fevereiro 29, 2004

Experimente-se. Olhe-a nos olhos.



"CORPUS - Visões do corpo na colecção Berardo" está em exibição no Centro Cultural de Belém até 14 de Março.
Umas das obras expostas é um da série de retratos fotografados por Thomas Ruff. Do texto do catálogo que se refere a esse retrato retira-se: «Tomando como seus modelos personagens cuja história não é conhecida do espectador, as imagens frontais e secas interpelam o espectador, paradoxalmente construindo um mistério em torno do retratado - seleccionado por motivos que, não sendo da estrita ordem do estético, nem da biografia, são opacos para o espectador.» (p. 172)
A questão, digo eu, pode ser a seguinte: porque há-de interpelar-nos um retrato de alguém que desconhecemos? Porque se torna intrigante para nós que ignoremos a história do retratado? Ou porque começamos a tentar sondar indícios de uma história? Ou porque começamos a pensar que talvez certos traços nos digam qualquer coisa (parece um pouco tonta... vem de um passado atribulado... está perturbada...)? Penso, para mim, que há uma razão singela: não podemos viver sem histórias. Mais precisamente: não podemos viver sem sermos rodeados de semelhantes que têm histórias de vida e cuja humanidade reside nessas histórias. E aquilo que mais nos pede que tenha uma história adequada é, precisamente, o rosto do nosso semelhante. O rosto do outro faz-nos esse apelo.
Sinto isso quando olho para um destes retratos. A questão que se me põe (e por isso isto faz parte desta história da máquina de Turing) é: poderíamos viver rodeados de falsas faces, de faces sem história? Poderíamos viver rodeados de robots que, consabidamente, não tivessem qualquer história de vida no nosso sentido do termo? A "cara" de um robot poderia constituir para nós uma face com apelo?
(A imagem é um retrato de Pia Stadtbäumer, fotografada por Thomas Ruff, com data de 1990)

Publicado por Porfírio Silva em 10:37 PM | Comentários (1)

março 01, 2004

O teu corpo é uma máquina.

O que eu vejo em David Cronenberg é também uma reflexão sobre os caminhos do corpo. Em Videodrome (já lá vão uns anitos) o corpo embrenha-se numa luta desesperada com o banal televisor doméstico. Em A Mosca, um corpo humano e um corpo não humano entram em confluência e a mente não pode ficar indiferente à sua base material (e, para essa questão, não chega sequer a ser muito importante se o corpo é ou não a única base da mente). Em O Festim Nu não há grande novidade: todos sabemos que as drogas fornecem ao corpo certas instruções que se desviam um pouco da relação habitual entre organismo e ambiente. Em M. Butterfly é-nos dado a ver que o que o corpo mostra ou oculta não é tudo o que há a mostrar ou a ocultar em nós: aquele "M." do título é ambíguo entre Mr. e Mrs. e isso passa-se com grande poesia e elevação. Em eXistenZ já não se brinca com mecanicismos ingénuos: o que é maquínico e o que é propriamente biológico estão já na mesma família. O mais recente Spider revela que se a nossa unidade de processamento central nos fornecer leituras intermitentes do mundo, o mundo para nós se torna realmente uma intermitência entre vários mundos - e não há objectividade que resista a isso (nem o espectador escapa à dúvida acerca de qual das histórias possíveis esteve a ver). A ideia, aqui, não é traçar um (mesmo que breve) percurso fílmico de Cronenberg. A ideia é apresentar o realizador Cronenberg como um filósofo do corpo, do corpo mutante: por dentro e por fora; na carne e nos neurónios; no jogo solitário com a transformação genética, tanto como no jogo social que usa diferencialmente os mecanismos de máscara; contra a máquina ou misturando-se com a máquina; entrando "de corpo e alma" na realidade virtual. Mas, claro, pode sempre ser válida a hipótese de que eu esteja a tresler. Proponho, então, a imagem abaixo. É de Crash (1999), do mesmo Cronenberg. Neste filme há carros, carros velozes, amantes de carros velozes, acidentes e as próteses que se lhes seguem, corpos, sexo, malucos por sexo em carros velozes... ou deveria antes dizer "malucos por sexo com carros velozes"? Não vejo, aí, contudo qualquer ponta de pornografia. Essa loucura por carros vemos facilmente nas nossas cidades. Próteses, parece que queremos poder dispor delas para tudo. Então, o que há de especial? O que Cronenberg nos propõe é o amor humano pela máquina. O desejo sexual pela máquina. O erotismo desta imagem de Crash diz tudo: este rasgão no carro acidentado é-nos claramente proposto como um sexo que se acaricia. E um automóvel nem sequer é um robot muito sofisticado. Tudo o que vês nesta imagem está apenas no teu olhar.
Publicado por Porfírio Silva em 03:07 PM | Comentários (0)

março 02, 2004

Corpos racionais mastigam-se melhor.

