maio 31, 2004

Porque hoje é 31 de Maio

Porque hoje é 31 de Maio. E este 31 de Maio foi o que foi. Porque nem tudo o que demora, tarda. Porque nem tudo o que já devia ter vindo, vem atrasado. Porque um ressuscitar vem sempre a tempo (mesmo que nenhuma ressurreição seja definitiva). Por tudo isso, hoje pratico o que já há algum tempo por aqui não se fazia: publico um poema.

memória futura


A esta hora já a árvore estremece
e folhas que eram aninhadas nos ramos começam a cair.
A árvore dá agora espaços vazios como frutos.
Por eles entrarão incertos raios de sol da manhã,
tenha o astro poisado num ponto do céu
pelas puras leis do movimento dos corpos.
Mas, sem nada mudar na óptica ou na geometria,
tenha o astro poisado naquele preciso ponto do céu
elaborado pelo conselho dos astrónomos atentos às coisas terrestres
e, em lugar da luz, a grossa chuva negra da noite
fará um caminho triunfante entre as verduras.
Porque caem as folhas? Para que caem as folhas? Como caem as folhas?

Em breve o chão juncado desenha um trilho circular
onde em torno do tronco uma procissão roda em direcção à vertigem
arrastando-te, entre sirenes de alarme, como se fosses tu a convocatória.
Daqui, amarrado ao tronco da árvore
e vendo a tua cabeça quase submersa pelos falsos flagelantes,
pergunto-me porque me toca a queda das folhas e não me toca o vento,
ou porque não treme a terra
ou porque as gaivotas no mar não gritam
não berram os gansos nas fazendas
e as azedas nas encostas não param de crescer a esta hora
se tudo isto devia ser uma comoção da natureza.

Olhei as nervuras das folhas caídas e nelas vi
marcas, imagens, textos, memórias, confissões,
palavras gravadas de fresco hoje,
gravadas de fresco ontem,
de fresco há muito tempo,
palavras gravadas de fresco no futuro pelo pó dos sapatos.
Deu-se então o meu apercebimento
de ser aquela a árvore dos testemunhos.
Talvez por isso vi chegar a pergunta:
o que uma mão de homem pode
seria capaz de abanar a árvore dos testemunhos?
Não ficou em mim nenhuma infância depois disso.

Porfírio Silva
(9 horas de 1 de Setembro de 2003. Sem dedicatória.)
Publicado por Porfírio Silva em 10:30 PM | Comentários (0)

As máquinas não usam carne (Pequena história da MdT - 8)

Vimos no episódio anterior que Turing introduz o "jogo da imitação" como estratégia para investigar a questão "as máquinas pensam?". Um aspecto central do que está em causa é que a proposta de Turing concebe uma separação radical entre inteligência e corporalidade de um sistema: "o novo problema tem a vantagem de traçar uma linha bastante nítida entre as capacidades físicas e intelectuais de um homem". E acrescenta que, mesmo que fosse possível revestir a máquina com um material indistinguível da pele humana, não faria muito sentido tentar tornar uma máquina mais humana revestindo-a com uma carne artificial. É por isto que as condições de organização do jogo têm de evitar que o interrogador veja, toque ou ouça os outros competidores. Se a questão da corporalidade não é essencial na fronteira entre humanos e máquinas, ela também não é essencial na distinção entre máquinas diferentes: o que interessa nos computadores participantes num "jogo da imitação" não são os aspectos físicos da sua construção (por exemplo, se se trata de um computador eléctrico ou não), mas sim os aspectos matemáticos do seu funcionamento.
Turing mostra conceder que vê certas diferenças entre a inteligência de um humano e a de um computador. Considerando que a melhor estratégia para a máquina (no jogo da imitação) consiste em tentar dar as respostas que naturalmente daria um humano, isso implica o erro em domínios em que "errar é humano". Num exemplo de Turing, a máquina responderia, depois de "pensar" trinta segundos (sem o necessitar), que 34.957 + 70.764 = 105.621 (o que está errado). Essa questão é tratada explicitamente quando Turing considera diversas objecções possíveis ao seu ponto de vista. Quando trata de um dos casos da objecção "há certas coisas de que as máquinas não são capazes" - as máquinas não podem cometer erros - responde que "a máquina (programada para jogar o jogo) não tentará dar respostas exactas a problemas aritméticos" e "introduzirá deliberadamente erros de uma forma calculada para confundir o interrogador", ou, de uma forma mais sofisticada, dará ocasionalmente erros se seguir um método de procurar conclusões de forma indutiva.

[ Próximo ponto: Máquinas, crescei e multiplicai-vos!]

Participe na consulta orientada pela pergunta "As máquinas pensam?", (1) votando na coluna aqui mesmo ao lado ou (2) enviando-nos um pequeno texto com uma opinião.
Publicado por Porfírio Silva em 11:42 AM | Comentários (0)

Ainda o petróleo de Timor, mas também a Bienal de Sydney (Notinhas australianas 7)

Ontem, dia 25 de Maio, o principal jornal desta cidade, o Sydney Morning Herald publicou um artigo com um resumo duma entrevista a Xanana Gusmão, sob o título "How can we behave like beggars?", em que o presidente de Timor-Leste critica duramente a Austrália pelo seu comportamento quanto ao petróleo de Timor. O editorial do mesmo jornal, sob o título "A fair go for East Timor", critica claramente o governo australiano. A expressão "a fair go" é uma espécie de leitmotiv da política australiana, muito marcada pela noção de igualdade de oportunidades. No mesmo jornal de hoje, 26 de Maio, são publicadas 5 cartas de leitores sob o título "Greed over Timor gas and oil shames Australia" (Ganância com petróleo e gás de Timor envergonha a Austrália), das quais 4 são claramente contrárias às posições do governo australiano e a única que tenta desculpá-las termina concluindo que a posição australiana "seems petty, to say the least" (parece, no mínimo, mesquinha). Esta carta contém um elemento interessante, que é sublinhar o facto de a renegociação proposta por Timor-Leste implicar também a negociação de fronteiras com a Indonésia. A Austrália está portanto, mais uma vez, a tirar partido das dificuldades de Timor-Leste com o seu poderoso vizinho, adiando negociações que não lhe convêm, sob o pretexto de "não pressionar a Indonésia". A prova de que os timorenses já perceberam o jogo cínico do governo australiano é a forma como estão a encarar a questão do general Wiranto, anunciando publicamente que não insistirão em persegui-lo judicialmente. Estão assim a agir prudentemente para ultrapassar o passado, por muito que isso custe a pessoas mais sensíveis. Note-se ainda que há duas semanas Ramos Horta foi o principal convidado dum dos principais talkshows da televisão australiana, tendo aproveitado a ocasião para evocar com veemência a questão do petróleo. Entretanto, soube-se que os australianos terão pedido discretamente aos negociadores timorenses que se abstivessem de tentar mobilizar a opinião pública australiana. A resposta foi inequivocamente negativa. Xanana diz na supracitada entrevista que os timorenses se consideram nesta questão como "David contra Golias" e os australianos não devem esperar que Timor-Leste renuncie a todas as armas de que possa dispor. De qualquer forma, o facto de os australianos estarem a "pedir batatinhas" demonstra que estão incomodados. Continuarei atento a esta questão...

