecanismo descrito.
Eu cá só comento: depois ainda dizem que foram os relativistas que inventaram o peso da política na ciência!
Publicado por Porfírio Silva em 06:22 PM | Comentários (0)

março 18, 2004

Terrorismos

Do outro lado do mundo (literalmente) recebo uma mensagem de um Amigo. Meu caro Paulo Godinho: eu a tentar fugir da política-política e tu a puxar este blogue para esses lados outra vez! Bem sei que te limitaste a enviar um comentário e fui eu que decidi puxá-lo para aqui. Sim, mas espera, porque a coisa tem água no bico: para quando a tua resposta (positiva) a um desafio que te fiz um destes dias? Mais não digo, aqui e agora, porque espero que daí venha uma novidade saborosa um destes dias (saborosa para os leitores, claro).

Caro Porfírio, lamento desiludir-te mas as “certas coisas” que queres evitar no teu blogue são possivelmente as mais interessantes que por cá aparecem, pelo menos do meu ponto de vista. Suponho que estarás a fazer um esforço no sentido de evitar circunscrever à actualidade política ou aos temas políticos o conteúdo do teu blogue mas, de facto, foi nesta área que encontrei algumas das reflexões mais interessantes, vide não apenas as resultantes da mais recente “escaramuça” com Miguel Magalhães mas também as da anterior com Vital Moreira. Aliás, mais uma prova disso é o facto de hoje me ter sentido tentado a alinhavar algumas linhas em torno da polémica em torno do “terrorismo”, quando até agora me tinha mantido atento mas silencioso.
Desde o dia em que o presidente Bush declarou “guerra ao terrorismo” que sinto que, talvez deliberadamente, se tenta enfrentar um fenómeno complexo pela via simplista de “meter tudo no mesmo saco”. Seguindo a lógica maniqueísta de dividir permanentemente o mundo entre bons e maus (o que do ponto de vista da comunicação política junto de um eleitorado pouco esclarecido e pouco empenhado em se esclarecer até pode ser uma via eficaz), a “guerra ao terrorismo” passou a ser tratada como se a Al-Qaeda, o IRA, o Hamas, a ETA, o Abu Sayaf, os rebeldes chechenos, as FARC, ou qualquer outra organização que combate através das armas, pelos mais variados motivos, governos próximos dos Estados Unidos, não passassem de bandos de malfeitores que, presumivelmente de forma articulada entre si, combatem as democracias e põem em causa a paz mundial.
Sem querer apoiar a forma ligeira como Mário Soares se referiu à necessidade de negociar com os “terroristas” (pois penso que a questão está mal colocada à partida quando se aplica a eito o rótulo de “terrorista”, não se percebendo, portanto, do que, ou de quem, se está a falar quando se diz “os terroristas”), reconheço que a forma como hoje se generaliza a utilização da palavra “terrorista” e, sobretudo, como se procura uma fórmula única (a da força) para lidar com todos os “terrorismos” é, muito provavelmente, a pior maneira de tentar ultrapassar esse grave problema que afecta quase todas as sociedades ocidentais e ocidentalizadas (cada vez existem mais “sociedades ocidentais” noutros pontos geográficos).
Valeria a pena reflectir sobre os objectivos políticos e os meios utilizados por cada uma das organizações ditas “terroristas” e o quadro histórico e social em que cada uma delas nasceu e se desenvolveu, antes de as meter a todas no mesmo saco e de aplicar a todas a mesma receita.
Não sei se os rebeldes que se bateram pela independência dos Estados Unidos da América, na segunda metade do século XVIII, não poderiam ser considerados “terroristas” à luz dos critérios de hoje...
("Assinado": Paulo Godinho)

Publicado por Porfírio Silva em 04:18 PM | Comentários (1)

Fecho: Terrorismo, Espanha, eleições, guerra, mundo

Continua - e termina - a polémica com o Miguel Magalhães. Outras se seguirão no futuro? Estou sempre a pensar que quero evitar certas coisas aqui no blogue, mas acabo sempre por ceder à tentação.

