Eu não tenho religião. Nem sou ateu. Sou daqueles que dizem "não sei". E acrescento: não acredito em nenhuma via racional (científica ou filosófica) para determinar se Deus existe. Se isso fosse possível, a questão de Deus seria uma questão de conhecimento (empírico ou conceptual). Nesse caso, não seria uma questão propriamente religiosa. Não acredito que seja possível demonstar nem a existência nem a inexistência de Deus: para acreditar é preciso "ser tocado". Eu não "estou" nessa condição. Já fui católico, militante a sério, durante anos. Agora não tenho fé. Nem contrafé. O fenómeno religioso é, para mim, fundamentalmente um fenómeno social. As pessoas sentem-se "tocadas" por razões sociais (ou psicossociais). Mas isso, só por si, não me basta para criticar a religião. Nem para a aplaudir. Assim sendo, olho para as práticas religiosas (e para o pensar religioso) pelo que eu entenda que elas valem independentemente da religião. Como há ideias políticas com que concordo, outras de que discordo mas respeito, outras de que discordo e combato ferozmente. Não há, assim, nada de estranho em andar à cata de blogues religiosos. Provavelmente, alguns dos que aqui mencionarei não se revêem na categoria. Considerei assim aqueles que assim se declaram explicitamente, mas também alguns que (com maior ou menor assiduidade) tratam temas ou usam textos ou apontam para referências religiosas. Em coerência (penso eu) com o que disse antes, gosto dos blogues religiosos que podem dizer-me alguma coisa apesar do meu agnosticismo. Não espero, contudo, que me convertam. Até porque as conversões não se esperam.
Num padrão de excelência dentro desta categoria, coloco:
A Bordo ,
Midrash ,
Terra da Alegria (colectivo) ,
timshel. Proporcionam uma reflexão sobre a vida e as pessoas que nada perde pelas tintas religiosas. Incluo ainda a
Voz do Deserto, embora certas entradas sejam por vezes pouco transparentes para os "não
iniciados". O
Guia dos Perplexos também proporciona reflexão séria, que pode perfeitamente compreender-se fora do rótulo "religioso". Colocaria ainda
No Adro neste grupo seleccionado.
Sem querer ser ofensivo, alguns dos blogues que coloco numa segunda categoria parecem-me um tanto "paroquiais" (no mau sentido): um tanto fechados sobre si mesmos, um tanto tão-apenas-contemplativos, um tanto parece-que-certos-pensam-que-a-palavra-se-impõe-por-si-mesma. Embora, é claro, tenham todo o direito de ser exactamente assim. Por exemplo:
Palavras de Jesus (tem música),
Fala(r) com Deus.
Outros, pura e simplesmente têm uma função instrumental de "criar comunidade" (coisa que não se pode criticar):
Grupo João Cidade ,
Uma Igreja na Cidade e para a Cidade.
O
Palavras que voam... considera-se profeta, o que daria muito que falar, mas deixemos isso que esta posta já vai longa. (É que "ser profeta" não quer, só por si, dizer grande coisa: historicamente, houve profetas que diziam o que o poder queria, profetas que contestavam o poder, profetas individualistas e profetas que eram "grupos de pressão" - e por aí adiante.)
Um que, dentro desta categoria, representa (por enquanto?) a tendência minimalista :
VizinhoDoMar.
Ainda, dois que não me suscitam comentários especiais, a não ser por características editoriais: o
Religionline irrita-me pela simples razão de gostar de transcrever textos em várias línguas. (Eu não sou censor, mas tenho uma certa preferência pela pureza da blogosfera portuguesa. Manias.) Em
Os Animais Evangélicos (outro colectivo), além da qualidade dos textos fiquei bem impressionado com o grafismo.
Um exemplo de um debate recente que passou por alguns destes blogues e que ilustra as razões do meu interesse por esta "comunidade": o significado de Fátima. Um cheirinho desse debate passou no
Bengelsdorff, no
Guia dos Perplexos , outra vez no
Bengelsdorff e outra vez no
Guia dos Perplexos e ainda no
Terra da Alegria pela voz do editor do
A Bordo .
Para terminar, uma ligação que encontrei num blogue religioso:
Diário de uns ateus. Viva a tolerância, esteja ela onde estiver (este blogue "ateu" também tem ligações a blogues religiosos - e também parece alimentar um certo "espírito de capela" - ou engano-me?).
Costumo fazer um apelo: se acha que deixei de fora algum blogue importante nesta categoria, faça o favor de me avisar. Neste caso, embora repita o apelo, esclareço: deixei de fora, propositadamente, muitos blogues que, tendo a pretensão de serem religiosos, mais não são do que plataformas reaccionárias (por vezes declaradamente fascistas) que usam a religião como cobertor - o que, historicamente, nem é grande novidade. Para esses não dou
links...
(Esta série "Hipertexto" é publicada simultaneamente na Turing Machine e na Abébia Vadia.)