abril 30, 2004

Ponto de chegada, ponto de partida

Olho para a "cara" do meu computador e vejo isto. Memória. Pessoal. E colectiva (com o Nuno). Mergulho? Não mergulho? Afogo-me, em todo o caso. Vou trazer estas pedras para casa para que me pisem os papéis. E para eu molhar os pés.

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Publicado por Porfírio Silva em 10:53 AM | Comentários (3)

abril 29, 2004

Subitamente o Verão passado

Ainda a preto e branco, mas começam a assaltar-me as memórias de Verões passados. Começa a apetecer-me o percurso a pé entre a Adraga e o ponto mais ocidental do continente europeu, quando se podem berrar poemas de ocasião sem que ninguém se escandalize. O sangue começa a ter vontade de aquecer. Isso significa ajeitar o ritmo de trabalho ao cheiro (distante) das férias. Alguém me explica como isso se faz?

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Publicado por Porfírio Silva em 07:23 PM | Comentários (3)

Consumou-se o divórcio

Hoje concretiza-se uma promessa: os temas imediatamente políticos que me passe pela cabeça abordar não ficarão inscritos nesta máquina, mas antes na Abébia Vadia, blogue colectivo e plural que abriu recentemente. Por isso, O pequeno revisionista pode ser lido lá e não aqui. Para os leitores, a vantagem reside em que, por aqueles lados, eu sou apenas uma voz entre muitas (várias).
Publicado por Porfírio Silva em 02:17 PM | Comentários (0)

abril 27, 2004

Farol

Há quem pense que estar dentro do farol garante uma melhor visão do mundo. Puro engano. Guiamo-nos melhor quando damos atenção aos outros; somos fonte de orientação quando sabemos olhar o que vai no mundo. O ponto não está em ser olhado, está em olhar. Quando só queremos guiar, perdemo-nos; querendo ser o sol da terra, encerramo-nos na nossa cela. Por isso, conduzir é saber partilhar. Não se faz sociedade de dentro de um farol. Por mais potente que seja a sua óptica, o farol é um invólucro. Quantas vezes sabemos estar atentos?
Farol Sudoeste
Publicado por Porfírio Silva em 05:17 PM | Comentários (2)

abril 26, 2004

O 25 de Abril australiano (Notinhas australianas 2)

Na Austrália, o 25 de Abril é feriado: chama-se Anzac Day e a sigla ANZAC quer dizer Austrália and New Zealand Army Corps, o nome do corpo expedicionário destas antipódicas nações que desembarcou na manhã de 25 de Abril de 1915 na península de Gallipoli (Turquia), para uma das mais sangrentas batalhas da primeira Grande Guerra (ver o filme "Gallipoli" de Peter Weir) . Para quem quiser saber mais sobre o Anzac Day: http://www.anzacday.org.au/ .
O Anzac Day é o verdadeiro grande feriado nacional da Austrália, embora também haja um Australia Day (http://www.nadc.com.au/) em 26 de Janeiro. O problema é que o 26 de Janeiro celebra o dia em 1788 em que o capitão Arthur Phillip tomou formalmente posse da colónia da Nova Gales do Sul, tornando-se o primeiro governador desta colónia britânica. Ora, existe hoje na sociedade australiana uma forte corrente que pretende revalorizar a história deste país anterior à chegada dos europeus: na própria página do Australia Day estão reflectidos esses pontos de vista (http://www.nadc.com.au/ausindigenous.asp).
O que é curioso na popularidade do Anzac Day é que se trata dum feriado amado por gente com perspectivas muito diferentes, desde os que pensam com orgulho no heroísmo dos defensores "do Rei e do Império" até aos que olham com raiva para o desperdício de vidas em Gallipoli e noutras batalhas, nomeadamente em Singapura, em que as forcas australianas e neo-zelandesas, maioritariamente de infantaria, foram prejudicadas por comandos ineptos (britânicos). A verdade é que o número de baixas australianas em 1915-1918 foi o maior (proporcionalmente) dos países envolvidos, o que significa que quase todos os australianos têm histórias familiares dessa guerra. No Anzac Day celebram-se todos os mortos de todas as guerras em que a Austrália esteve envolvida, desde as duas guerras mundiais até à Coreia, o Vietname, bem como intervenções mais limitadas nesta região (Papuásia-Nova Guiné, ilhas Salomão, Fidji, Timor-Leste).
Tenho alguma admiração por esta capacidade de esquecer conflitos internos face à grandeza dos compromissos externos. Também eu, que me opus à guerra colonial e me recusei a participa nela, me sinto solidário dos da minha geração que nela participaram, pois os motivos de base de uns e outros eram os melhores: fazer aquilo que pensávamos ser melhor para o país. Bem sei que me podem dizer que muitos dos que fizeram a guerra a fizeram obrigados, mas eu penso que muitos também a fizeram voluntariamente e não é menos verdade que nas universidades portuguesas da época a tendência dominante nos anos 1970-74 era ser contra a guerra e essa tendência também condicionava muita gente. A ideia de que todos os anti-guerra eram esclarecidos e todos os pró-guerra (desculpem a terminologia simplificadora) eram manipulados é duma arrogância intelectual imprópria de pessoas bem formadas (desculpem a terminologia arcaica).
Para finalizar, dedico estas minhas palavras anteriores ao António Costa Pinto, que é das pessoas mais qualificadas para coordenar as celebrações do nosso 25 de Abril. É um historiador competente, que pôs a História de Portugal do sec. XX no mapa da História Internacional e, tendo combatido a ditadura, não se julga moralmente superior por isso.
Miguel Magalhães, em Sydney
Publicado por Porfírio Silva em 09:59 AM | Comentários (0)