Estamos a dez dias da inauguração oficial da Bienal de Sydney , que será a 4 de Junho (3 de Junho para imprensa e convidados). A maior parte dos artistas já se encontra em Sydney, o catálogo está impresso (início da distribuição: 1 de Junho) e a montagem está a decorrer em bom ritmo. As primeiras notícias começaram a aparecer nos jornais de referência, o já citado Sydney Morning Herald e The Australian , o único grande jornal verdadeiramente nacional, embora seja editado em Melbourne (todos os outros jornais importantes são estaduais). Na próxima notinha espero poder relatar algo mais sobre os dias finais antes da inauguração.

Miguel Magalhães, em Sydney
Publicado por Porfírio Silva em 09:10 AM | Comentários (0)

maio 28, 2004

Uma questão sobre máquinas e humanos

Céline Lafontaine, em L'Empire cybernétique, diz (lendo A crise da cultura, de Hannah Arendt) que a perspectiva de criar máquinas que ultrapassam em capacidade de entendimento o humano supõe um descentramento completo do sujeito. Não li esse trabalho de Arendt e tenho dúvidas de que ela tenha falado exactamente nesses termos. De todo modo, há algo muito mais perturbador do que termos máquinas que calculam melhor do que nós. É haver máquinas cujo processo de construção foi lançado por nós e que, no entanto, "evoluem" de tal forma que nós deixamos de as entender. Isso passa-se, por exemplo, com máquinas cujo sistema de controlo são redes neuronais que foram objecto de um processo de evolução artificial (por exemplo, com algoritmos genéticos). Em muitos desses casos o resultado é opaco para os próprios "pais" da máquina (vêem o que ela faz mas não sabem exactamente como ela o faz). Isso é relativamente novo na história das relações entre humanos e máquinas. Contudo, de outro ponto de vista, isso pode não ser assim tão relevante: compreendemos nós os "mecanismos" de funcionamento dos nossos filhos?
Publicado por Porfírio Silva em 05:49 PM | Comentários (0)

A espuma dos dias

Não sejas tão leve com o que chamas a espuma dos dias. Porque nem sempre vem uma onda de mar que limpe essa espuma. E essa espuma pode ganhar consistência, enrijar, tomar posse dos trilhos por onde ainda precisarás de passar, travar-te os passos, tolher-te os movimentos, encher-te a boca de mudez. Disso se faz a poluição mais refractária. É do uso e abuso da leveza, do tanto-faz, do não-é-nada-comigo, do quem-sou-eu-para-saber, ... que fluem tantas inesperadas barreiras que nos atravessam a pele e nos escurecem os dias.


Publicado por Porfírio Silva em 03:00 PM | Comentários (1)

As máquinas pensam? (Pequena história da MdT - 7)

A MdT foi "inventada" por Turing num artigo de 1936. Num outro artigo, de 1950, Turing lança outra "pedrada no charco" da reflexão acerca da relação entre mente e máquina.
Querendo considerar a questão "as máquinas pensam?", mas considerando-a, nessa forma, uma questão "demasiado desprovida de sentido para merecer discussão", Turing propõe-se expressá-la noutra forma. Para isso introduz o "jogo da imitação". Sejam três pessoas: A, um homem; B, uma mulher; C, um interrogador humano que permanece numa sala separada de A e B. O objectivo do jogo é: para o interrogador, determinar, com base nas perguntas que dirige a A e a B e nas respostas obtidas, qual é o homem e qual é a mulher; para a mulher, ajudar o interrogador (dizendo a verdade); para o homem, enganar o interrogador, fazendo-o crer ser ele a mulher. Para que o tom de voz de A ou de B não ajude o interrogador, as respostas ser-lhe-ão transmitidas por telétipo.
Agora, a questão "as máquinas pensam?" pode ser substituída pela questão seguinte, relativa a um particular computador digital C: "É verdade que, modificando esse computador para ter uma capacidade de memória adequada, aumentando satisfatoriamente a sua velocidade de trabalho e fornecendo-lhe um programa apropriado, podemos fazer com que C desempenhe satisfatoriamente o papel de A no jogo da imitação, sendo o papel de B desempenhado por um homem?". De acordo com a distribuição de papéis no jogo, o desempenho satisfatório do computador diz respeito à capacidade para evitar que o interrogador o identifique como tal.
Nesta segunda fase do jogo, tanto o homem como o computador imitam uma mulher. No entanto, tanto Turing no resto do artigo, como a maioria dos comentadores, ignoram o aspecto "género" da questão. Em geral, o jogo é entendido de uma forma simplificada como dizendo respeito à capacidade de uma máquina para, quanto à sua inteligência, se fazer passar por um humano quando apreciado precisamente por um humano. Acreditamos que a correcta interpretação da situação é a seguinte: não nos parece que a questão do género seja essencial ao que Turing nos propõe considerar (nada nos leva a crer que Turing adoptasse qualquer forma de sexismo na concepção desta experiência); mas não nos parece possível eliminar o facto de que tanto o homem como a máquina estão a tentar fazer-se passar por algo que não são. O homem está a tentar imitar uma mulher; a máquina está a tentar imitar um humano. A capacidade de imitar, de simular, mesmo de enganar, está no centro do exercício.
A "aposta" de Turing é então explicitada: por volta do ano 2000 haverá computadores que jogarão tão bem o jogo da imitação que um interrogador humano médio não terá mais do que 70% de hipóteses de fazer uma identificação correcta após 5 minutos de interrogatório, de tal modo que alguém que fale em máquinas pensantes não correrá o risco de ser contraditado. Nos próximos episódios veremos o rebuliço que causou esta aposta de Turing. É a história do que se passou a chamar "o teste de Turing".

turingtest.gif
Ilustração de Ann Witbrock in Copeland, B.J., Artificial Intelligence, Blackwell,Oxford, 1993

[ Próximo ponto: As máquinas não usam carne]

Participe na consulta orientada pela pergunta "As máquinas pensam?", (1) votando na coluna aqui mesmo ao lado ou (2) enviando-nos um pequeno texto com uma opinião.
Publicado por Porfírio Silva em 09:26 AM | Comentários (0)

maio 27, 2004

Um poema extraviado subiu no horizonte

borras_web.jpg
(Porfírio Silva, Impressão Acidental)