Miguel Magalhães (17-03-04): Uma resposta a quatro comentários, já que dizes que não respondo. Como sabes, não é verdade. 1 - A guerra não simplifica tudo, mas simplifica alguns dilemas morais, devido ao carácter brutal e inadiável de certas escolhas. Mesmo em relação a certos extremismos (que não são, por enquanto, terroristas) há que ter uma postura minimamente coerente. O exemplo recente do Partido Socialista da Áustria que se aliou com o Haider na Caríntia, quand há poucos anos andou a convencer os governos socialistas (e não só) europeus a boicotarem a Áustria por esta ter um governo de coligação com o Haider é uma vergonha. 2 - Se a política dos EUA mudar, eu fico contente porque não concordo com esta. Mas, embora não concorde com esta, prefiro que os EUA e aliados na coligação consigam arranjar uma saída "airosa". Portanto, não preciso de mudar de opinião se mudar a política dos EUA. 3 - Curiosamente eu falo em eleições, liberdade de imprensa e liberdade de associação, mas tu perguntas-me se eu acho que eleições bastam. Penso que está respondido. Tenho plena consciência de quanto os fundamentalistas judaicos têm prejudicado Israel, os israelitas e os judeus. Mas insisto em afirmar que em Israel existem eleições, liberdade de imprensa e liberdade de associação e isso não acontece em nenhum país oficialmente inimigo de Israel. 4 - Conheço muito bem o argumento que se opõe a qualquer medida mais antipática por alegadamente ser ineficaz e ser, de certeza, desviada para outros fins. É exactamente o problema que eu levanto na minha mensagem anterior. Sem um mínimo de boa-fé e confiança entre os partidos democráticos não é possível combater o terrorismo. Há uns anos, em Espanha, houve um caso paradigmático: os GAL. Nessa altura não havia blogues, mas eu defendi o PSOE publicamente em alguns debates. Se os partidos políticos (o PP, os nacionalistas bascos, alguns elementos dentro do próprio PSOE) e muitos magistrados só estão preocupados em nunca ultrapassar os limites duma estrita legalidade e desatam a disparar contra os governos à primeira derrapagem, o que pode fazer um governo responsável que tem que fazer o que tem que fazer? Ficar a olhar, impotente e alheado, para as actividades criminosas da ETA? Aquilo que eu digo é que as democracias não podem ser virgens suicidas. Têm de ter armas, serviços secretos, polícias e práticas (sim, sobretudo práticas) de combate ao terrorismo. Não é possível fazê-lo, se a nossa principal preocupação for apenas ganhar as próximas eleições ou manter o poder a todo o custo.

Porfírio Silva (17-03-04): Já percebi qual é a tua técnica: falar de tudo ao mesmo tempo e não levar nenhum assunto até ao fim. Começámos em Espanha, passámos para Israel, agora estamos na Áustria. Fica-te muito bem assumires que apoiaste o PSOE na questão dos GAL. Fica-te bem porque mostra qual é a tua linha: há terrorismos maus e terrorismos bons. Parece, aliás, que há muito tempo preferes o terrorismo de Estado - e que continuas a preferi-lo, porque para esse arranjas sempre desculpas. A minha linha não é essa. Quanto ao mais: o meu método não é discutir tudo ao mesmo tempo só porque tu adoptas o método do caleidoscópio. Por isso, vou ficar-me por aqui. Podes continuar a fazer rodar os temas à tua vontade. Um abraço.

Miguel Magalhães (17-03-04): Só um pequeno comentário para não se dizer que uso a técnica do caleidoscópio. Comparar o terrorismo (Ben Laden, Hamas, ETA, IRA,etc.) com as actividades de defesa do Estado democrático é algo que sou incapaz de fazer. Terrorismo de Estado é o que faz a Coreia do Norte ou fazia o Iraque de Saddam ou fazia a Alemanha nazi, a Espanha franquista, a URSS estalinista. a China maoista ou o Camboja de Pol Pot. Lamento, mas não sou sequer capaz de compreender quem compara Bush a Hitler. Quanto ao Iraque, é fácil distinguir um discurso responsável dum discurso irresponsável. Basta comparar o que Sampaio e Louçã disseram sobre a presença da GNR no Iraque.

Porfírio Silva (17-03-04): Os GAL eram terrorismo de Estado. Promovido por um partido socialista. Custa-te a aceitar? Também a mim. É por isso que os simplismos não funcionam: nem do ponto de vista político, nem do ponto de vista analítico.

Miguel Magalhães (17-03-04): Os GAL foram o resultado duma situação em que muitos dos agentes que deviam defender o Estado democrático (políticos, magistrados e jornalistas, por exemplo) só se preocuparam em impedir que o governo tivesse capacidade para actuar de forma eficaz contra a ETA. Eu não defendo os GAL. Defendo é que se deveria ter compreendido melhor o dilema insolúvel com que o PSOE se teve de debater e, portanto, dever-se-ia ter sido benevolente no julgamento dos culpados. Cá está, podes dizer que eu defendo que a lei não é igual para todos. Mas o que eu defendo mesmo é que as democracias têm de ter meios para fazer também os trabalhos sujos que são necessários para a sua defesa. O que nos diferencia dos terroristas nesta matéria é sabermos que só o queremos a título excepcional, em situações de extrema necessidade. A não ser assim, terão eles as armas todas e nós todos os impedimentos. É uma guerra demasiado desigual para poder ser vencida.