abril 25, 2004

O meu 25 de Abril na blogosfera

Poder fazer coisas e ser responsável por elas, sem demasiados formalismos e sem sermos calcados por isso, é algo que o 25 de Abril nos trouxe. Não estou hoje com dedos para grandes palavras, mas quero informar os meus caros leitores que hoje começa uma pequena aventura que deve algo à revolução dos cravos. Participo, com outros, no lançamento do blogue colectivo Abébia Vadia. O tempo dirá o que isso vale. Por mim, isso permitirá recentrar um pouco esta Máquina de Turing no seu projecto cultural e deixar o debate mais propriamente político para aquele espaço colectivo. A cidadania também passa por estas coisas, penso. Estar neste blogue que Abril abriu é, pois, a minha modesta forma de comemorar o 25 de Abril na blogosfera.
Publicado por Porfírio Silva em 10:36 PM | Comentários (0)

abril 23, 2004

Como eu vejo o 25 de Abril hoje

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(Agradecimentos a http://web.mit.edu/philos/www/subjects.html)

Publicado por Porfírio Silva em 08:46 PM | Comentários (1)

Citação

«Pensar abstractamente é pensar no vazio e permite a maior das indignidades, como pensar uma coisa e fazer exactamente o contrário.» (J. Bragança de Miranda, entrevista ao DNa de hoje)
Publicado por Porfírio Silva em 06:29 PM | Comentários (0)

abril 22, 2004

apostilha à história das instituições (o dia seguinte)

Rasgar o mapa dos poderes: sorrateiramente, evitando mostrar que sabes, dar a palavra ao servo e fazê-lo brilhar; deixar o senhor, falando, tão solene, sombrar. Não infringir à luz do sol nenhuma norma clara, mas agir antes pela astúcia da razão: deturpar certos preceitos orais da tradição e fazer da cautela uma vergonha rara. Estilhaçar o uso das ferramentas morais, usando-as, usando a honra como a espada dos samurais. Ler livros proibidos às horas de refeição, desgostar os teus amigos sendo tão solitário, tomar a dose de individualismo diário; falar alto ao medo, solto, pregá-lo no chão. Acreditar que os últimos podem ser primeiros; que o calor, apertando, pode mudar os janeiros; que a brisa, querendo, pode acalmar o verão; que há revoltas para lá da escassez de pão. Rasgar o mapa das estradas e deixar a cada desvario que aconteça, aguardar pelos perfumes nas encruzilhadas; partir, venturoso, sem esperar que amanheça, aproveitando que as guardas dormem de noite. Escrever, sendo dextro hábil, com a mão esquerda, para pelo pasmo criar a oportunidade de ler com ambas enterradas em corpos aflitos. Saltar da cama à noite para acudir aos gritos aos quais te juntas noutro leito mesmo ao lado, pedindo ao teu parceiro perdão do teu pecado e ao teu pecado perdão pelo tempo perdido, incapaz confesso do risco de ser malquerido. Rasgar a solidão escrevendo letras de trovas e com elas ao mundo dar, mentindo, boas novas e a todos os povos, ignaros, novos continentes. Nada importa, se acreditam, quanto tu mentes. Amar apaixonadamente todos os miseráveis e comer chocolates belgas, dos puros, ao lanche, aflito com a queda do cacau nas bolsas mundiais e com os maus desenvolvimentos desiguais. Aflito, tu, que nada vês na economia, que não ligas os pobres e a barriga vazia? Preocupas-te lindamente. Saudoso das antigas crises existenciais, das que lembram livros e boa filosofia, fazes por sofrer dores duras como as do parto, antes, durante e depois de um jantar farto. Se a literatura acabar, logo se verá: podendo tirar delas sofrimento aceitável, haja dores: eu espero estar por cá.
Publicado por Porfírio Silva em 08:12 PM | Comentários (0)

abril 21, 2004

Acho que me esqueci de qualquer coisa...

