novembro 10, 2003

Postal para o meu amigo Rui C.


A Bélgica é um paraíso para os amantes de Banda Desenhada: aí há muita, boa, variada, inovadora. Em Bruxelas, é um especial prazer passar pela Brüsel, verdadeiro microcosmos de desenhos em tiras.
Vem isto a propósito de me teres enviado um volume de Monsieur Jean, Inventaire avant travaux, de Dupuy-Berberian, publicado na Dupuis. Usa-se pouco um adulto oferecer a outro adulto um álbum de BD. Porquê? Pura ignorância, suponho eu. Só pode ser isso, dado o facto de haver coisas tão esteticamente relevantes e tão intensas em BD. Talvez alguns tenham medo de serem tomados por "infantis". Adiante: tu (e eu) não tens (não temos) esse problema. Ainda bem. Obrigado pela prenda. Dizes, a propósito deste álbum: "acho que o Truffaut ou o Rohmer não conseguiam fazer em cinema uma coisa tão engraçada como esta história". És capaz de ter razão. Por isso mesmo, pergunto-te eu: porque será que a BD é tão pouco conhecida?
Com este envio deste-me uma ideia: vou abrir uma "linha" sobre BD neste meu blog. Isso já estava para acontecer de forma incidental (lateral), por causa da "história da máquina de Turing" que aqui vou contar. Mas agora vai mesmo ter uma vida própria. Depois verás. Um abraço.

Publicado por Porfírio Silva em 09:13 AM | Comentários (0)

novembro 14, 2003

"...até que a mão aprenda a ver." (Paula Rego)


Carina Carvalho (Euronotícias, 14.nov) obteve de Paula Rego a seguinte frase: "(...) pode-se aprender a desenhar à vista, a copiar, a copiar ... até que a mão aprenda a ver." A entrevista mostra cultura e conhecimento (da entrevistadora) e um bocadinho do mundo "retorcido" de Paula Rego. Sem medo de olhar para dentro de nós e ver as pedras que lá andam aos tombos. Vale a pena ler.
Publicado por Porfírio Silva em 06:20 PM | Comentários (0)

novembro 17, 2003

Entre saber uma coisa e tê-la experimentado...


De um amigo, para publicação, recebi o que segue: texto; desenho original. Obrigado, Rui C. - porque não podemos estar atentos apenas àquilo de que estamos à espera, devemos estar gratos aos que nos puxam o olhar para outros lados.
"Entre saber uma coisa e tê-la experimentado vai uma grande diferença. O espírito queria conhecer-se de modo experimental. A consciência conceptual não era suficiente. Então concebi um plano. Foi a ideia mais extraordinária de todo o universo e o partenariado mais espectacular. Eu digo partenariado, não porque esteja na moda mas porque vocês participam de igual modo do que Eu. De acordo com este plano vós, espíritos, iriam entrar no universo físico que Eu tinha acabado de criar. Isto porque a materialização é o único modo de conheceres de modo experimental o que tu já sabes de modo conceptual. Continuando nesta lógica tu não podes fazer a experiência de ti mesmo na base do que tu és, antes de teres encontrado o que tu não és. Esta é a base da teoria da relatividade e de toda a vida física. O que é definitivo é o que tu não és." (Adaptado de "Conversas com Deus" de Neale Donald Wasch)
Rui C. (Bruxelas)


No Jardim - Desenho original de Rui C.

Publicado por Porfírio Silva em 10:19 AM | Comentários (0)

novembro 27, 2003

Aos que pensam que o mundo é flor que se cheire.

Preparava-me para escrever este apontamento, quando recebi uma mensagem com o assunto "A Zero Acaba". É sobre a Zero em Comportamento. Está tudo explicado no sítio deles. Em resumo, nas palavras deles: "Por isto tudo e por muito mais que fica por dizer, decidimos parar. Vamos deixar de programar o Cine-Estúdio 222." Para quem não conhece, não vale a pena explicar. Para quem conhece ... sem comentários. É isto a capital do império!

Entretanto, enquanto morria a Zero em Comportamento, ontem voltei ao teatro. ANATOMIA TITO FALL OF ROME, de Heiner Müller. O Teatro da Cornucópia, depois de ter feito o Tito Andrónico, de Shakespeare, faz este "comentário de Shakespeare".