Porfírio Silva (17-03-04): Meu Caro Miguel: Levaste as coisas a um ponto em que eu já não preciso de dizer nada. Basta ler as tuas palavras. Está lá tudo. Eu podia dar-me ao trabalho de fazer uns "recortes" dos teus comentários e teria assim um retrato fiel do ponto a que chegaram certas opiniões nos dias de hoje. E depois perguntava: é esta a democracia e a paz que tu queres? Mas não vale a pena, porque não é preciso procurar muito. Em tempos difíceis precisamos de mais ponderação e menos excitação.

Miguel Magalhães (18-03-04): Concordo em que fiquemos por aqui. Pela minha parte, este é o último comentário que farei. Só posso acrescentar que preferiria estar enganado e não ter de olhar de frente para as difíceis opções que temos de assumir. É verdade que seria melhor que não houvesse armas, mas o que não posso aceitar é que haja fanáticos com armas viradas contra mim sem que eu (e quem me representa) esteja capacitado para resistir e vencê-los.

Porfírio Silva (18-03-04): Miguel: Penso que tu e eu queremos ambos o mesmo, como resultado final. Discordamos acerca do diagnóstico e acerca da terapêutica (talvez mais acerca da terapêutica do que acerca do diagnóstico). Mas acredito que nunca nenhum de nós se passará para o lado dos que preferem matar o doente. Por isso, aceito sempre as polémicas (por mais duras que sejam) com quem pode querer berrar comigo, mas não quer apertar-me a garganta. Volta sempre!

Publicado por Porfírio Silva em 09:52 AM | Comentários (1)

março 17, 2004

Again: Terrorismo, Espanha, eleições, guerra, mundo

Meu Caro Miguel Magalhães: Aqui vão quatro comentários, tão breves quanto as minhas capacidades permitem, à tua última intervenção.
(1) A guerra não simplifica nada as coisas. Torna-as mais complexas, tanto do ponto de vista político como do ponto de vista moral. Quem passa a raciocinar de forma mais simplista perante a guerra é um irresponsável (dou de barato que não seja, apenas, um criminoso).
(2) Ser aliado dos EUA não é ser acrítico. A União Europeia é formada por Estados que discordam radicalmente em muitos assuntos e não é por isso que somos menos aliados. Mas este ponto está requentado, não vale a pena insistir. Só penso o que dirás se o governo dos EUA mudar e a sua política neste ponto se tornar diferente. Mudarás de opinião nessa altura para não ofenderes os nossos aliados?
(3) Não basta haver eleições para haver democracia. Salazar e Caetano sabiam disso. As democracias populares também sabiam. Alguns parece que já esqueceram. Estás preocupado com os fundamentalismos. Eu também. Fazes ideia do peso dos fundamentalistas judaicos no governo de Israel? Das consequências práticas disso? Ou só reconheces certos fundamentalismos e és incapaz de ver os outros?
(4) Eu não sou pacifista no sentido em que o sugeres, pelo que o teu ataque é deslocado. Para esse peditório já dei durante a guerra fria, já escrevi (há vinte anos) o que tinha a escrever sobre isso. Já nessa altura eu desprezava a retórica das armas boas e das armas más, como expediente de ocultação da realidade e como técnica para tentar excluir as alternativas. Quanto às medidas de excepção: bem sabes que muitas medidas que são tomadas não têm qualquer eficácia contra o terrorismo, apesar de serem bastante eficazes contra os adversários políticos internos de certos "líderes". Por vezes a história limita-se a repetir-se, não é?
Já agora, Miguel: já reparaste que vou tentando responder às tuas questões? Já reparaste que há uma série de questões que te coloquei às quais não tentaste sequer responder? Isto é um debate, não é?
Fico à escuta.
Publicado por Porfírio Silva em 09:59 AM | Comentários (9)

Terrorismo, Espanha, eleições, guerra, mundo

A entrada "As revoluções", que fiz aqui a 15 de Março, despoletou uma polémica com o Miguel Magalhães. Uma vez que essa polémica se desenrolou nos "comentários", que só são acessíveis num dos blogues-gémeos, decidi transferi-la para o corpo principal. Aqui vai, na ordem certa. Noutra entrada virá a minha resposta à última intervenção do Miguel.

Miguel Magalhães (15-03-04): É verdade que o clima mudou muito e lamento bastante que os terroristas consigam ter hoje bastante influência na vida pública das democracias. É claro que o PP só tem de se queixar de si próprio, por ter caído na tentação de tentar manipular a opinião pública. No entanto, uma coisa é certa: um dado essencial para qualquer eleitor hoje em dia é a forma como avalia o comportamento dos diversos partidos perante a questão do terror político, tenha ele origem no fundamentalismo islâmico, no nacionalismo exacerbado, no totalitarismo neo-estalinista ou em qualquer outra "ideologia" anti-democrática. Penso que vivemos numa daquelas épocas em que a sobrevivência dos nosos regimes é mais importante do que as cambiantes políticas dentro do campo da democracia. Eu votarei sempre, nos próximos tempos, nas forças políticas que mostrarem mais discernimento na defesa dos nossos regimes e na manutenção da coesão entre nós, vítimas de quem nos declarou guerra.

