novembro 08, 2003
DREYFUS E MAIS ALÉM
Robert O. Paxton publicou, na já longínqua edição de 27 de Fevereiro de 1986 da The New York Review of Books, uma recensão da edição em inglês de um livro de Jean-Denis Bredin sobre o famoso caso Dreyfus. Grande parte do que se segue são excertos desse comentário ao livro.
1. Um resumo dos factos: as falsificações existem. «Um dia em 1894 uma mulher-a-dias da embaixada alemã em Paris, que trabalha para a espionagem francesa, encontra no caixote do lixo do adido militar um papel indicando que um oficial francês está a passar segredos militares aos alemães. O capitão Alfred Dreyfus, único oficial judeu no Estado-maior francês, é injustamente acusado e oficiais superiores da espionagem fazem a acusação vingar forjando mais documentos. Adicionando ilegalidade à falsificação, mostram-nos secretamente ao tribunal militar, mas escondem-nos da defesa. Como o herói apodrece na Ilha do Diabo, apenas a sua esposa, o seu irmão, e alguns outsiders mantêm a crença na sua inocência. Os seus esforços para descobrir a verdade e persuadir outros da inocência do herói, passam-se em anos de voltas e reviravoltas. (...) Finalmente, após doze anos de luta, a justiça triunfa. O tribunal de recurso anula as duas condenações do tribunal militar.»
2. As conspirações são muito manhosas. «[O livro] está admiravelmente livre das teorias barrocas da conspiração que proliferam luxuriantemente em ambos os lados deste caso. Recusa supor que todos os mistérios devem ser solúveis por construção lógica. Está pronto a admitir que muitos detalhes continuam por esclarecer, mesmo após estudo aturado do dossier. (...)»
3. Liberdade individual e liberdades cívicas. «O autor teve inevitavelmente um interesse especial pelos dois advogados incompatíveis de Dreyfus. O velho e tradicionalista Edgar Demange quis arguir o caso em termos estritamente técnicos, limitar-se a suscitar uma dúvida salvadora, aplacar o exército, e aproveitar os compromissos propostos pelo governo. Colidiu com o jovem e flamejante Fernand Labori, que estava apaixonadamente empenhado em discutir o caso em termos de liberdades civis em sentido lato e em lutar pela vitória total. Dreyfus e sua família preferiram Demange. (...) Este homem austero e recatado, que queria apenas ser deixado só para viver a sua vida de patriotismo e dever, decepcionou os seus apoiantes mais militantes que desejavam uma cruzada. (...)» Mas, dizemos nós, o problema é que nem todos os exercícios de cidadania podem ser desempenhados de forma recatada ? e a tentativa de assassinato cívico de um líder político não se trava na secretaria.
4. A justiça e a política não são como a água e o azeite. «O caso Dreyfus ocorreu num momento muito particular do desenvolvimento da política de massas (...). Demagogos através de toda a Europa experimentaram, nos anos 1880 e 1890, o anti-semitismo e o nacionalismo como a cola de um novo conservadorismo de massas. Tiveram sucesso considerável em separar uma parte da classe trabalhadora do socialismo. Mais de 39 por cento dos subscritores do "memorial a Henry," um fundo que o insolentemente anti-semita jornalista Edouard Drumont recolheu para apoiar a viúva do major Henry, o falsificador que estivera na origem do caso, após o seu suicídio, foram trabalhadores ou artesãos, que se juntaram com padres, oficiais e a pequena aristocracia rural para dar uns tostões e fazerem umas provocações.»
5. Convém não esquecer as lições da história. «[O autor] tem o equilíbrio para ver o caso de Dreyfus como mais do que um marco na história do anti-semitismo moderno. (...) A lealdade de grupo de um oficialato sitiado e a famosa justificação que Charles Maurras fez dos actos do major Henry como "falsificação patriótica", certamente a defesa mais seca da raison d'état alguma vez escrita, não tem uma conexão necessária com o anti-semitismo. Há perigos em todos os estados modernos (...).»
6. Do século XIX para o século XXI. Nesta nossa democracia, tantas vezes se toma quase como insulto ser ?um homem de partido?. Mas é isso que permite que, em determinado momentos, saibamos com que opções e biografias concretas contamos. Contrariamente a certos providenciais instantâneos, que de repente se apresentam com as credenciais da falta de passado partidário, nós sabemos de onde vêem certos homens e mulheres porque são ?de partido? e porque os partidos servem também (embora sem exclusivo) para estruturar personalidades representativas com profundidade, que sejam ?marcos? no terreno público e forneçam à comunidade referenciais devidamente identificados e escrutinados anos a fio.