Publicado por Porfírio Silva em 10:50 AM | Comentários (2)

A mãe dos modernos computadores (Pequena história da MdT - 6)

Turing, além de ter inventado de raíz a própria noção de computador universal que ainda é a nossa, trabalhou na concepção de alguns modelos dos primeiros computadores digitais electrónicos. O caso mais notável é o ACE (Automatic Computing Engine), concebido por Turing em 1945 e que começou a calcular em 1950. Contudo, a arquitectura que veio a generalizar-se (até hoje) na construção de computadores seguiu caminhos um pouco diferentes (mais de acordo com as propostas de John von Neumann).
Isso não desmente o contributo que Turing deu para o desenvolvimento da informática, porque os conceitos elaborados por Turing foram cruciais no desenvolvimento dessa tecnologia. Lassègue (1998), p.ex., argumenta longamente que algumas das contribuições mais importantes de Turing para o desenvolvimento da informática, mesmo em anos muito posteriores, têm as suas raízes no artigo de 1936. Destaca esse autor, nomeadamente: (i) a noção de programa modular, decomposto em partes separáveis que podem ser reutilizadas em muitos contextos diferentes - permitindo "ir e vir" entre o programa principal e múltiplas sub-rotinas; (ii) a noção de máquina auto-organizada, no sentido em que certas decisões que devem ser tomadas no decurso da execução de um programa dependem de resultados obtidos na mesma execução desse programa e, assim, é como se o programa se modificasse a si próprio, como se aprendesse; (iii) a noção de compilação (como diríamos hoje), quer dizer, de uma hierarquização de linguagens entre a máquina (que funciona com uma linguagem de impulsos eléctricos interpretados como código binário) e o humano (que trabalha com uma linguagem formalizada mas mais próxima da linguagem natural).

[ Próximo ponto: As máquinas pensam?]
Participe na consulta orientada pela pergunta "As máquinas pensam?", (1) votando na coluna aqui mesmo ao lado ou (2) enviando-nos um pequeno texto com uma opinião.

BenjaminPierce-ENIAC_web.jpg

Painel de controlo do ENIAC, o primeiro computador electrónico digital a funcionar nos EUA. O ENIAC ainda não tinha programas armazenados no seu interior, pelo que era necessário modificar fisicamente as ligações entre as suas componentes quando se queria passar de um tipo de cálculo para outro. Isso fazia-se neste painel de controlo: rodando os selectores (de que apenas vemos uma pequena parte) modificava-se a cablagem interna do computador. (Foto de Benjamin C. Pierce)

Publicado por Porfírio Silva em 08:47 AM | Comentários (1)

maio 26, 2004

Imagens artificiais

As "tartarugas" mecânicas de Grey Walter (fim da década de 1940) foram dos mais notáveis antecessores da actual "nova robótica". Em 1953, Pierre de Latil (em La Pensée Artificielle) publica esta fotografia de Grey Walter com a mulher e o filho e uma das suas "tartarugas mecânicas", com a seguinte legenda: Ce couple a deux enfants dont un électronique. Vêm de longe, os abusos de linguagem nas ciências do artificial.
(Esta posta vai dedicada ao meu Amigo JPS.)
GreyWalter2.jpg
Publicado por Porfírio Silva em 09:39 AM | Comentários (0)

Que tipo de humano inspira a MdT ? (Pequena história da MdT - 5)

Que tipo de humano inspira a MdT? Originalmente, um "computador" é um humano a calcular. Ao longo de várias páginas do artigo de 1936 em que "cria" a MdT, Turing faz uma extensa e exaustiva comparação entre um humano a realizar um cálculo (um "computador") e a operação das "suas" máquinas. Recorre-se, aí, designadamente, à noção de "estado mental" do humano "computador", para o qual é dado o análogo "estado da máquina". O esforço principal dessa comparação incide na determinação das limitações do humano calculante - e na correspondente ilustração de que as mesmas limitações se aplicam à máquina. O humano é tomado estritamente na medida em que está a calcular: nada mais do seu comportamento é considerado. Não há qualquer tipo de tentativa de mostrar que o humano pode fazer mais ou pode fazer outras coisas - tal como não há qualquer tentativa de mostrar que a máquina pode fazer mais ou melhor do que o humano calculante. Mais à frente, comparando mais uma vez com um humano que calcula, pensa num humano muito pouco metódico (que interrompe o cálculo a cada passo, levantando-se por exemplo) e que, por isso, só tem uma possibilidade de fazer avançar o cálculo: anotar a cada passo onde vai e o que tem de fazer a seguir. Para Turing, a sua máquina faz isso perfeitamente. Durante muitos anos, a Inteligência Artificial e as Ciências Cognitivas deixaram-se iludir por esta identificação entre "mente" e "cálculo" - e pelas consequentes falácias da relação entre máquina e mente. Mas isso foi porque se esqueceram de ler certas partes dos textos de Turing, que mostram que ele estava ciente de que isso não é tudo.

ONTEM PERGUNTÁMOS: Suponhamos que temos N máquinas de Turing. Queremos saber quais páram. Para isso basta saber quantas páram. Porquê? RESPOSTA: Pomos todas as MdT a correr (a executar o seu programa). Quando parar o número de MdT que sabemos que páram, sabemos quais páram.

[ Próximo ponto: A mãe dos modernos computadores]

Participe na consulta orientada pela pergunta "As máquinas pensam?", (1) votando na coluna aqui mesmo ao lado ou (2) enviando-nos um pequeno texto com uma opinião.
Publicado por Porfírio Silva em 09:36 AM | Comentários (3)

maio 25, 2004

Blogues de Ciência e Filosofia (Hipertexto 4)