Porfírio Silva (15-03-04): Sim, sim. É preciso discernimento na defesa dos regimes democráticos. Um exemplo de uma coisa que mostra absoluta falta desse discernimento é o facto de haver governos que usam os serviços secretos para manobrar a política interna, como fez o governo de Aznar. Os que assim agem são aliados objectivos dos terroristas, porque minam os instrumentos de defesa das democracias. Ou não?

Miguel Magalhães (15-03-04): De acordo quanto ao PP, mas nessa matéria (de serviços secretos), aquilo que tenho sabido nos últimos anos pela imprensa é assustador. Isto sem falar na extraordinária comédia que foi a divulgação da famosa "lista dos nossos espiões" na altura do ministro Veiga Simão, com evidentes culpas do PS, mas também do PSD, os dois maiores partidos portugueses. Quanto ao futuro governo espanhol, desejo sinceramente que o PM Zapatero arranje forma de seguir as suas convicções na questão do Iraque, sem contudo enfraquecer o "nosso" campo, que é o da defesa dos nossos regimes, é bom não o esquecer.

Porfírio Silva (15-03-04): Meu caro: eu prefiro ser cauteloso com certos conceitos. Tu, é claro, sabes muito bem o que é "o nosso campo". Mas, pergunto eu: os muçulmanos moderados, os árabes moderados, os crentes islâmicos moderados, os que são perseguidos pelos governos dos seus países, os que foram exilados desses países, esses são do "nosso campo" ou do "inimigo"? E os que, como o governo de Aznar, brincam com a mentira para fins de baixa política por cima do sangue das vítimas, são do "nosso campo" ou do "inimigo"? As coisas não são assim tão simples, meu caro Miguel - e é por isso que me repugna a (tua) ideia dos compagnos de route (ver a tua entrada de 6-fev no corpo deste blogue) e do pragmatismo na escolha dos aliados. As teorias dos "realistas" em relações internacionais só têm dado asneira. Já me esquecia, Miguel, mais uma pergunta: o que sugeres é que Zapatero, que prometeu durante a campanha retirar do Iraque, agora meta a sua promessa na gaveta e faça diferente? É assim que vês a política? Parece-te defensável que, depois do governo Aznar ter caído por ser mentiroso, o governo Zapatero comece o seu mandato pela escolha de ser também mentiroso? Meu caro Miguel, eu gostaria tanto de não te ver entrar por esse tipo de análise política... Milhões de espanhóis escolheram votar por uma razão moral (despedir os mentirosos) e, em menos de uma semana, deixaram para trás aquilo que tinha sido a sua opção político-partidária "normal" (votar PP) para fazer uma escolha "ética". Políticos hiper-racionalistas ficam atordoados com o sobressalto moral dos povos e inventam qualquer teoria que venha à mão. Mas nem tudo o que é sofisticado (ou apenas rebuscado) tem valor.

Miguel Magalhães (16-03-04): Quanto ao Zapatero, subscrevo o que escreve hoje no Público a Teresa de Sousa: http://jornal.publico.pt/2004/03/16/EspacoPublico/O03.html. Quanto aos "muçulmanos moderados, os árabes moderados, os crentes islâmicos moderados, os que são perseguidos pelos governos dos seus países, os que foram exilados desses países", tudo o que eu escrevi só te pode levar a pensar que, sim, considero-os dos "nossos". Não sou ingénuo: sei bem que usas esta terminologia do "nosso campo" e do "inimigo" para tentar desqualificar o meu ponto de vista. Não é nada de novo como método de debate. É verdade que assumi, tal como felizmente muitas outras pessoas, que me (nos) declararam guerra. E é verdade também que estou preocupado com a nossa falta de capacidade para enfrentarmos esse terrível desafio que nos impuseram.

