Vieira da Silva
Ali na Fundação dedicada a ela e ao marido, ao Jardim das Amoreiras, uma magnífica exposição de Vieira da Silva, com obras que nem sempre estão à mão de ver. Esta que aqui se ilustra (jogo de xadrez) é uma das que lá moram por agora. Eu prefiro qualquer uma das "bibliotecas" (das que lá estão, a que está "em fogo"), mas não encontrei imagem a condizer. É de ir. Pode-se aproveitar para namorar nos bancos do jardim, antes ou depois: é sempre uma mais-valia. (Ontem, chovia: não deu muito jeito para isso).
Incidentalmente: a história dela e do marido (judeu, húngaro) mostra bem que país era este sob o governo de Salazar.

Publicado por Porfírio Silva em
04:42 PM
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Escrever direitos por linhas tortas
O El País é, como se sabe, um reaccionaríssimo diário do país vizinho. Passo a resumir um texto do seu editorialista Hermann Tertsch, publicado há alguns dias.
Desde há pelo menos 20 anos que países como a Alemanha ou a Holanda tudo faziam para que os imigrantes muçulmanos não renunciassem à sua cultura. Tudo o que não fosse nesse sentido era considerado racista e xenófobo. Nessa linha, racistas eram os que pugnavam por um esforço de integração por parte dos imigrantes. Os partidos democráticos desinteressaram-se do problema. As elites pregavam a tolerância, mesmo com os intolerantes.
Foi preciso o assassínio de Theo van Ghog para que se afundasse a grande mentira. Na Holanda contam-se já vinte atentados anti-muçulmanos desde aquela morte. Em França, os jovens muçulmanos são a ponta de lança do anti-semitismo europeu. Há pouco tempo o Der Spiegel publicava um dossier acabrunhante sobre os maus-tratos, as torturas e os sequestros que sofrem milhares de mulheres no seio das suas famílias na Alemanha. Em certos países europeus há bairros onde já não se aplica a Constituição, mas a sharia. Tal como em muitos lares.
Seria cruel dizer que merecemos as consequências do nosso relativismo. Mas temos uma responsabilidade evidente: o nosso erro não foi o de exercer os nossos direitos, mas sim o de não os fazer respeitar. Tanto repetimos ao longo dos anos que todas as ideias são boas, que acabámos por convencer disso aqueles que matam e morrem por valores diametralmente opostos aos nossos.
Convém sempre lembrar que a imensa maioria dos imigrados muçulmanos na Europa são gente de bem. E que há muitos indesejáveis “cristãos”. Mas a polícia holandesa calcula que 5% dos imigrantes muçulmanos nesse país são fanáticos preparados para a violência. Isto é: 50.000.
E que tal um combinação inteligente de firmeza e tolerância, a par com a consciência dos perigos que realmente corremos?
Publicado por Porfírio Silva em
02:19 PM
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Recordar uma visita a "Guernica". (Reflexões descuidadas sobre arte na história. 2)
Madrid, princípios de 1987. Visita ao Casón del Buen Retiro, dependência do Museu do Prado. Vamos ver "Guernica", de P.R. Picasso. (Não se trata aqui, pois, da visita a Guernica, que acontecerá anos depois.) É um óleo sobre tela. Medindo 350x780 cm, é um verdadeiro mural.
De uma textura aparentemente simplista, esta obra não utiliza a cor, mas somente o preto, o branco e o cinzento que resulta da sua combinação. A pintura é plana: os olhos de animais e pessoas aparecem de frente em rostos de perfil, mostram-se visíveis elementos corporais que deveriam estar encobertos devido à posição do corpo. Formalmente, a composição carece de perspectiva, cabendo ao espectador a tarefa de lha dar.
Várias propostas existem para a leitura formal desta obra. De entre as possíveis, uma primeira leitura organiza-a em três grandes fragmentos verticais. O primeiro é o da criança morta nos braços da mãe, deixando cair a cabeça para a mão da estátua de guerreiro derrubado. O segundo fragmento é o central: é dominado pelo cavalo relinchante e por duas fontes de luz muito distintas, apresentando-se uma como uma brecha/explosão agressiva e a outra serenamente na mão de uma mulher. O terceiro fragmento é o das mulheres olhando para "o que se não vê mas também já não importa ver" - mulheres talvez periféricas ao centro da composição.
Uma segunda leitura assenta na percepção de um complexo de espaços triangulares, uns sobrepondo-se por serem muito visíveis e marcados, outros mais discretos e mais reflexivos.
Uma terceira leitura de entre as possíveis é a que organiza toda a composição como girando em torno do cavalo relinchante, que seria o centro da obra.
No mesmo local onde está exposta a "Guernica" podemos observar também dezenas de trabalhos preparatórios (alguns deles coloridos, ao contrário do produto final). Desses trabalhos preparatórios ressaltam como tendo sido mais problemáticos na composição os elementos "cavalo" e "cabeça de mulher".
Este vasto conjunto de estudos que prepararam a "Guernica", expostos ali no mesmo local que a própria obra, abrem uma interessante possibilidade de exploração das intenções do próprio Picasso aquando da composição, nomeadamente das vias que abriu e depois fechou no trabalho final, bem como também do que surgiu no produto final tendo estado arredado dos estudos preparatórios. Ou não?
(
continua)

Publicado por Porfírio Silva em
05:28 PM
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Andanças
Uma parte das razões que me levaram a andar desaparecido daqui estão relacionadas com o facto de ter andado "aparecido" por outros lados. Relatório e contas podem encontrar-se no seguinte atalho:
Na Terra do Grão Mogol.
Publicado por Porfírio Silva em
03:23 PM
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Guernica e "Guernica" de Picasso (Reflexões descuidadas sobre arte na história. 1)
Guernica, pequena cidade da Biscaia espanhola, é considerada a pátria das liberdades vascas: era diante do seu famoso carvalho que os monarcas espanhóis ou os seus representantes costumavam fazer jurar respeitar os direitos vascos.
A 26 de Abril de 1937, segunda-feira, dia de feira, a cidade a 30 Km da frente da guerra civil espanhola, dezasseis horas e quarenta e três minutos. Inicia-se um bombardeamento aéreo pelos partidários de Franco, que terminou às dezanove horas e quarenta e cinco minutos. Tinham então morrido mais de milhar e meio de pessoas e muitas outras ficado feridas. O Parlamento Vasco e o famoso carvalho ficaram intactos.
Os bombardeiros eram da Alemanha então dirigida por Hitler e o próprio bombardeamento veio a ser considerado uma experiência a pensar na Guerra Mundial que se lhe seguiu.
Os "nacionalistas" espalharam inicialmente o boato de que tinham sido os próprios vascos a incendiar a cidade. Dois dias depois os franquistas ocuparam a cidade.
Picasso, que no princípio desse ano tinha recebido do governo da República Esponhola o encargo de pintar um mural para o pavilhão espanhol da Exposition Internationale des Arts et Techniques dans la Vie Moderne (Paris 1937) e que se encontrava indeciso quanto ao motivo a escolher, decidiu consagrar tal mural à destruição de Guernica, como representação dos horrores da guerra. O quadro "Guernica", que daí resultou, é por muitos considerado como a obra prima de Picasso.
(continua)

Publicado por Porfírio Silva em
11:38 PM
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