Interesso-me pela ciência e pelos que pensam a ciência. Pelos que pensam no perigo que é a ciência que não pensa. Pelos que lutam contra o "vale tudo" em ciência. (Não, não vou aqui discutir o Feyerabend, porque isso daria uma longa história.) Em meu entender há poucos blogues onde se escreva sobre ciência e onde se pense na ciência. Na ciência como cultura, como empreendimento humano (nem divino nem demoníaco). Na filosofia da ciência. Mas há alguns bons. Aqui vão alguns que me dão vontade de ter mais tempo para a blogosfera. Nem todos são exclusivamente "científicos" ou "filosóficos", mas todos têm pelo menos bons momentos nesta temática. Para começar, invistam nestes:
* A aba de Heisenberg
* E Deus tornou-se visível
* Conta Natura
* No Mundo
* bactéria blog
* o-teste-de-turing
* OzOnO
* A formiga de Langton
* O Solipsista
* SCILICET
* A base do optimismo
* arqueoblogo
* Luzeiro
* O Estrelado
* Retórica e Persuasão
* Geo(B)logia
Muito se fala do efémero na blogosfera. Um dos traços desse efémero é a quantidade de blogues que "morrem". O que é curioso é que alguns blogues mortos são mais interessantes do que alguns vivos. Exemplos, nesta categoria: Em Expansão Vertiginosa (última entrada a 3.Fev.04); ciência na blogosfera (última entrada a 3.Nov.03); socioblogue 2 (última entrada a 27.Nov.03).
Um dia destes continuarei esta leitura chamando a atenção para alguns posts que apareceram nestes blogues e que considero serem bons exemplos de reflexão sobre a ciência.
JÁ AGORA! Em geral este tipo de blogues não edita à velocidade dos "blogues políticos", por exemplo. Et pour cause: há por aqui entradas que dão trabalho a ler, há por aqui muito material que ultrapassa a espuma dos dias. Material que, por vezes, é pena que desapareça nos idos do enrolamento de um blogue. Não seria possível e útil criar um "círculo" de blogues que se interessam seriamente pela ciência, filosofia da ciência e sociologia da ciência?
Um apelo: se acha que deixei de fora algum blogue importante nesta categoria, faça o favor de me avisar.
(Esta série "Hipertexto" é publicada simultaneamente na Turing Machine e na Abébia Vadia.)
Publicado por Porfírio Silva em 11:51 AM | Comentários (3)

E se a máquina não pára? (Pequena história da MdT - 4)

Quando é que a máquina nos mostra o resultado do cálculo? Quando pára. (Isso é explicado no episódio 1 desta história.) Quando a máquina pára, o resultado está em exibição numa certa posição relativamente à cabeça da máquina. É nestes termos que Turing vai dar a sua versão do problema da decisão (ver episódio anterior): na forma do problema da paragem para máquinas de Turing.
Em certos casos é útil poder saber se a MdT que pomos a resolver um problema irá ou não parar. Consideremos a "conjectura de Goldbach", segundo a qual todo o número par maior do que 2 é a soma de dois números primos. Como podemos saber se isso é verdade? Programamos uma MdT para percorrer toda a lista de números pares e, à vez, decompor cada um deles em pares de números primos (… , 8 = 3+5, 10 = 3+7 = 5+5, …) e, se encontrar um número par que não pode ser decomposto numa soma de números primos, pára. O número em que a MdT pare será um contra-exemplo para a conjectura de Goldbach e decidirá esse problema.
A primeira pergunta que se põe é: essa MdT parará alguma vez? Não sabemos. Mas há outra pergunta mais importante em geral: será possível construir uma MdT que analise essa MdT e indique se ela irá parar? A resposta é negativa e pode ser assim generalizada: não é possível construir nenhuma MdT que seja sempre capaz de nos indicar, após um número finito de passos, se qualquer outra MdT parará ("resolverá o seu problema") após um número finito de passos, para qualquer conjunto de dados iniciais que lhe sejam apresentados. Trata-se, na forma original que lhe deu Turing, de uma resposta negativa ao problema da decisão. Mostrar a impossibilidade de uma MdT resolver o problema da paragem para máquinas de Turing foi a via usada para mostrar o seguinte: nem sempre é possível saber se existe um procedimento efectivo para determinar se um problema rigorosamente formulado tem ou não uma solução.
Note-se que isto não implica a impossibilidade de decidir problemas individuais - não implica a inexistência de uma MdT que seja capaz de nos dizer, para uma MdT específica e um determinado conjunto de dados iniciais, se essa MdT vai ou não parar. O que nega é a existência de soluções algorítmicas para todas as classes de problemas.

ORA PENSE LÁ ! Suponhamos que temos N máquinas de Turing. Queremos saber quais páram. Para isso basta saber quantas páram. Porquê? (Amanhã veremos. Até lá, digam qualquer coisa, se assim o entenderem.)

[ Próximo ponto: Que tipo de humano inspira a MdT?]

Participe na consulta orientada pela pergunta "As máquinas pensam?", (1) votando na coluna aqui mesmo ao lado ou (2) enviando-nos um pequeno texto com uma opinião.
Publicado por Porfírio Silva em 09:11 AM | Comentários (3)

maio 24, 2004

O petróleo do mar de Timor (Notinhas australianas 6)

Como prometi na minha crónica anterior, vou falar da questão do petróleo do mar de Timor. Pequeno resumo: A Austrália assinou um acordo com a Indonésia que lhe é bastante favorável, porque o fez numa época em que a ditadura de Suharto precisava de reconhecimento internacional como pão para a boca, devido à oposição internacional à sua ocupação de Timor-Leste. Um pequeno resumo da situação pelo respeitado jornalista australiano John Pilger: aqui. O programa do I Governo Constitucional de Timor-Leste explica claramente a vontade de negociar as fronteiras marítimas, quando refere a questão do petróleo: aqui .
Durante o período de transição, os australianos tentaram repetidamente pressionar os dirigentes timorenses para que ratificassem o acordo enquanto novo país independente. Felizmente, os dirigentes timorenses, bem aconselhados pela ONU, nunca "enfiaram o barrete" e agora, como constataram que a Austrália está a agir de má-fé, adiando sistematicamente as negociações enquanto continua a bombear petróleo nas concessões que são objecto de litígio, optaram, e bem, por combater as posições australianas dentro da própria Austrália. Eis dois exemplos de posições australianas pró-timorenses: aqui e aqui.
Há uns dias, Alexander Downer, o ministro dos Negócios Estrangeiros, fez declarações que demonstram que "sentiu o toque". Num tom enfadado, afirmou que "a táctica escolhida pelos timorenses de tentarem culpabilizar os australianos mostra a sua ingratidão face aos milhões de dólares dos contribuintes australianos que gastámos para assegurar a independência de Timor-Leste". É claro que podemos contra-argumentar que, se Timor-Leste conseguir que sejam reconhecidos os seus direitos no mar de Timor, a soma despendida pela Austrália será bem inferior à que já obtiveram da exploração do petróleo nas áreas contestadas. Além disso, a Austrália, embora de facto tenha dado um contributo positivo para a independência de Timor-Leste, nos anos que precederam o referendo apoiou ininterruptamente a Indonésia de Suharto, facto pelo qual foi amplamente "recompensada" através dum acordo "de amigos" sobre a exploração do petróleo do mar de Timor.
A 20 de Maio foi celebrado também aqui na Austrália o segundo aniversário da independência de Timor-Leste. Em Sydney, algumas centenas de manifestantes protestaram contra as posições australianas no que diz respeito ao petróleo do mar de Timor. O cônsul timorense nesta cidade esteve presente e declarou que "a Austrália deveria compreender que é do seu próprio interesse ter um Estado vizinho que seja estável e próspero". O noticiário da noite na televisão falou de manifestações "all over Australia", mas sem especificar, o que me faz pensar que há alguma movimentação, mas ainda confinada ao lobby favorável a Timor-Leste. Assunto a seguir atentamente...