Houve-se muito agora o slogan ?os políticos são iguais aos outros?. Ora, os políticos não são iguais aos outros. Os privilégios e responsabilidades acrescidas dos políticos devem ser proporcionadas às necessidades do bem comum. Mas nenhuma sociedade é suficientemente rica para se permitir destruir os seus recursos escassos. E os bons políticos são recursos escassos, em toda a parte. Os políticos bem preparados, experientes, honestos, escrutinados ao longo de anos ? são recursos escassos e vitais. A democracia não pode dar-se ao luxo de os destruir levianamente e sem motivo, abusando da fragilidade imensa da credibilidade pessoal. Ignorá-lo, em nome de um igualitarismo puramente abstracto, a coberto da tentação de ser agradável ao maior número, é uma irresponsabilidade que não deveria cometer-se.
Pior ainda quando, na mesma maré, se esquece que a demagogia em nome das vítimas é criminosa. E se ela visar, conscientemente ou por mera leviandade, os mecanismos que no concreto viabilizam a democracia, essa demagogia precisa ser combatida, sem tergiversação e sem medo. Embora o populismo e a facilidade tenham a boca larga e estejam sempre prontos a engolir-nos ? e possam mesmo ensaiar a tentativa de limitar o direito à opinião livre, por formas capciosas disfarçadas de moralismo de qualquer obediência.
Publicado por Porfírio Silva em
05:50 PM
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novembro 10, 2003
Damásio na imprensa portuguesa (ou as políticas da ciência)
António Damásio (AD) publicou recentemente em versão portuguesa mais um dos seus livros de grande divulgação (no mesmo ano da publicação do original em inglês, o que não é novidade absoluta, mas é sempre de assinalar e saudar): Ao Encontro de Espinosa - As Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir (Publicações Europa-América). A obra merece uma análise, que faremos noutro sítio. Aqui, daremos apenas algumas notas sobre a cobertura desse lançamento pela imprensa.
1. A primeira constatação, óbvia, é sobre o volume: com o impulso da presença do Autor em Portugal, foram publicados materiais, num intervalo de muito poucos dias, nos seguintes órgãos de comunicação social escrita, com os seguintes títulos (trata-se quase sempre de entrevista ao Autor):
Diário de Notícias: "Neurobiologia dará mais consciência à humanidade" (31.Out);
Euronotícias: "As pessoas querem tomar Prozac" (31.Out);
O Independente: "Estamos constantemente a ser manipulados" (31.Out);
O Semanário: um dossiê intitulado "O retorno do obscurantismo" (31.Out);
Jornal de Notícias: "Há o aspecto natural que nos leva à inveja e racismo" (31.Out);
Público: "Os sentimentos confundem-se com o princípio da consciência" (2.Nov);
A Capital: "A neurobiologia pode reduzir o sofrimento" (5.Nov);
Visão: "O Homem, essa fábrica de emoções" (30.Out), "O mestre das emoções" (6.Nov);
Focus: "Não me estou a intrometer no território dos poetas".
(Não excluo que outras peças me tenham escapado, durante a semana que andei pelo Novo Mundo. Obrigado à M.M. pelos recortes dos jornais.)
2. A segunda constatação, talvez menos óbvia, é sobre os destaques (títulos): têm, em muitos casos, pouco a ver com o que é mais importante cientificamente na obra de AD. AD tem dado contributos relevantes à compreensão do que é o humano, a partir da neurobiologia. Lateralmente, acrescenta coisas mais vagas, menos fundadas e/ou menos originais sobre aspectos relacionados mas não centrais. Em quase todas as entrevistas publicadas há um elemento (normalmente, aparece depois das perguntas sérias) de concessão à actualidade e ao imediatismo. Por exemplo, a entrevista de Fernando Esteves (Independente), que não deixa de ter interesse, não resiste a puxar o processo da Casa Pia para o subtítulo. Em certos trechos, é como se entrevistassem Galileo Galilei e ele respondesse: "Já leram a peça que o Brecht escreveu sobre mim?". Mas, isso até acaba por ser pouco importante, porque há matéria muito interessante nas peças em análise. Aqui, quero dar particular atenção às perguntas, mais até do que às respostas.
3. A melhor entrevista é a de André Barata (Público). As perguntas são relevantes, informadas, questionantes - e não declarações admirativas do brilho do génio. Confrontam AD com alguns limites da sua proposta. Introduzem um elemento de diálogo cosmopolita: pergunta-se (e obtém-se uma resposta substancial) sobre a polémica iniciada no New York Times pelo filósofo Colin McGinn. Esta entrevista é um verdadeiro princípio de debate. Por vezes, o entrevistador parece não ficar muito convencido com as respostas obtidas (bravo!).