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Publicado por Porfírio Silva em 10:48 PM | Comentários (0)

O 25 de Abril dos robots

Já lá vão 30 anos que aconteceu neste país uma revolução. Isso: aconteceu. Só aqueles que gostam de fazer "reconstruções racionais" dos acontecimentos históricos é que podem pensar outra coisa. Aconteceu uma revolução porque uns quantos fizeram um golpe, em estado de necessidade. Em estado de necessidade, porque a coisa estava podre. Podre, porque umas quantas abéculas estavam sentadas em cima do poder convencidas que daquele ninho vazio mais tarde ou mais cedo nasceriam pintos. E o povo, essa entidade mítica habituada a ser nomeada sem licença, começou a fazer coisas. Dessas coisas, algumas correram bem. E outras correram mal. Como nós, na maior parte dos casos, nunca estivémos dentro de um laboratório na qualidade de reagente, não sabíamos muito bem o que tudo aquilo viria a dar. Mas foi-se avançando: umas vezes avançando para a frente, outras vezes às arrecuas. Mas é mesmo assim o caldo de multidões e de emoções. É por isso que me dá uma certa vontade de rir quando uns certos revisionistas de agora falam do que se fez e não fez na revolução como se tudo devesse ter sido feito com régua e esquadro e à luz dos critérios de hoje. Esses pensam com as suas cabecinhas de robot, de robot com muitas manhas e pouco juízo. Os processos históricos concretos são panelas a ferver. Com gente dentro. Por vezes estoiram nas mãos dos distraídos. Contudo, nunca, mas mesmo nunca, obedecem aos racionalistas de gabinete. Muitos menos àqueles que só fazem prognósticos depois do jogo. Que descansem em paz.
Publicado por Porfírio Silva em 10:24 PM | Comentários (0)

abril 19, 2004

Notinhas australianas (1)

Inicio hoje uma colaboração regular por três meses, durante os quais enviarei semanalmente um pequeno texto acerca desta cidade (Sydney) e deste país que descobri há dois anos com admiração e prazer. Serão pequenos apontamentos sobre curiosidades, perplexidades e outras ….ades. Hoje, para fazer jus ao título genérico destes textos, vou falar de notas, sim notas de dinheiro, notas de dólares australianos: os australianos têm muito orgulho nas suas originalidades e uma delas é o seu dinheiro, que é…. de plástico! As notas de plástico são mais resistentes do que as de papel, são mais difíceis de dobrar, mas uma vez que tenham uma dobra é difícil tirá-la. Parecem resistir melhor à deterioração do que as de papel. O mais curioso é que a Austrália não tem propriamente falta de madeira (é um dos maiores exportadores mundiais). O certo é que esta solução australiana tem tido algum êxito na região, já que a Austrália fabrica notas (de plástico) para a Tailândia, Indonésia, Papuasia-Nova Guiné, Kuwait, Samoa, Singapura, Brunei, Sri Lanka e Nova Zelândia. Actualmente o dólar australiano vale aproximadamente 0,66 euros, isto é, 1 euro equivale mais ou menos a 1,5 dólares australianos. Como sempre, tentarei completar estes pequenos apontamentos com a indicação de páginas na Internet onde haja mais informações sobre o tema tratado. Quanto a notas de plástico, aconselho: http://www.questacon.edu.au/html/plastic_banknotes.html

Miguel Magalhães, em Sydney

Publicado por Porfírio Silva em 09:38 AM | Comentários (2)

abril 16, 2004

Notinhas australianas (número zero)