Miguel Magalhães, em Sydney

Publicado por Porfírio Silva em 02:35 PM | Comentários (0)

O problema da decisão (Pequena história da MdT - 3)

Nos dois primeiros capítulos desta história (aqui o 1 e aqui o 2 ) explicou-se o que é e como "funciona" uma máquina de Turing (MdT). Neste capítulo e no seguinte explicamos o "porquê" dessa invenção.
O campo da matemática estava confuso quando David Hilbert, um grande matemático e filósofo da matemática que nasceu no século XIX e morreu no século XX, entrou em cena. Tinham surgido vários paradoxos que minavam a confiança na lógica e na matemática e que davam a ideia de que esses domínios não eram tão "certos" e "rigorosos" como pareciam. Esses paradoxos eram em parte causados pela introdução e manipulação de números/conjuntos infinitos (infinitos de vários "tamanhos", por exemplo). Hilbert queria ultrapassar essa situação confusa e dar um fundamento seguro à matemática.
O remédio proposto por Hilbert consiste em renovar o método axiomático. Tudo se passaria dentro de um sistema formal, no qual se definem exactamente o vocabulário (todos os símbolos que podem ser usados no cálculo), as regras de formação (como se podem combinar símbolos para obter fórmulas bem formadas), as regras de transformação (como se podem derivar fórmulas umas das outras), os axiomas (fórmulas primitivas do sistema). Provar ou demonstrar uma fórmula nesse sistema será obtê-la por transformação de fórmulas antecedentes numa sequência, num número finito de passos.
Um sistema destes (um sistema formal), para ser útil quando aplicado à matemática, deveria ter determinadas qualidades, que não vamos aqui especificar. Excepto uma. Um tal sistema teria de garantir a decidibilidade de qualquer fórmula. Isto é: dada qualquer fórmula bem construída tem de ser possível decidir, num número finito de passos, se essa fórmula é ou não um teorema do sistema.
Podemos dar uma formulação geral deste problema assim: será que todo o problema matemático, formulado com clareza, tem, desde que trabalhemos suficientemente nele, uma solução que possamos encontrar? Aqui temos o problema da decisão.
Ora, o que interessa a esta nossa história é que Turing vai dar uma resposta negativa ao problema da decisão. A máquina de Turing foi inventada precisamente para enfrentar esse problema. Pasme-se: o computador foi inventado para discutir um problema altamente teórico de lógica matemática.
No próximo episódio explicamos como isso se fez.
[ Próximo ponto: E se a máquina não pára?]
Publicado por Porfírio Silva em 09:25 AM | Comentários (0)

maio 23, 2004

E não há quem lhe parta a cara?

Soubesse eu de um qualquer macho considerado humano que ele dissera "Não sou homossexual. Quem achar que sou que me traga a irmã." e eu perguntaria: e não há quem lhe parta a cara? Estava eu assim a pensar na vida e leio na Única/Expresso que José Mourinho disse isso. Esse gajo é treinador dos macacos do Zoo (perdoem, macacos) ou treinador do campeão nacional de futebol?
Publicado por Porfírio Silva em 10:05 PM | Comentários (0)

Finalmente, a história da máquina de Turing!

Depois de termos anunciado (Prefácio) e de termos começado (episódio 1 e episódio 2) a Pequena História da Máquina de Turing, andámos por outras guerras e deixámos esta batalha um pouco ao abandono. Queremos redimir-nos dessa falha. A partir de 24 de Maio - e sem interrupção! - vamos avançar nessa história. Um novo episódio cada dia útil (sábados e domingos até a máquina descansa). Até ao fim desta nossa modesta versão. E, depois disso e com apoio nesse material, teremos... teremos... UMA COBERTURA ESPECIAL DO EURO 2004 ! Alguém pode imaginar-nos a fazer aqui uma cobertura do Euro 2004? Pois faremos tal - e de um tal modo que fará justiça às linhas programáticas desta máquina de Turing!
Publicado por Porfírio Silva em 04:05 PM | Comentários (0)

maio 20, 2004

Blogues Religiosos (Hipertexto 3)

Eu não tenho religião. Nem sou ateu. Sou daqueles que dizem "não sei". E acrescento: não acredito em nenhuma via racional (científica ou filosófica) para determinar se Deus existe. Se isso fosse possível, a questão de Deus seria uma questão de conhecimento (empírico ou conceptual). Nesse caso, não seria uma questão propriamente religiosa. Não acredito que seja possível demonstar nem a existência nem a inexistência de Deus: para acreditar é preciso "ser tocado". Eu não "estou" nessa condição. Já fui católico, militante a sério, durante anos. Agora não tenho fé. Nem contrafé. O fenómeno religioso é, para mim, fundamentalmente um fenómeno social. As pessoas sentem-se "tocadas" por razões sociais (ou psicossociais). Mas isso, só por si, não me basta para criticar a religião. Nem para a aplaudir. Assim sendo, olho para as práticas religiosas (e para o pensar religioso) pelo que eu entenda que elas valem independentemente da religião. Como há ideias políticas com que concordo, outras de que discordo mas respeito, outras de que discordo e combato ferozmente. Não há, assim, nada de estranho em andar à cata de blogues religiosos. Provavelmente, alguns dos que aqui mencionarei não se revêem na categoria. Considerei assim aqueles que assim se declaram explicitamente, mas também alguns que (com maior ou menor assiduidade) tratam temas ou usam textos ou apontam para referências religiosas. Em coerência (penso eu) com o que disse antes, gosto dos blogues religiosos que podem dizer-me alguma coisa apesar do meu agnosticismo. Não espero, contudo, que me convertam. Até porque as conversões não se esperam.
Num padrão de excelência dentro desta categoria, coloco: A Bordo , Midrash , Terra da Alegria (colectivo) , timshel. Proporcionam uma reflexão sobre a vida e as pessoas que nada perde pelas tintas religiosas. Incluo ainda a Voz do Deserto, embora certas entradas sejam por vezes pouco transparentes para os "não iniciados". O Guia dos Perplexos também proporciona reflexão séria, que pode perfeitamente compreender-se fora do rótulo "religioso". Colocaria ainda No Adro neste grupo seleccionado.
Sem querer ser ofensivo, alguns dos blogues que coloco numa segunda categoria parecem-me um tanto "paroquiais" (no mau sentido): um tanto fechados sobre si mesmos, um tanto tão-apenas-contemplativos, um tanto parece-que-certos-pensam-que-a-palavra-se-impõe-por-si-mesma. Embora, é claro, tenham todo o direito de ser exactamente assim. Por exemplo: Palavras de Jesus (tem música), Fala(r) com Deus.
Outros, pura e simplesmente têm uma função instrumental de "criar comunidade" (coisa que não se pode criticar): Grupo João Cidade , Uma Igreja na Cidade e para a Cidade.
O Palavras que voam... considera-se profeta, o que daria muito que falar, mas deixemos isso que esta posta já vai longa. (É que "ser profeta" não quer, só por si, dizer grande coisa: historicamente, houve profetas que diziam o que o poder queria, profetas que contestavam o poder, profetas individualistas e profetas que eram "grupos de pressão" - e por aí adiante.)
Um que, dentro desta categoria, representa (por enquanto?) a tendência minimalista : VizinhoDoMar.
Ainda, dois que não me suscitam comentários especiais, a não ser por características editoriais: o Religionline irrita-me pela simples razão de gostar de transcrever textos em várias línguas. (Eu não sou censor, mas tenho uma certa preferência pela pureza da blogosfera portuguesa. Manias.) Em Os Animais Evangélicos (outro colectivo), além da qualidade dos textos fiquei bem impressionado com o grafismo.
Um exemplo de um debate recente que passou por alguns destes blogues e que ilustra as razões do meu interesse por esta "comunidade": o significado de Fátima. Um cheirinho desse debate passou no Bengelsdorff, no Guia dos Perplexos , outra vez no Bengelsdorff e outra vez no Guia dos Perplexos e ainda no Terra da Alegria pela voz do editor do A Bordo .
Para terminar, uma ligação que encontrei num blogue religioso: Diário de uns ateus. Viva a tolerância, esteja ela onde estiver (este blogue "ateu" também tem ligações a blogues religiosos - e também parece alimentar um certo "espírito de capela" - ou engano-me?).
Costumo fazer um apelo: se acha que deixei de fora algum blogue importante nesta categoria, faça o favor de me avisar. Neste caso, embora repita o apelo, esclareço: deixei de fora, propositadamente, muitos blogues que, tendo a pretensão de serem religiosos, mais não são do que plataformas reaccionárias (por vezes declaradamente fascistas) que usam a religião como cobertor - o que, historicamente, nem é grande novidade. Para esses não dou links...
(Esta série "Hipertexto" é publicada simultaneamente na Turing Machine e na Abébia Vadia.)
Publicado por Porfírio Silva em 03:37 PM | Comentários (0)