Porfírio Silva (16-03-04): Miguel: Basta leres o que vem acima para verificares que as expressões «"nosso" campo» e «nossos regimes» foram introduzidas por ti. Logo, não é razoável que me acuses de introduzir essa terminologia e ainda por cima me acuses de que isso é uma tentativa de desqualificar o teu ponto de vista. Não estou muito virado para entrar em meta-argumentos, muito menos quando eles não respeitam a factualidade do que se disse. Interessa-me mais a substância. E, para mim, a substância é que o teu raciocínio sobre esta matéria é simplista e, sendo simplista, é perigoso. Usas argumentos que pressupõem que o mal está todo de um lado e o bem todo do outro. Dizes que nos declararam guerra. Pois, mas quem é o "nós" dessa declaração? Por aí passa uma parte do problema e, quando os problemas são complexos, os raciocínios simplistas devem ser afastados. Também me declaram guerra aqueles que violam o direito internacional e agem como as milícias populares no plano mundial. O conceito apropriado é "espiral de violência". E nenhuma espiral de violência se detém com mais do mesmo. Se o que queres sublinhar é que há muita ingenuidade em certas leituras da cena internacional, concordo contigo. Mas, para não ser ingénuo não basta (nem é preciso) ser "falcão". Eu, pelo meu lado, penso que não há pior ingenuidade do que ser simplista face à complexidade. Manda sempre.

Miguel Magalhães (17-03-04): Ainda bem que finalmente polemicamos. Para ajudar, vou dizer mais algumas coisas simplistas, já que a guerra, infelizmente, simplifica muito as coisas. O meu problema é aperceber-me da falta de solidariedade que existe entre adversários políticos em democracia. Bush, Sharon, Chirac, Aznar são adversários políticos, não são inimigos da democracia. O facto de o sistema eleitoral dos EUA ter permitido a eleição de Bush não me faz esquecer que somos aliados. O facto de não concordar com a forma como foi invadido o Iraque, não me impede de desejar que "aquilo corra bem" e de me regozijar com a captura do Saddam. O facto de o Sharon estar a utilizar as forças armadas dum modo brutal, injusto e oportunista não me impede de reconhecer que em Israel há eleições, há liberdade de imprensa e de associação. Na Cisjordânia e em Gaza, só há liberdade de imprensa e de associação para os terroristas. O mesmo acontece nos pequenos municípios bascos controlados pelos amigos da ETA. Aqui é que está o busilis: eu não aceito que as nossas regras para tempos normais nos impeçam de, em tempos excepcionais, nos armarmos contra os nossos inimigos mortais. Sim, sou a favor de legislação de excepção para combater o terrorismo, sim, sou a favor dos controlos reforçados nas fronteiras dos EUA, de agentes à paisana nos aviões, etc. Quantos milhões de mortos e quantos anos de guerra se teriam poupado se em 1936 e/ou em 1938 as democracias europeias, em vez do apaziguamento tão desejado pela opinião pública, tivessem tido uma atitude belicosa contra Hitler, como era aconselhado por alguns que eram então considerados "perigosos belicistas"? O problema com o excesso de escrúpulos em tomar medidas fortes é que elas serão necessárias de qualquer maneira e quanto mais tarde foram tomadas mais consequências negativas terão. Para terminar, se é verdade que a guerra é um assunto demasiado sério para ser deixado unicamente sob responsabilidade dos militares, não é menos verdade que a paz é um assunto demasiado sério para ser deixado unicamente sob responsabilidade dos pacifistas.

Publicado por Porfírio Silva em 09:37 AM | Comentários (0)

março 16, 2004

O rosto do robot


A nova robótica trata de cumprir as promessas que a Inteligência Artificial fez e não honrou. Essa é uma parte da história da máquina de Turing (que demora, mas não esquece). Mas eu só acredito quando a Valérie (à esquerda) me parecer tão credível como a "rapariga com vestido escuro" (1951) de Lucien Freud (abaixo). E assim interrompo, de momento, esta série sobre corpos e máquinas.

Publicado por Porfírio Silva em 03:38 PM | Comentários (0)

março 15, 2004

As revoluções

No (já longínquo!) dia de 6/02/04 transcreveu-se neste blogue um posicionamento de Miguel Magalhães numa polémica que por aqui andou. Passado todo este tempo não quero voltar ao fundo da questão, mas, por respeito ao Miguel Magalhães, também não quero ignorar o que ele escreveu. Faço, pois, para tentar um equilíbrio precário entre falar e não falar, um comentário até certo ponto lateral.
A mensagem pela qual o Miguel Magalhães me trazia a sua opinião começava assim: «Há uns anos estivemos quase para fazer os dois um programa de rádio para polemizar, mas chegámos à conclusão que seria demasiado difícil, por haver demasiadas opiniões comuns, logo, pouca matéria para polémica.» Eu respondi-lhe: «Se nessa altura o mundo fosse o que é hoje, o programa teria avançado. Mas o "clima" mudou mais do que talvez se pudesse imaginar.» Lembro, nestes dias, essa frase. E confirmo: o clima mudou.
(Porquê o título "as revoluções" para esta entrada? Leia-se o referido texto de Miguel Magalhães.)
Publicado por Porfírio Silva em 10:10 AM | Comentários (8)