Lê-se no programa. "Gostamos de pensar, interpretar, levar à cena, os chamados textos clássicos. E a violência do 11 de Setembro em Nova York foi ao Tiestes de Séneca e ao Tito Andrónico de Shakespeare que nos levou. (...) Difícil é para nós e para os outros fazer, no tempo em que vivemos, o que neste texto se diz que faz o gato da praça de S. Marcos: levantar na praça um pó invisível e quando um turista nos passar a mão pelo pêlo estender as garras para abrir as veias do mecenas. O teatro de Müller lembra-nos, pelo menos, o que consegue fazer o gato que aprendeu com o cão a dar ao rabo." E assim continua a Cornucópia a falar do poder. A falar aos que ainda pensam que o mundo é flor que se cheire. Veja-se. Pode-se antes passar por Cornucópia em linha, mas é obrigatório ir mesmo lá. Espectáculo para maiores de 77 anos. (O Tintim é dos 7 aos 77...)
Publicado por Porfírio Silva em 09:13 AM | Comentários (0)

dezembro 03, 2003

Uma moralidade. (1/6)

Novela gráfica. Começa hoje e continua durante seis dias úteis consecutivos: desenhos originais de Rui C. e texto de Porfírio Silva.

6 da manhã. Conduzo, vagamente acordado, depois de uma noite de copos. Desço a rua dos eléctricos, carreiro metálico escorregadio que nos puxa para o rio ao fundo. O sol matinal cega-me os olhos pestanejantes. Não se vê vivalma. Apenas uma matilha de cães excitados vagabundeia. (continua amanhã)

Desenho: Rui C. / texto: Porfírio Silva.

Publicado por Porfírio Silva em 03:01 PM | Comentários (0)

dezembro 04, 2003

Uma moralidade. (2/6)

Foi tudo muito brusco. A mulher de vermelho, afogueada, aparecida de um buraco qualquer, salta-me ao caminho pela esquerda. Esbaforida, corre contra o carro, grita-me qualquer coisa que não entendo (mas é de raiva), empurra o carro com uma só mão, não posso crer, o carro vira-se, estou de cabeça para baixo dentro do carro, a mulher grita "socorro! socorro! este malandro atropelou-me! estou desgraçada!". Desgraçada, ela?! Ora essa… (continua amanhã)



Desenho: Rui C. / texto: Porfírio Silva.
Pode ver/ler todos os capítulos já publicados na sua sequência natural. Como? Na coluna da esquerda, em TEMAS, clique em "Novela Gráfica".
Publicado por Porfírio Silva em 09:58 AM | Comentários (0)

dezembro 05, 2003

Uma moralidade. (3/6)


"Senhor guarda… eu não atropelei mulher nenhuma. Está no hospital? Mas foi ela que se atirou ao carro! Foi ela que me virou, como se eu fosse uma sardinha dentro da lata! Se eu estou a gozar? Mas como posso eu estar a gozar com uma coisa destas? Ela está muito ferida? Mas eu não fiz nada! Nada! Preso? Preso, como?!" (continua na terça-feira)



Desenho: Rui C. / texto: Porfírio Silva.
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Publicado por Porfírio Silva em 09:27 AM | Comentários (0)

dezembro 09, 2003

Uma moralidade. (4/6)


A única cela ocupada naquele piso (ou seria em toda a cadeia?) era a minha. Entre as sete e meia da manhã e as oito da noite ninguém disse nada, ninguém apareceu, o abandono total doía-me mais do que a fome e a sede. Apesar de vir de uma noite de borga, não consegui dormir o dia todo. Às oito da noite aparece um tipo (seria um guarda? mas estava vestido com um fato de treino ridículo, às riscas pretas e brancas, como uma zebra…) que me olhou sem uma expressão, sussurrou "até qualquer dia" e saiu. Deitei-me e acabei por adormecer. Sentia-me como um elefante doente deitado num quarto de hotel de quinta categoria. (continua amanhã, conclui depois de amanhã)


Desenho: Rui C. / texto: Porfírio Silva.
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Publicado por Porfírio Silva em 10:02 AM | Comentários (0)

dezembro 10, 2003

Uma moralidade. (5/6)