maio 18, 2004

Blogues Ambientalistas (Hipertexto 2)

Hoje sugiro uma volta pelos blogues ambientalistas. Dada a natureza "global" da temática, desta feita, extraordinariamente, faremos menção a alguns espécimes de outras paragens. O Os Ambientalistas parece-me um dos melhores, tanto pelo conteúdo como pela correcta noção do que é um blogue. Outro bom exemplo (melhorou muito desde o lançamento) é o Bioterra, embora de quando em vez pareça esquecer vagamente que um blogue não é uma página Web nem uma revista. Um de aspecto e leitura agradável, com um ritmo de edição distendido, é o Zona Verde. Nesta família temos um trio de primos: Estrago da Nação, Reportagens Ambientais, Ambiente no Mundo. Há um blogue ambientalista de um partido político (o PS), que se assume como tal: O Desenvolvimento Sustentável. O Vigilantes da Natureza é assim uma espécie de "órgão profissional" dos ditos, pelo que tende a dar um certo relevo a questões que têm mais um carácter quase-sindical. Do que conseguimos ler, ainda vale a pena dar uma vista de olhos por: Clean Energy; Ondas; Reciclemos ! (embora por vezes duvidemos um tanto do carácter ambientalista deste último).
Para permitir uma comparação, indico alguns blogues ambientalistas em português do Brasil: Meio Ambiente Urgente, Green Word 2, Zoo BR, Datambiental. Com toda a franqueza, parece-me que há "produtos nacionais" mais interessantes. Este aqui também é brasileiro mas não me parece propriamente ambientalista, embora alguns ambientalistas o incluam nas suas ligações: o Tupiniquim é "sobre os povos indígenas" e tem interesse, embora os "indígenas" portugueses sejam de outro estilo... Já agora, a título de referência, um blogue ambientalista que nem é de Portugal nem fala português: o If you tolerate this... da Greenpeace internacional.
Posto isto, resta-me desejar: não se esqueça de separar o lixo! (Aliás: porque é que tanta gente preciso de se afastar tanto de sua casa para poder separar o lixo?)
Um apelo: se acha que deixei de fora algum blogue importante nesta categoria, faça o favor de me avisar.
(Esta série "Hipertexto" é publicada simultaneamente na Turing Machine e na Abébia Vadia.)
Publicado por Porfírio Silva em 12:00 PM | Comentários (6)

maio 17, 2004

Os Estados australianos e a Federação (Notinhas australianas 5)

Desculpem o comprimento da minha última notinha, mas tinha de dar alguma informação de base para dar sentido ao que quero dizer. É que uma das curiosidades que permite aqui a qualquer pessoa manifestar uma lealdade pessoal ao "seu" Estado é a retórica das chapas de matrícula dos automóveis. Eis alguns exemplos: http://www.gugus.com/au/roli_e/e_carpl.htm. É claro que, como acontece noutros países de língua inglesa, hoje em dia é possível obter chapas de matrícula verdadeiramente personalizadas: http://www.rta.nsw.gov.au./registration/numberplates/pricelist.html. Esta tendência para a autopromoção está a diluir as rivalidades inter-estatais, porque deu também origem a rivalidades inter-regionais: http://www.regionalplates.com/.
Enfim, eu, que sou duma época em que havia poucos automóveis, lembro-me de me distrair com os meus irmãos em longas viagens no automóvel dos meus pais (há 40 anos 100 km era uma longa viagem, com direito a paragem para piquenique), contando os automóveis (tantos VW, tantos FIAT, tantos Ford, etc.). Hoje, na Austrália, quando me quero distrair a olhar para os automóveis, tento decifrar chapas de matrícula supostamente engraçadas: UTRYIT (que se pode ler "you try it") foi uma que vi há alguns dias.
Voltando às chapas de matrícula dos Estados, a mais divulgada na Austrália do Sul é "South Australia - The Festival State". Porquê? Porque Adelaide, a capital deste Estado, foi a primeira grande cidade australiana a apostar num grande Festival das Artes para se promover. O modelo foi seguido por todas as outras e Sydney não é excepção: Maio e Junho são meses de grande actividade artística e cultural em Sydney. De 17 a 23 de Maio decorre o Sydney Writers' Festival - http://www.swf.org.au/ -, em que participam mais de 200 escritores dos mais variadas especialidades. No dia 3 de Junho inaugura a Biennale of Sydney, International Festival of Contemporary Art - www.biennaleofsydney.com.au -, que se prolonga até final de Agosto, com obras de 50 artistas de mais de 30 nacionalidades. Seguidamente, de 11 a 26 de Junho, decorre o Sydney Film Festival - http://www.sydneyfilmfestival.org/. Isto é, num espaço de menos de um mês, são inaugurados três grandes festivais internacionais, com bastante prestígio na respectiva área. Espero na próxima semana começar a dar notícias destes festivais, e também começar a escrever sobre uma questão que está a "aquecer" aqui na Austrália: o petróleo de Timor. Ontem (10 de Maio), no principal canal nacional de televisão (ABC), passou às 20,30 uma longa reportagem muito bem documentada e bastante favorável às posições timorenses; a imprensa escrita também não parece muito convencida pelos argumentos do governo australiano. A ver vamos....