março 14, 2004

Pequeno discurso sobre a exploração política do terror

A propósito da carnificina de Madrid, falei aqui (a 11 de Março) da exploração política do terror. Agora que já se sabem os resultados das eleições espanholas, o comentário que me interessa não é político-partidário. O que me interessa principalmente não é a cor dos vencedores ou a cor dos derrotados. Até porque nem tudo o que é importante na política é determinado pela "cor". Há outros factores que interessam muito. O comentário que me interessa é cívico, é de cidadania. Vejo com satisfação que os espanhóis tenham percebido que o seu governo estava a tentar manipular eleitoralmente 200 mortos. Que estava a tentar abusar das vítimas do terrorismo. Que talvez tivesse usado os serviços secretos para os seus próprios fins mesquinhos (o que não era inédito, mesmo recentemente, mesmo em Espanha). Que mentia com ar piedoso. Por uma vez, a hipocrisia não pagou. Não me interessa aqui se os resultados eleitorais são, em si mesmos, necessariamente bons para o governo de Espanha. Mas é bom sentir que, uma vez por outra, um povo vê mais longe do que mostram as televisões, pensa que demais é demais e sacode os abusadores. Por muito que Aznar possa eventualmente ter feito por Espanha, acabou - no momento final - por mostrar a sua pequenez. Uma vez por outra damo-nos conta de que as eleições servem para alguma coisa - embora talvez não exactamente para aquilo que os "especialistas da política" estipulam.
Publicado por Porfírio Silva em 10:30 PM | Comentários (0)

março 12, 2004

Cavar sentidos no corpo de carne

Palimpsesto (s.m.) : papiro ou pergaminho cujo texto primitivo foi raspado, para dar lugar a outro. (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa)
Arnulf Rainer, um dos artistas do "accionismo vienense", pratica uma espécie de palimpsesto com as suas máscaras mortuárias: pinta sobre elas. Mas «Rainer nunca pinta para recobrir a pintura, mas antes para a clarificar na sua intencionalidade. Neste sentido, nada apaga e, simultaneamente, cobre para procurar a génese».(1) Inscrevendo as minhas vidas nas tuas vidas, faço uma outra espécie de palimpsesto: inscrevo sentidos em vida e espero que o teu sentido esclareça o meu sentido, que o teu sentido seja gerador do meu sentido (e inversamente).
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(1) Carlos Vidal, O corpo e a forma. Dois conceitos, o mesmo tema. Cindy Sherman, Arnulf Rainer, Porto, Mimesis, 2003, p. 39


Arnulf Rainer, Cadaveri IV, 1980
Publicado por Porfírio Silva em 01:45 AM | Comentários (0)

março 11, 2004

O terror. A exploração política do terror. As certezas convenientes. A tentação de explicar o que não se pode. A realidade que rasga o mundo das palavras. O motivo pelo qual o idealismo não dá uma resposta compreensível ao materialismo. O concreto que irrompe. Os corpos rasgados não são figuras de estilo. O preto não é preto e o branco não é branco. Há um momento em que os filósofos das emoções têm de suspender a emoção. E em que os filósofos das razões têm de suspender a lógica pura. Precisamos de parar para pensar. E de pensar para parar. E mandar às malvas aqueles que, nestas ocasiões, nos dizem que o que é preciso é agir e não pensar. E mandar às malvas aqueles que nos dizem que já sabiam como as coisas são. Porque esses estão apenas a pensar em como manter quentes os seus pés em dias frios.
Publicado por Porfírio Silva em 06:15 PM | Comentários (0)

Bilal em filme, outra vez

Já aqui falámos antes de Enki Bilal, a propósito da sua magnífica Banda Desenhada metafísica. Reincidiu nas suas incursões em cinema. Vai aparecer um dia destes "Imortal", claramente inspirado numa série dos seus melhores álbuns. Os deuses querem procriar e isso exige certos caminhos. Para aqueles que pensavam que a coisa ficaria pelo fim das fronteiras entre humano, animal e máquina - contem agora com seres híbridos em que também entram os deuses. O sítio do filme é aqui . Obrigado ao Luís Miguel pela deixa.
Publicado por Porfírio Silva em 06:14 PM | Comentários (0)

Corpos e máquinas. Réplicas.