Visto o corpo pelo olhar da racionalidade, por que razão não há-de ele ser susceptível de partição, de decomposição em partes - talvez segundo um critério funcional, segundo a razão de ser de cada um dos seus subsistemas? Tal como num computador podemos, por exemplo, separar os dispositivos de comunicação com o exterior (teclado e monitor, nomeadamente) da unidade central de processamento e da memória - porque não haveremos de poder desconstruir o corpo, cada peça para seu lado, segundo o uso padrão que lhe conferimos? Quem diz desmontar, diz re-montar; partir/compor; descontruir/reconstruir. Isto se, como foi dito, virmos o corpo pelo lado da racionalidade. Porque não haveremos de fazer humanos segundo a receita de Cindy Sherman? Chegará essa receita a ser um algoritmo? Ou haverá qualquer coisa que falha numa leitura do corpo que vai só pela racionalidade, mesmo que ela seja tecnologicamente dotada?
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Cindy Sherman nasceu em New Jersey em 1954. Foi antes de qualquer outra coisa fotógrafa. Em muitas das suas obras ela é o seu próprio modelo. "Ela", quer dizer, transfigurada de muitas maneiras. Nos anos '90 do século passado fez uma série de "bonecas": entre elas a que se vê abaixo.


Cindy Sherman, Untitled # 250
Publicado por Porfírio Silva em 05:20 PM | Comentários (1)

março 03, 2004

Os possíveis possíveis e os possíveis impossíveis.

Jake&DinisChapman-tragicanatomies
Jake e Dinos Chapman, Tragic Anatomies (foto de)

O jogo dos possíveis do corpo tem hoje mais caminhos. Eles são em parte resultado do alargamento dos meios técnicos. Em parte motivados pelo cuidado com a qualidade de vida. Não creio, contudo, que esteja aí o ponto crucial. Antes, o miradouro de onde alcanço mais longe o sentido desses possíveis, que em delírio se ramificam, é o da degradação do corpo em conceito: a fisicalidade concreta do corpo desvanece-se face à abstracção "corpo". E, essa abstracção, é fácil pensar em manuseá-la, torcê-la, levá-la ao mecânico para revisão ou arranjo, embelezá-la, maquilhá-la. Vejo nos pesadelos dos irmãos Chapman um caminho para esse jogo dos possíveis. Mas há um tipo concreto de corpo cujos pesadelos não são deste continente. Esse tipo concreto de corpo é o corpo faminto. "Faminto" mesmo: fome e sede. O corpo de homens e mulheres para quem certos possíveis estão na zona dos pesadelos impossíveis. Cujo Éden não tem os mesmos riscos das "Anatomias Trágicas" dos Chapman. Nem todos escolhem o seu modo de participar no trágico. Porque estão dentro do corpo que concretamente lhes calhou em sorte.


Jake e Dinos Chapman, Zygotic Acceleration, biogenetic-de-sublimated Libidinal Model (foto de)
Publicado por Porfírio Silva em 02:35 PM | Comentários (0)

março 11, 2004

Corpos e máquinas. Réplicas.

Regressado da minha "viagem de estudo", pronto para retomar as minhas reflexões em linha entre corpos e máquinas, vejo que recebi por correio electrónico um comentário à minha entrada de 2 de Março passado. Passo a transcrevê-lo.
«Porfírio, sigo atentamente a tua deambulação pelas imagens do corpo que proliferam, como se vê, do cinema à fotografia, às instalações, etc. Também a mim a questão me tem ocupado, interpelado. Há, como sublinhas, uma dimensão no tratamento do corpo quer pela arte, quer pela reflexão no quadro das ciências ditas humanas, um lado supérfluo que me choca. É que, enquanto se des(cons)trói o corpo há corpos que têm fome, ou que estão condenados à morte porque a ciência e os seus fármacos não chegará até eles!
Há ainda essa racionalização do corpo que permite a sua des-articulação e re-articulação. Não sei porém, se aí impera a racionalidade ou se não se trata antes de uma via que promove a des-figuração como crise da representação e da comemoração até do humano enquanto ideal de beleza. Nestes corpo desmembrados há não só um retorno a uma fase pré narcísica, pré-comemorativa, mas ainda um atravessamento da pulsionalidade - fetichização de fragmentos, fixação de elementos protésicos. A debilidade e a plasticidade emergem a um tempo. O corpo torna-se dependente dessas suas próteses. O corpo é mais o espaço de incorporação das próteses do que um todo organizado, inviolável, auto-suficiente. Mesmo o paraíso do corpo - o Éden - é ironizado.
A perda do corpo apresenta uma dimensão trágica dado que ela é sobretudo a perda duma certa inocência sobre o corpo, de uma imagem (narcísica) do corpo. Ou será, muito simplesmente, o cumprimento do mito, a sua fatalidade, o encarar a própria morte?
Com um abraço, Maria Augusta.»
Digo eu: concordo contigo que a operação sobre o corpo já vai muito mais longe do que aquilo que resulta directamente da racionalização. Mas, até ver, ainda continuo inclinado a pensar que esses demónios foram libertados racionalmente, que a raiz das operações fragmentadoras começou por assentar numa legitimação racional. Mesmo que, entretanto, o esquema racionalista tenha deixado de ser necessário. O problema da hiper-racionalidade acaba muitas vezes por ser que tem a perna curta: indica o caminho mas depois fica sempre para trás dos que correm a seguir o que o seu dedo aponta. Digo eu.
Publicado por Porfírio Silva em 06:12 PM | Comentários (0)