Miguel Magalhães, em Sydney

Publicado por Porfírio Silva em 09:47 AM | Comentários (0)

maio 14, 2004

Ai as minhas costas...

Na próxima terça-feira (18 de Maio) tem lugar em Bruxelas uma conferência europeia que tratará do problema da erosão da costa marítima e do que é preciso fazer para a evitar. Segundo um estudo encomendado pela Comissão Europeia, 28,5 % da costa marítima portuguesa está em processo de erosão. Estão significativamente piores do que nós nessa matéria: Chipre, Lituânia e Polónia. Estão a ver como foi bom o alargamento? Em mais este caso, estes três parceiros (todos novos) é que nos tiram da causa da Europa. Mas só estatisticamente, é claro. (Mais informações nesta página da Comissão Europeia.)
Entretanto, deprime-me muito que um exemplo chocante deste problema esteja à vista nesta imagem da praia da Vagueira, praia da minha infância, ali por perto de Aveiro, Ílhavo e Vagos. Por vezes parece que é preciso elevar-nos um pouco no ar para vermos onde estamos enterrados...
vagueria_web.jpg
Publicado por Porfírio Silva em 04:48 PM | Comentários (3)

maio 13, 2004

Presépio

Olha, olha, lá está a casa onde nasceu a máquina de Turing!

foto-aerea-web.jpg

Publicado por Porfírio Silva em 08:10 AM | Comentários (3)

maio 12, 2004

Muro Sem Vergonha (Hipertexto 1)

Começo hoje (e continuo quando?) uma série "Hipertexto", na qual chamarei a atenção para outros blogues. Não pretendo fazer grandes comentários, mas apenas "ligar" e deixar por vezes uma ou outra questão e/ou provocação. Por vocação.
Para número 1, fica o Muro Sem Vergonha. Noto lá (imagem de cabeçalho) que a rapariguinha não sabe o que fazer à estrela. Também, com aquela companhia por perto! A dita imagem de cabeçalho é de Enki Bilal (um velho conhecido) e do (magnífico) álbum A Caçada. (Ver imagem e depois fechar a janela para voltar aqui.)
Pergunto eu aos colegas do Muro Sem Vergonha: porquê Bilal ? Foi só pela imagem (boa escolha, sem dúvida), ou há algo no mundo de Bilal que se assemelha ao mundo depois do Muro? ou ao mundo para lá do Muro?
(Uma característica desta série "Hipertexto" é que será publicada simultaneamente na Turing Machine e na Abébia Vadia.)
Publicado por Porfírio Silva em 04:10 PM | Comentários (0)

maio 11, 2004

Quem conhece Portugal?

Que ponto de Portugal representa esta imagem? (Respostas nos comentários, por favor.)

web2.jpg

(A propósito do comentário de M.A.B. à entrada anterior: por estranho que pareça, a foto da entrada anterior pertence, num certo sentido, ao mesmo conjunto que esta.)

Publicado por Porfírio Silva em 09:05 AM | Comentários (6)

maio 10, 2004

Vertigem

web1.jpg

Publicado por Porfírio Silva em 04:38 PM | Comentários (2)

Os Estados australianos e a Federação (Notinhas australianas 4)

Hoje vou falar das rivalidades entre Estados da Federação. A Austrália tem 6 Estados com constituições e parlamentos (duas câmaras) próprios: New South Wales (capital: Sydney), Victoria (Melbourne), South Australia (Adelaide), Western Australia (Perth), Tasmania (Hobart) e Queensland (Brisbane; uma só câmara). As duas restantes regiões têm estatutos especiais: a Australian Capital Territory (Canberra), por ser um mini-estado criado exclusivamente para albergar a capital da Federação, e os Northern Territories (Darwin), por serem uma espécie de "região assistida", que tem beneficiado de consideráveis transferências financeiras da Federação.
Como acontece frequentemente em Estados federais, as rivalidades inter-Estados são patentes, mas nenhuma rivalidade se compara à que opõe as capitais dos primeiros Estados em termos cronológicos: Sydney e Melbourne. Estas duas cidades enormes (cerca de 4,5 milhões de habitantes cada uma, isto é, as duas juntas contêm quase metade da população australiana), que se estendem por cerca de 50 km para Norte, Sul, Leste e Oeste relativamente ao centro, foram e são rivais em quase tudo. A melhor cerveja do mundo é a "Victoria Bitter" em Melbourne e a "Toohey's" em Sydney, o desporto mais popular é o futebol australiano (parecido com o futebol gaélico praticado no País de Gales e na Irlanda) em Melbourne e o râguebi em Sydney (a versão preferida é o "Rugby League", jogo de países anglófilos que se joga com treze jogadores (em vez dos 15 do "Rugby Union") e tem algumas regras diferentes da versão "Union" praticada em muito mais países. Os habitantes de Sydney (Sydneysiders) consideram os de Melbourne "snobes e intelectuais" e os de Melbourne consideram os de Sydney "fúteis e superficiais". Uma típica piada de Melbourne: "Aqui é costume organizar-se uma festa quando se publica um livro. Lá basta o autor ter uma ideia para o próximo livro."
Enfim, a verdade é que Sydney é incomparavelmente mais bonita, tem melhor clima e se tornou a cidade mais importante da Austrália. Melbourne, que foi durante muito tempo mais importante, enquanto viveu do rescaldo do seu "Gold Rush" do século XIX, deixou de o ser e este facto é difícil de engolir. Não nos esqueçamos que, em 1956, pela primeira vez, os Jogos Olímpicos disputaram-se na Austrália, precisamente em Melbourne, e só 44 anos mais tarde, em 2000, é que Sydney conseguiu a sua vez. Foi também esta rivalidade que determinou a fundação de Canberra em 1911, dez anos depois de as diversas colónias britânicas que constituiam a Austrália terem decidido tornar-se uma federação independente. Nesses dez anos, Melbourne e Sydney envolveram-se numa luta sem quartel, cada uma a oferecer mais do que a outra, para convencerem os outros Estados a designarem uma delas capital federal. A solução que se acabou por encontrar foi um território do tamanho do Luxemburgo, doado pelo Estado de Nova Gales do Sul, para se construir uma capital mais ou menos a meio-caminho entre as duas eternas rivais (de facto, é um pouco mais perto de Sydney do que de Melbourne). Tratava-se então duma enorme exploração de gado ovino ("sheep station"), conhecida pelo nome de "Canberry", anglicização do nome indígena Canberra. A discussão sobre o nome a dar à cidade foi bastante pitoresca (chegou a haver a proposta de a chamar "Shakespeare"), mas acabou por singrar o nome aborígene que, por felicidade, quer dizer "lugar de encontro". Como acontece com muitas cidades criadas por motivos unicamente políticos, é bastante mal-amada: "a place for dippos, journos and polles", isto é, traduzindo do australiano, para diplomatas, jornalistas e políticos.
(...continua na próxima semana...)
Miguel Magalhães, em Sydney
Publicado por Porfírio Silva em 09:02 AM | Comentários (0)