Aqui há tempos tive aqui um debate, polémica, controvérsia, ... , com o Miguel Magalhães. Pois, o Miguel Magalhães vai voltar, mas com um projecto diferente. Ele está agora na Austrália, em Sydney. E vai por lá ficar durante uns poucos meses. E, durante esse tempo (todo ou em parte, ele dirá) vai escrever aqui para este blogue umas "Notinhas australianas". Para nós aproveitarmos os olhos e os ouvidos atentos dele, agora que estão do outro lado do mundo e que continuam bem ligados ao seu cérebro. Vai ser semanal, às segundas-feiras... até ele se aborrecer, ser raptado por aborígenes, ou... Portanto: a partir de agora, às segundas, "notinhas australianas". Para facilitar a consulta, foi criada uma categoria ("Temas" na coluna da esquerda) reservada a essa linha de colaboração. Fica o aviso.
Publicado por Porfírio Silva em 11:11 PM

abril 15, 2004

Revolução e Evolução

A primeira frase do Editorial de José Manuel Fernandes no Público de hoje é assim: «O debate sobre se o 25 de Abril foi uma "revolução" ou uma "evolução" é tonto.»
Pois eu discordo radicalmente. Por vários motivos. Primeiro, porque há uma razão para não ter havido evolução: o facto de o sector (então?) dominante na direita portuguesa ser de uma burrice atroz e de uma cobardia sem nome. Segundo, porque essa direita tosca continua a ter muito peso entre nós, preferindo o faz-de-conta do falso conservadorismo ao risco de fazer coisas que valham a pena para o país. Terceiro, porque a diatribe da "evolução" contra a "revolução" é apenas mais um acto do revisionismo da actual maioria de direita: Durão fala das nacionalizações de 1975 como se se tratasse de um caso de tribunal e não de uma opção política (talvez menos desastrosa para o país do que certas privatizações); Portas fala de militares que traíram Portugal e criminosamente meteram as suas mãos (e as armas que não eram suas) nas guerras civis pós-coloniais, como se eles fossem heróis - ao mesmo tempo que diz cobras e lagartos da descolonização que os seus maiores deviam ter feito a tempo e horas e não souberam.
É por isso que a falsa ingenuidade de J.M. Fernandes não me convence. Ele tem obrigação de saber que a conversa da "evolução" cheira tão mal como aqueles camaradas que tinham o hábito de apagar os caídos em desgraça das fotografias, para as tais fotografias passarem a ser politicamente correctas. Ou como aqueles revisionistas que dizem que o holocausto nunca existiu. Os espanhóis tiveram evolução. Isso teve, para eles, a vantagem de não terem tido à solta malucos maoístas como Durão Barroso. Nós tivémos revolução. Goste-se ou não, já naquele tempo a nossa direita era muito distraída e incompetente.
Procura-se direita inteligente! (a ver se a esquerda pode, pelo seu lado, fazer o seu próprio trabalho...)
Publicado por Porfírio Silva em 06:54 PM | Comentários (0)

abril 14, 2004

ARGUMENTUM ORNITHOLOGICUM

Fecho os olhos e vejo um bando de pássaros. A visão dura um segundo ou talvez menos; não sei quantos pássaros vi. Era definido ou indefinido o seu número? O problema envolve o da existência de Deus. Se Deus existe, o número é definido, porque Deus sabe quantos pássaros vi. Se Deus não existe, o número é indefinido, porque ninguém pode fazer a conta. Nesse caso, vi menos de dez pássaros (digamos) e mais de um, mas não vi nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três ou dois pássaros. Vi um número entre dez e um, que não é nove, oito, sete, seis, cinco, etc. Esse número inteiro é inconcebível; ergo, Deus existe. (Jorge Luís Borges)

Este texto de J.L. Borges provocou uma ocorrência curiosa. Enviei-o para um grupo de discussão pedindo que me enviassem breves comentários filosóficos ao mesmo, que, dizia eu, podiam ser «quer sobre a forma, quer sobre a "tese" em causa, quer sobre o raciocínio lógico a que se apela, quer mesmo sobre a possibilidade de um tal texto ter uma tese».
Recebi a seguinte resposta, de "Jocax": «Olá Porfirio! Desculpa, achei o argumento ( transcrito no fim da mensagem ) totalmente falacioso , para não dizer ridículo mesmo! :-) O fato de vc não lembrar ou não saber quantos pássaros imaginou não significa que existiu um número de pássaros bem definido pois alguns deles, como imagens, poderiam estar incompletos, como uma imagem borrada e, assim, não se poderia dizer se era um pássaro ou meio pássaro. ALÉM DISSO, vc se lembra quantas crianças tinha na sala de aula do seu primeiro ano de primário no dia 12/11/1960 ? Alguém neste mundo vai lembrar disso? E se os documentos sobre isso foram queimados naquele incêndio da escola? Isso prova alguma coisa sobre Deus? Não tem nada a ver! Embora o número de alunos fosse, diferentemente do exemplo dos pássaros, um número bem definido, ninguem vai lembrar! Vc precisa ler com cuidado o Link que vou te mandar Ok ? Leia (segue um link). Jocax.»
Manifestamente, por vezes não gosto de ser levado demasiado a sério. Respondi: «Obrigado, Jocax. O link que sugere eu vou re-encaminhar para o Jorge Luis Borges, o autor do "argumento". Trata-se de um texto LITERÁRIO de Borges, não de um texto FILOSÓFICO. Borges fez muitas ironias desse género, que podem ser apreciadas filosoficamente, mas não como se pretendessem demonstrar alguma coisa. Eu não estou em nenhuma movimentação para DEMONSTRAR a existência ou não existência de Deus: por razões filosóficas, esse tema não me interessa. O que me interessa, neste ponto específico, é apenas a forma de proceder do grande Borges. Obrigado por ter dado atenção à minha mensagem. Um abraço. Porfírio»
Aqui fica a historinha. Voltem ao início e gozem o texto de Borges. E a suprema ironia do falso cego. (Tal como se pode gozar a pretensa lucidez de outros verdadeiros cegos.)