Acordei a meio da noite. Na cela em frente, acompanhada de dois matulões, a mulher que me atropelara, pouco vestida, bebia champanhe e dançava. Não estava nada com ar de doente. Donde viria a música? (conclui amanhã)



Desenho: Rui C. / texto: Porfírio Silva.
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Publicado por Porfírio Silva em 08:27 AM | Comentários (0)

dezembro 11, 2003

Uma moralidade. (6/6)

Na rua, enquanto os outros riam com a vingança ardilosa contra o descuido do automobilista, o cão mais velho lia para os outros uma passagem do Tratado sobre a Abstinência, que o filósofo Porfirio, nascido na Fenícia, escreveu no século III: "E, uma vez que isto se considera uma injustiça, que não se faça uso do leite, da lã, dos ovos, nem do mel. Porque do mesmo modo que é um delito tirar as roupas a uma pessoa, o mesmo acontece com o tosquiar de uma ovelha, pois a lã é a sua veste."(FIM)


Desenho: Rui C. / texto: Porfírio Silva.
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Publicado por Porfírio Silva em 09:34 AM | Comentários (0)

dezembro 22, 2003

As mulheres de Manara (agora, a BD)



Tal como "prometi" no postal endereçado ao Rui C., aqui se abre outro percurso: a Banda Desenhada. Que cruzamentos ensarilhados são estes que encontrarão ruelas tão dispersas? Os tempos dirão.
Milo Manara, desenhador, perdeu a arte de contar estórias e disfarça isso continuando a desenhar corpos de mulheres. Eu disse: corpos de mulheres, querendo com isso dizer que Manara perdeu a capacidade de olhar as mulheres na sua complexidade. Ora, um desenhador que deixa de saber ver o seu modelo, está perdido. (Estará?) Nos últimos anos, o que domina são os álbuns do género Clic: título de uma série cujo álibi é um dispositivo que (à distância, wireless) excita desbragadamente uma mulher em qualquer lugar e circunstância, contra a sua vontade, expondo-a ao ridículo. (Manara parece um tanto senil ao associar gozo sexual com ridículo, mas ele não está só, certamente.) A estratégia aqui é a da banal repetição (mais do mesmo), como em toda a pornografia que não sai do chão. Também há tentativas toscas de cobrir de papel celofane (falsos temas) meros corpos de fêmeas com as saias sempre aos saltos e as coxas sempre arrebitadas. Ainda nesses casos, o papel celofane (falsa cobertura) é apenas o embrulho para permitir que os álbuns saiam das prateleiras para adultos das livrarias. É o caso d' A Revolução (2000).
Contudo, as excepções são notáveis - e são elas que tornam Manara um case studie para a questão da fronteira entre erotismo sexuado,por um lado, e porno, por outro. Se ele só fizesse pornochachadas, nada haveria a interpretar. (Atenção: o meu ponto aqui não é moral, é estético: não quero ser enganado quando compro uma BD e não espero que me vendam um "filme" de mau gosto.) Mas como pode Manara, com o mesmo traço, fazer umas vezes do mais intediante e outras vezes do mais subtil e bonito? Alguma coisa Manara há-de ter, para ter tido cruzamentos tão importantes como com Fellini e Pratt.
Entre as excepções dos últimos anos, temos álbuns magníficos: Um Verão Índio (1987) com Pratt, Rever as Estrelas (1998) , A Metamorfose de Lúcio (1999). Como em toda a máquina de sonhos que funciona, aqui a estratégia já não é repetitiva, mas divergente. Outros mundos (im)possíveis, encruzilhadas improváveis mas desejantes. Continuam servidos - esses impossíveis - por belas mulheres (as célebres "mulheres de Manara"): mas elas aqui aparecem belas, de facto.
A pergunta permanece: porque pode Manara o sublime e o rasteiro?
Resposta provisória: pergunte ao seu corpo.
Mas isso é para a continuação desta história.
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Na imagem acima, reconstrução de uma cena de Um Verão Índio. Na imagem abaixo, cena de A Metamorfose de Lúcio.