Em certos casos, talvez compreensivelmente, as teses de AD que roçam mais a actualidade política são objecto de leituras demasiado imediatas. Por exemplo, Carina Carvalho (Euronotícias), pergunta pelo Iraque, pelas organizações internacionais, pela liberdade de expressão. Compreende-se, em parte porque AD valorizou particularmente na versão portuguesa (com um subtítulo diferente do original inglês) as suas supostas novidades acerca das emoções sociais. Nesta entrevista, AD dá um toque da sua ingenuidade, quando diz que a maior adversidade que hoje se coloca à ciência é "a limitação dos meios para a investigação" e que "desde que haja fundos para a investigação não há qualquer adversidade" - embora acautele: "aquilo que realmente é importante é que o público (...) esteja envolvido na forma como a ciência decorre". A entrevista estava a acabar, mas foi pena não se ter aproveitado esta deixa para questionar AD sobre as "guerras da ciência" à portuguesa.
Filomena Naves (Diário de Notícias) parece ter percebido (ou pelo menos intuído) a ingenuidade de AD no tocante às emoções sociais, quando pergunta: "Como é possível então à pequena parte da humanidade que é rica desenvolver a compaixão social, quando mais de metade da população mundial vive abaixo do limiar da pobreza?" Boa questão, e o grande problema é que AD parece pensar que a sua teoria neurobiológica pode responder a isso.
Eduarda Ferreira (Jornal de Notícias) faz uma pergunta muito interessante a AD: "Com base nos pressupostos que apresenta no seu livro, a Humanidade só poderá caminhar para o bem-estar e para a felicidade, para uma situação positiva, precisamente porque estará condicionada para essa auto-regulação. É isso?" Resposta: "Não, não é. A sociedade pode caminhar no bom ou no mau sentido. (...)" Boa pergunta, Eduarda Ferreira: esse equívoco não é seu, é dele - e esse problema é central para compreender o defeito da teoria damasiana.
Paula Santos Ferreira (A Capital) começa pela grande questão: se as emoções e sentimentos são biológicos, não são exclusivos do ser humano, isso não os desqualifica? Nas palavras dela "não está a destruir a magia e a desmistificar a crença?" O início da resposta é um magnífico sumário das ambiguidades de AD: "é talvez um desmistificar da crença, mas não se perde a magia." E a entrevistadora ainda insistirá no alcance da explicação biológica, que é de facto a chave para uma leitura de AD.
Já em resposta directa a uma pergunta da Visão, AD mostra outro lance do problema das suas teses: "Estamos completamente à mercê da natureza".
Digo eu: muitos dos entrevistadores tiveram ou uma compreensão clara do que pode ser problemático na propostas de AD, ou pelo menos "um vislumbre" disso. Trabalho útil a apelar à leitura da obra, portanto.
4. Claro, já não se pede à imprensa generalista coisas como detectar diferenças pequenas mas significativas entre o original em inglês e a versão portuguesa (que é do próprio Autor, o que torna as variantes merecedoras de atenção). Por exemplo, logo a abrir o capítulo 5 (Corpo, Cérebro e Mente), depois de explicitar algumas das questões atinentes ao chamado "problema mente-corpo", AD diz em português que "poucas respostas há que satisfaçam a maioria daqueles que reflectem sobre tais perguntas" (p. 207). Uma verificação vaga e genérica. Mas, nesse mesmo sítio, na versão em inglês da Harcourt o mesmo AD diz algo de muito mais substancial: "general agreement is confined to the notion that mind is a process, not a thing" (p. 183) A variação não é menor e deve ter uma boa explicação. Estou em crer que o objectivo de AD não seja evitar chocar aqueles que veriam na frase "disfarçada" uma confissão demasiado directa de monismo materialista. Se fosse esse o caso, ele não seria o primeiro: muitos cientistas temem as reacções vulgares às suas ideias mais ousadas. O que seria chocante seria outra coisa, se fosse esse o caso aqui: Damásio julgaria que o público "esclarecido" do mundo anglo-saxónico suporta bem esse materialismo, enquanto o sensível público português poderia horrorizar-se se tivesse, condensada numa única frase, uma ideia que obviamente está omnipresente em todos os seus livros de grande divulgação. Daí que tenha todo o interesse a seguinte pergunta da Visão: "[tal como Espinosa e Descartes], também tem cuidado com o que escreve?" (querendo dizer: "também esconde parcialmente o que pensa?").