Regressado da minha "viagem de estudo", pronto para retomar as minhas reflexões em linha entre corpos e máquinas, vejo que recebi por correio electrónico um comentário à minha entrada de 2 de Março passado. Passo a transcrevê-lo.
«Porfírio, sigo atentamente a tua deambulação pelas imagens do corpo que proliferam, como se vê, do cinema à fotografia, às instalações, etc. Também a mim a questão me tem ocupado, interpelado. Há, como sublinhas, uma dimensão no tratamento do corpo quer pela arte, quer pela reflexão no quadro das ciências ditas humanas, um lado supérfluo que me choca. É que, enquanto se des(cons)trói o corpo há corpos que têm fome, ou que estão condenados à morte porque a ciência e os seus fármacos não chegará até eles!
Há ainda essa racionalização do corpo que permite a sua des-articulação e re-articulação. Não sei porém, se aí impera a racionalidade ou se não se trata antes de uma via que promove a des-figuração como crise da representação e da comemoração até do humano enquanto ideal de beleza. Nestes corpo desmembrados há não só um retorno a uma fase pré narcísica, pré-comemorativa, mas ainda um atravessamento da pulsionalidade - fetichização de fragmentos, fixação de elementos protésicos. A debilidade e a plasticidade emergem a um tempo. O corpo torna-se dependente dessas suas próteses. O corpo é mais o espaço de incorporação das próteses do que um todo organizado, inviolável, auto-suficiente. Mesmo o paraíso do corpo - o Éden - é ironizado.
A perda do corpo apresenta uma dimensão trágica dado que ela é sobretudo a perda duma certa inocência sobre o corpo, de uma imagem (narcísica) do corpo. Ou será, muito simplesmente, o cumprimento do mito, a sua fatalidade, o encarar a própria morte?
Com um abraço, Maria Augusta.»
Digo eu: concordo contigo que a operação sobre o corpo já vai muito mais longe do que aquilo que resulta directamente da racionalização. Mas, até ver, ainda continuo inclinado a pensar que esses demónios foram libertados racionalmente, que a raiz das operações fragmentadoras começou por assentar numa legitimação racional. Mesmo que, entretanto, o esquema racionalista tenha deixado de ser necessário. O problema da hiper-racionalidade acaba muitas vezes por ser que tem a perna curta: indica o caminho mas depois fica sempre para trás dos que correm a seguir o que o seu dedo aponta. Digo eu.
Publicado por Porfírio Silva em 06:12 PM | Comentários (0)

março 07, 2004

Viagem de estudo

Tudo poderia desagradar-me nesta circunstância: o teclado é completamente diferente de tudo o que estou habituado a usar, não tenho aqui à mão as imagens que me permitiriam continuar a minha série sobre o corpo e as máquinas, o cyber-café que eu planeara usar já fechou devido a distúrbios que ocorreram (parece que envolvendo também elementos de minorias étnicas), faltam-me algumas das ferramentas que normalmente me facilitam a construção das entradas, os computadores da biblioteca estão reservados a consulta bibliográfica e trabalhos afins (impedindo-me o trabalho mais premente de fazer um post)... O mais fácil seria mesmo "desligar" do blogue até à próxima semana. Mas, depois de ter recuperado daquele intervalo doentio, tenho as mesmas ganas que antes de "entrar". E por isso não posso deixar de escrevinhar... Dá-me um imenso gozo voltar a esta "minha" Universidade de L.-la-N. Em parte por razões "sérias" (é tão séria a investigação, caramba!!!), mas em larga medida por poder voltar apenas a sentir o "cheiro" deste espaço, incluindo um certo número de amigos. Certo, para mim, é que o que caracteriza o humano não é a sua "racionalidade abstracta" (seja lá isso o que for), o que se demonstra (pela negativa) por se poder simular em computador essa racionalidade abstracta - mas o facto de a sua subjectividade estar tão intimamente ligada à sua participação na comunidade - ao mesmo tempo que a comunidade assenta em e transcende essa subjectividade. E isso está muito longe de poder ser emulado pelas máquinas. Claro, talvez isto seja apenas uma desculpa esfarrapada para gastar uma semana do meu tempo de trabalho a recarregar as baterias longe da secretária habitual e perto de amigos que não via há tempos.< /br>

Publicado por Porfírio Silva em 04:49 PM | Comentários (0)

março 03, 2004

Os possíveis possíveis e os possíveis impossíveis.

Jake&DinisChapman-tragicanatomies
Jake e Dinos Chapman, Tragic Anatomies (foto de)

O jogo dos possíveis do corpo tem hoje mais caminhos. Eles são em parte resultado do alargamento dos meios técnicos. Em parte motivados pelo cuidado com a qualidade de vida. Não creio, contudo, que esteja aí o ponto crucial. Antes, o miradouro de onde alcanço mais longe o sentido desses possíveis, que em delírio se ramificam, é o da degradação do corpo em conceito: a fisicalidade concreta do corpo desvanece-se face à abstracção "corpo". E, essa abstracção, é fácil pensar em manuseá-la, torcê-la, levá-la ao mecânico para revisão ou arranjo, embelezá-la, maquilhá-la. Vejo nos pesadelos dos irmãos Chapman um caminho para esse jogo dos possíveis. Mas há um tipo concreto de corpo cujos pesadelos não são deste continente. Esse tipo concreto de corpo é o corpo faminto. "Faminto" mesmo: fome e sede. O corpo de homens e mulheres para quem certos possíveis estão na zona dos pesadelos impossíveis. Cujo Éden não tem os mesmos riscos das "Anatomias Trágicas" dos Chapman. Nem todos escolhem o seu modo de participar no trágico. Porque estão dentro do corpo que concretamente lhes calhou em sorte.