Publicado por Porfírio Silva em 10:15 PM

abril 07, 2004

Neve

Nao. Nao é nenhum frio interior, nenhum desespero, nenhuma tristeza. E mesmo neve. Esqui. Férias. Amigos. França com Italia à vista. Uns dias em que o esforço fisico faz esquecer as preocupaçoes e as intençoes. Isso fica para depois. Por ora, branco, alvo, limpo, respirar a 3000 m de altitude. Recarregar baterias. Para a semana falamos. (nem por nada me habituo a estes teclados franceses...)

Publicado por Porfírio Silva em 07:31 PM

abril 02, 2004

Luto (5)

Quinto dia de uma semana de luto pelo estado do mundo. Último de cinco dias úteis dessa semana. Uma semana de "dias úteis" é uma semana útil? O estado do mundo responde, de cada vez, a essa pergunta. Mas nem todas as perguntas chegam a ser uma questão.

Puseram-te em prisão à porta de minha casa


A intervalos dentro dos meus livros
há pedaços de jornais,
discretos gestos corporais
distraindo-nos das palavras dos mestres,
encruzilhadas habituais
onde anjos tocam o caminho dos infernos.
Sorvo gestos teus, ternos
ao acaso na poeira das ruas,
temores tão modernos
invocando animais manhas e tão cruas.
Há lágrimas tão fugazes como tu e eu.

Os caminhos de terra
desenham um mapa neste jardim
onde os destinos já andavam antes de ti e de mim,
mas, regulados por um jardineiro descuidado
os repuxos de água
levam-nos por mais floreados percursos
e ensinam-nos quão imaginosa é a mágoa
abrindo veredas que trouxeram
um homem que já foi meu irmão
tão perto quanto tal era improvável.

Explica-me
porque o puseram em prisão à porta de minha casa.

Publicado por Porfírio Silva em 07:09 PM | Comentários (1)

abril 01, 2004

Luto (4)

Quarto dia de uma semana de luto pelo estado do mundo.

do inferno


O inferno é uma terra onde o movimento mói:
ao andar roça-se a pele nas mais pequenas labaredas,
os pés pisam pedras rubras do toque antigo do fogo,
as mãos agarram, como corrimões, braços de condenados
que despertam memórias azedas
lembranças das andanças passadas
pedaços de aventuras mal tentadas
tenções dispersas de heroísmos transviados.

O inferno é uma terra onde o movimento dói:
pelos rasgões das peças de roupa
que o mexer expõe como gretas
entram baforadas de enxofre,
os braços e pernas agitando-se
atiçam como sopros as chamas,
os pés revolvem as poucas ilhas de cinza
renovando o fulgor da lava interior,
o movimento lembra tudo
acorda, a todas as horas, essas horas nos dias passados
aviva a sombra dos teus passos em fuga
e ausentifica aquilo de que sentes saudade
até a dor moral te doer no corpo.

O inferno é uma terra para se estar quieto,
desentendido, repousando,
tudo ignorando e esquecendo,
uma terra onde o concreto fere
e alguma abstracção convém à saúde,
onde as traves mestras vaguearem um pouco acima da casa
facilita as coisas e areja os planos.

Por isso te digo, eu que vi,
que só sentado se está bem no inferno.

O inferno é estar, bem, sentado.

Publicado por Porfírio Silva em 09:22 PM | Comentários (1)