março 12, 2004

Cavar sentidos no corpo de carne

Palimpsesto (s.m.) : papiro ou pergaminho cujo texto primitivo foi raspado, para dar lugar a outro. (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa)
Arnulf Rainer, um dos artistas do "accionismo vienense", pratica uma espécie de palimpsesto com as suas máscaras mortuárias: pinta sobre elas. Mas «Rainer nunca pinta para recobrir a pintura, mas antes para a clarificar na sua intencionalidade. Neste sentido, nada apaga e, simultaneamente, cobre para procurar a génese».(1) Inscrevendo as minhas vidas nas tuas vidas, faço uma outra espécie de palimpsesto: inscrevo sentidos em vida e espero que o teu sentido esclareça o meu sentido, que o teu sentido seja gerador do meu sentido (e inversamente).
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(1) Carlos Vidal, O corpo e a forma. Dois conceitos, o mesmo tema. Cindy Sherman, Arnulf Rainer, Porto, Mimesis, 2003, p. 39


Arnulf Rainer, Cadaveri IV, 1980
Publicado por Porfírio Silva em 01:45 AM | Comentários (0)

março 16, 2004

O rosto do robot


A nova robótica trata de cumprir as promessas que a Inteligência Artificial fez e não honrou. Essa é uma parte da história da máquina de Turing (que demora, mas não esquece). Mas eu só acredito quando a Valérie (à esquerda) me parecer tão credível como a "rapariga com vestido escuro" (1951) de Lucien Freud (abaixo). E assim interrompo, de momento, esta série sobre corpos e máquinas.

Publicado por Porfírio Silva em 03:38 PM | Comentários (0)

maio 26, 2004

Imagens artificiais

As "tartarugas" mecânicas de Grey Walter (fim da década de 1940) foram dos mais notáveis antecessores da actual "nova robótica". Em 1953, Pierre de Latil (em La Pensée Artificielle) publica esta fotografia de Grey Walter com a mulher e o filho e uma das suas "tartarugas mecânicas", com a seguinte legenda: Ce couple a deux enfants dont un électronique. Vêm de longe, os abusos de linguagem nas ciências do artificial.
(Esta posta vai dedicada ao meu Amigo JPS.)
GreyWalter2.jpg
Publicado por Porfírio Silva em 09:39 AM | Comentários (0)

maio 28, 2004

Uma questão sobre máquinas e humanos

Céline Lafontaine, em L'Empire cybernétique, diz (lendo A crise da cultura, de Hannah Arendt) que a perspectiva de criar máquinas que ultrapassam em capacidade de entendimento o humano supõe um descentramento completo do sujeito. Não li esse trabalho de Arendt e tenho dúvidas de que ela tenha falado exactamente nesses termos. De todo modo, há algo muito mais perturbador do que termos máquinas que calculam melhor do que nós. É haver máquinas cujo processo de construção foi lançado por nós e que, no entanto, "evoluem" de tal forma que nós deixamos de as entender. Isso passa-se, por exemplo, com máquinas cujo sistema de controlo são redes neuronais que foram objecto de um processo de evolução artificial (por exemplo, com algoritmos genéticos). Em muitos desses casos o resultado é opaco para os próprios "pais" da máquina (vêem o que ela faz mas não sabem exactamente como ela o faz). Isso é relativamente novo na história das relações entre humanos e máquinas. Contudo, de outro ponto de vista, isso pode não ser assim tão relevante: compreendemos nós os "mecanismos" de funcionamento dos nossos filhos?
Publicado por Porfírio Silva em 05:49 PM | Comentários (0)

junho 07, 2004

Máquinas e literatura

Estive no timshel a tentar deixar um comentário na entrada de ontem com o título "O sentimento de si". Não principalmente por ela remeter para este blogue. Mas sim porque a questão que ela coloca será directamente comentada amanhã mesmo, no próximo episódio da "pequena história da máquina de Turing". O sistema de comentários dele trancou-me a perna e eu não pude entrar. Por isso vim aqui deixar o recado.
Publicado por Porfírio Silva em 04:09 PM | Comentários (0)