Publicado por Porfírio Silva em 12:26 PM | Comentários (3)

janeiro 13, 2004

Corpos e mentes na BD

Este Sócrates, sendo o cão de um semi-deus, é um semi-cão: meio cão, meio filósofo. A sua filosofia consiste em nada fazer: quando esfomeado, come; quando sonolento, dorme. Segue o seu mestre para todo o lado, evitando assim tomar decisões. Sábios foram Sfar e Blain, que o pintaram como cão. Não fossem acusá-los de fazer política. Eu registo que um meio-deus pode, no espaço de tensão que irradia, dar ocasião a um meio-filósofo. Já não seria pouco. Porque, como mostra o cão Sócrates, uma mente rebuscada pode animar-se num corpo canino.


Joann SFAR (argumento) e Christophe BLAIN (desenhos), SOCRATE LE DEMI-CHIEN : Tomo 1 - Héraclès, na Dargaud, 2002 (retirada a cor do original)

Publicado por Porfírio Silva em 12:58 PM | Comentários (0)

janeiro 27, 2004

Corpos transfigurados (ainda a BD)

Enki Bilal nasceu a 7 de Outubro de 1951 em Belgrado, filho de mãe bósnia e pai checo (terá sido ele que pôs a correr que o pai era o antigo alfaiate do Marechal Tito?). Em 1960 parte para Paris, juntando-se ao seu pai no exílio eleito. (Sim, todos os exílios são escolhidos. Poderíamos sempre seguir a filosofia do semi-cão Sócrates, que vimos na anterior entrada sobre BD.) A partir dos anos 1970 escreve e desenha álbuns magníficos. Exemplos: O cruzeiro dos esquecidos, O barco de pedra, As falanges da ordem negra, A caçada. Em 1989 termina o seu primeiro filme (Bunker Palace Hotel). Em 1993, Frio Equador ganha um prémio literário (da revista Lire): é a primeira vez que a BD ganha no terreno dos géneros literários sem fronteiras. O seu álbum mais recente (32 de Dezembro) é o segundo volume de uma trilogia iniciada com O sono do monstro.
Bilal, nascido onde nasceu, junta na sua obra os pesadelos políticos da verdadeira história da Europa no século XX com os pesadelos da imaginação febril dos homens na sua loucura arrancada ao fundo de si mesmos. Bilal parece frequentemente desenhar o futuro, mas o que ele desenha efectivamente é o presente. Instrumento dessa fantasia política é a quebra das fronteiras dos corpos: os humanos com peças variáveis, espécies novas que se tornam interlocutores dos humanos, encontros e desencontros com dimensões só inauditas se pensarmos que elas estão no espaço fora das nossas mentes.
A meu ver, a transfiguração dos corpos é a ferramenta de Bilal para retratar o infeliz sucesso das nossas piores fantasias.
Publicado por Porfírio Silva em 01:57 PM | Comentários (1)

março 11, 2004

Bilal em filme, outra vez

Já aqui falámos antes de Enki Bilal, a propósito da sua magnífica Banda Desenhada metafísica. Reincidiu nas suas incursões em cinema. Vai aparecer um dia destes "Imortal", claramente inspirado numa série dos seus melhores álbuns. Os deuses querem procriar e isso exige certos caminhos. Para aqueles que pensavam que a coisa ficaria pelo fim das fronteiras entre humano, animal e máquina - contem agora com seres híbridos em que também entram os deuses. O sítio do filme é aqui . Obrigado ao Luís Miguel pela deixa.
Publicado por Porfírio Silva em 06:14 PM | Comentários (0)

novembro 29, 2004

Vieira da Silva

Ali na Fundação dedicada a ela e ao marido, ao Jardim das Amoreiras, uma magnífica exposição de Vieira da Silva, com obras que nem sempre estão à mão de ver. Esta que aqui se ilustra (jogo de xadrez) é uma das que lá moram por agora. Eu prefiro qualquer uma das "bibliotecas" (das que lá estão, a que está "em fogo"), mas não encontrei imagem a condizer. É de ir. Pode-se aproveitar para namorar nos bancos do jardim, antes ou depois: é sempre uma mais-valia. (Ontem, chovia: não deu muito jeito para isso).
Incidentalmente: a história dela e do marido (judeu, húngaro) mostra bem que país era este sob o governo de Salazar.

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Publicado por Porfírio Silva em 04:42 PM | Comentários (1)