Jake e Dinos Chapman, Zygotic Acceleration, biogenetic-de-sublimated Libidinal Model (foto de)
Publicado por Porfírio Silva em 02:35 PM | Comentários (0)

março 02, 2004

Corpos racionais mastigam-se melhor.

Visto o corpo pelo olhar da racionalidade, por que razão não há-de ele ser susceptível de partição, de decomposição em partes - talvez segundo um critério funcional, segundo a razão de ser de cada um dos seus subsistemas? Tal como num computador podemos, por exemplo, separar os dispositivos de comunicação com o exterior (teclado e monitor, nomeadamente) da unidade central de processamento e da memória - porque não haveremos de poder desconstruir o corpo, cada peça para seu lado, segundo o uso padrão que lhe conferimos? Quem diz desmontar, diz re-montar; partir/compor; descontruir/reconstruir. Isto se, como foi dito, virmos o corpo pelo lado da racionalidade. Porque não haveremos de fazer humanos segundo a receita de Cindy Sherman? Chegará essa receita a ser um algoritmo? Ou haverá qualquer coisa que falha numa leitura do corpo que vai só pela racionalidade, mesmo que ela seja tecnologicamente dotada?
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Cindy Sherman nasceu em New Jersey em 1954. Foi antes de qualquer outra coisa fotógrafa. Em muitas das suas obras ela é o seu próprio modelo. "Ela", quer dizer, transfigurada de muitas maneiras. Nos anos '90 do século passado fez uma série de "bonecas": entre elas a que se vê abaixo.


Cindy Sherman, Untitled # 250
Publicado por Porfírio Silva em 05:20 PM | Comentários (1)

março 01, 2004

O teu corpo é uma máquina.

O que eu vejo em David Cronenberg é também uma reflexão sobre os caminhos do corpo. Em Videodrome (já lá vão uns anitos) o corpo embrenha-se numa luta desesperada com o banal televisor doméstico. Em A Mosca, um corpo humano e um corpo não humano entram em confluência e a mente não pode ficar indiferente à sua base material (e, para essa questão, não chega sequer a ser muito importante se o corpo é ou não a única base da mente). Em O Festim Nu não há grande novidade: todos sabemos que as drogas fornecem ao corpo certas instruções que se desviam um pouco da relação habitual entre organismo e ambiente. Em M. Butterfly é-nos dado a ver que o que o corpo mostra ou oculta não é tudo o que há a mostrar ou a ocultar em nós: aquele "M." do título é ambíguo entre Mr. e Mrs. e isso passa-se com grande poesia e elevação. Em eXistenZ já não se brinca com mecanicismos ingénuos: o que é maquínico e o que é propriamente biológico estão já na mesma família. O mais recente Spider revela que se a nossa unidade de processamento central nos fornecer leituras intermitentes do mundo, o mundo para nós se torna realmente uma intermitência entre vários mundos - e não há objectividade que resista a isso (nem o espectador escapa à dúvida acerca de qual das histórias possíveis esteve a ver). A ideia, aqui, não é traçar um (mesmo que breve) percurso fílmico de Cronenberg. A ideia é apresentar o realizador Cronenberg como um filósofo do corpo, do corpo mutante: por dentro e por fora; na carne e nos neurónios; no jogo solitário com a transformação genética, tanto como no jogo social que usa diferencialmente os mecanismos de máscara; contra a máquina ou misturando-se com a máquina; entrando "de corpo e alma" na realidade virtual. Mas, claro, pode sempre ser válida a hipótese de que eu esteja a tresler. Proponho, então, a imagem abaixo. É de Crash (1999), do mesmo Cronenberg. Neste filme há carros, carros velozes, amantes de carros velozes, acidentes e as próteses que se lhes seguem, corpos, sexo, malucos por sexo em carros velozes... ou deveria antes dizer "malucos por sexo com carros velozes"? Não vejo, aí, contudo qualquer ponta de pornografia. Essa loucura por carros vemos facilmente nas nossas cidades. Próteses, parece que queremos poder dispor delas para tudo. Então, o que há de especial? O que Cronenberg nos propõe é o amor humano pela máquina. O desejo sexual pela máquina. O erotismo desta imagem de Crash diz tudo: este rasgão no carro acidentado é-nos claramente proposto como um sexo que se acaricia. E um automóvel nem sequer é um robot muito sofisticado. Tudo o que vês nesta imagem está apenas no teu olhar.
Publicado por Porfírio Silva em 03:07 PM | Comentários (0)