maio 07, 2004

Passadeira vermelha

O senhor não reconhece aqui a sua passadeira vermelha? Então, abra os olhos. E ande. E respire. Fundo. Afunde-se. E viaje. Numa viagem interior. Limpa. Límpida. Transparente. Há gelo lá fora, sempre: embora não para todos.
praga8.jpg
(Pode ver uma variação sobre o mesmo tema.)
Publicado por Porfírio Silva em 04:57 PM | Comentários (2)

maio 06, 2004

Metamorfoses

Se Kafka espreitou um dia esta rua acanhada onde viveu; se foi nessa esquina da sua mente que nasceu a ideia d' A Metamorfose - o que me terá nascido a mim, na minha mente, por apenas me encontrar colocado no mesmo ponto de perspectiva? Engano. Assim se dizem as ilusões.
Interessa atender a que a perspectiva não é tão só uma posição no espaço e no tempo. Um robot com uma câmara de vídeo, no mesmo sítio que eu, não "vê" o mesmo que eu. Um par, um trio, mesmo uma imensidão de coordenadas para tantas outras dimensões, não fazem uma perspectiva. Porque a esse mero "ponto no mapa" falta a história individual, falta a carta das contingências, as cicatrizes dos acidentes. Isso faz o ponto de vista. O choque das vagas que vão de fora para dentro com as vagas que vêm de dentro para fora.
Há, contudo, por essas ruas, muitos robots que parecem humanos. Desses que dariam alguma esperança ao inventor da máquina de Turing.

praga7.jpg
Publicado por Porfírio Silva em 10:15 AM | Comentários (1)

maio 05, 2004

Vida selvagem

Se tu dás a flor, quem dá os espinhos? Responderemos caminhando, atentos aos detalhes, aos pequenos seres que preenchem as frechas das nossas pressas. Procuraremos ouvir as vozes dos que gritam baixinho, dos que acenam de dentro do nevoeiro, dos que andam pelas ruas sem que ninguém os veja, dos que deambulam pelas oficinas à espera que passem os anos. Esperamos que os pequenos espinhos nos piquem os pés e nos alertem para as coisas que não andam no ar do tempo. Esperamos das flores os seus espinhos.

adragaflor_web.jpg
Publicado por Porfírio Silva em 03:20 PM | Comentários (0)

maio 04, 2004

Alerta

Por diploma de 19 de Fevereiro de 2004, o governo de Itália, legislando sobre programas, determina que nas escolas secundárias de Itália deixem de se ensinar as teorias de Darwin acerca da evolução. A ministra da educação, Letizia Moratti, justifica tal orientação com as posições da Igreja acerca do tema. Para quem queira confirmar o que aqui está a ler com os seus olhos arregalados, é possível encontrar esta notícia no sítio do La Repubblica, que tem uma versão em inglês e tudo. Estará alguém a tentar importar para a Europa a querela do criacionismo? a querer introduzir uma guerra política na educação científica, pelo pior ângulo? O La Repubblica promove um abaixo-assinado contra a medida. E nós, até quando nos safamos?
(PS: Por favor, não contem nada disto aos nossos governantes no Ministério da Educação, porque, visto o passado recente, é capaz de haver por lá quem vá a correr fazer uma viagem de estudo a Itália...)
Publicado por Porfírio Silva em 09:00 AM | Comentários (0)

maio 03, 2004

Os australianos indígenas (Notinhas australianas 3)

Da minha crónica anterior: "O Australia Day ( http://www.nadc.com.au/ ), em 26 de Janeiro, celebra o dia em 1788 em que o capitão Arthur Phillip tomou formalmente posse da colónia da Nova Gales do Sul, tornando-se o primeiro governador desta colónia britânica. Ora, existe hoje na sociedade australiana uma forte corrente que pretende revalorizar a história deste país anterior à chegada dos europeus."
Hoje vou falar, portanto, daquilo que se convencionou designar por "A questão dos aborígenes": há duas semanas o governo de John Howard decidiu eliminar a Comissão que trata do apoio público às comunidades indígenas, a Aboriginal and Torres Strait Islander Commission, que tinha sido criada há 15 anos. Não se pense, no entanto, que esta foi uma decisão unilateral, pois Mark Latham, o líder do principal partido da oposição (Partido Trabalhista da Austrália) já tinha declarado há um mês que, se fosse eleito, dissolveria a dita Comissão por motivos idênticos: má gestão de fundos públicos, corrupção, incapacidade para diminuir o fosso social e económico existente entre a população indígena (pouco mais de 1% da população total) e a restante população australiana. Quando há 15 anos foi decidido criar esta Comissão, também tinha havido acordo entre os dois maiores partidos (Trabalhista e Liberal) e a instituição deste organismo tinha correspondido a um sentimento generalizado entre a opinião pública de que, finalmente, iria ser possível melhorar o destino das comunidades aborígenes. É, pois, uma infeliz constatação de fracasso a que assistimos actualmente. Para mais informações: http://www.atsic.gov.au/ .
Esta capacidade de entendimento dos dois maiores partidos acerca das "grandes questões" do país é assumida sem complexos, independentemente do calor dos confrontos eleitorais, pois há que lembrar que na Austrália haverá certamente ainda este ano eleições legislativas e os Partidos Trabalhista (Mark Latham) e Liberal (John Howard) estão praticamente empatados nas sondagens. Talvez tudo seja apenas uma questão de "horas de voo" das democracias, como dizia com graça há uns dias António Barreto. Na verdade, o Partido Trabalhista da Austrália foi o primeiro no mundo a exercer o poder (o centenário do feito foi festejado na semana passada) e na Austrália as mulheres têm direito a voto desde o princípio do século XX!!! (Ler mais em http://www.onlinewomeninpolitics.org/suffr_chrono.htm.) Só não foram os primeiros, porque essa honra coube aos vizinhos da Nova Zelândia.
Miguel Magalhães, em Sydney
Publicado por Porfírio Silva em 09:50 AM | Comentários (1)