5. Contudo, há um caso muito especial nesta "revista de imprensa": o tratamento dado pelo Semanário. A entrevista é hilariante. Numas perguntas iniciais parece haver algum interesse sobre qualquer coisa relacionada com a obra, mas as respostas de AD parecem ter como conteúdo exclusivo a mensagem "vossa mercê não percebeu nada do que eu escrevi" (leitura benévola). Depois, as perguntas passam para o que o título da peça indicia: "o outro lado de Damásio": livros, filmes, música, etc.. Nada, pois, que tenha a ver com a neurobiologia. Dá a ideia que AD já sabia que a introdução à entrevista conteria "mimos" como "esquivou-se a falar do seu sistema". Confesso que gostava de ouvir a gravação da entrevista, o tom de voz talvez seja esclarecedor. Sem tentar uma explicação, limito-me aqui a mencionar as outras peças deste dossiê.
Há um texto (longo) de Lília Marcos que parece pretender resumir o livro: tenho dúvidas sobre a fidelidade de alguns pontos da recensão, mas reconheço que incarna um serviço que outros jornais não prestaram. Parece respirar-se alguma ironia contida na apresentação, mas isso não é criticável.
A outra peça - que abre o dossiê, intitulado "O retorno do obscurantismo" - não é assinada (tanto quanto eu posso perceber) e versa sobre a conferência organizada pela Ordem dos Advogados onde AD orou. Esta peça, sim, é digna de atenção! O título é Os fundamentos biológicos do mal ou o regresso da Novíssima Direita. Apenas algumas citações:
§ 2 - "Ao obscurantismo religioso (...) AD opõe o obscurantismo da evolução e o dogma da origem neurofisiológica do mal, fazendo apelo a que o Direito nas sociedades contemporâneas consagre a maldade definitiva dos lesionados."
§ 3 - "a proposta é mais que uma ousadia, fazendo lembrar um país provinciano que vai nas modas que, de dois em dois anos, alguns estrangeirados lhe trazem. AD nem é o primeiro, mas, como outros, acaba por servir uma opção ideológica do bastonário, como António Borges serve para o provincianismo da agenda económica de Durão Barroso."
§ 7 - "Para AD o homem é emoção e Descartes passa a não constar dos livros da escola."
§ 8 - "Tentar ler a realidade através da ciência passou a ser um absurdo que a epistemologia da ciência já há muito desmontou. Mas não falta quem faça afirmações definitivas, sobretudo quando se vem da América à terra que o viu nascer."
§ 9 - "as hipóteses de AD servem, vinte anos depois, de bases fisiológicas da «Novíssima Direita»".
§ 11 - "AD, ao contestar a esquerda e Descartes, não tinha ido mais longe que o «amor» no cristianismo. Agora, proclama um novo humanismo, o humanismo de um homem mal formatado na evolução e cujo erro o neurocirurgião poderá corrigir."
Que não se fique por isto: leia-se o original integral, que é "notável"!
O que é pena é que há neste texto elementos para um verdadeiro debate, mas as confusões são tantas que esta peça se torna imprestável para qualquer tentativa de ver mais claro. Porque será que um jornal que dedicou tanto esforço a questionar AD não teve o cuidado de tratar os assuntos sem ser à pedrada?
6. Neste, como em muitos outros casos, as ideias contam. As ideologias não desapareceram, nem vão desaparecer. Esquerda e direita ainda existem e ainda são diferentes. Mas as fronteiras são cada vez mais caprichosas. Muitos debates continuam a travar-se na fronteira esquerda/direita. Mas outros travam-se em fronteiras dentro da própria direita. E outros travam-se em fronteiras dentro da própria esquerda. Nos debates que se travam dentro da direita, a esquerda pode estar a favor de uma direita contra outras (exemplo: direita religiosa ou "moralista" vs. direita laica). Nos debates que se travam dentro da esquerda, a direita pode estar a favor de uma esquerda contra as outras (exemplo: a direita tem tendência a gostar dos economistas da esquerda que tentam mover-se no quadro neoclássico). E, noutros casos, a confusão é total (por exemplo, sempre houve esquerda e direita mais proteccionista em termos de comércio internacional, como sempre houve esquerda e direita mais liberalizadora nesse aspecto). É precisamente por isso que parece um pouco anacrónico situar hoje o debate do determinismo como um debate entre direita e esquerda. Isso pode ser tranquilizador para alguns: pouparia a maçada de pensar, bastaria seguir um dos rebanhos. Mas as coisas estão hoje em dia um pouco mais complexas: o debate do determinismo passa, em grande medida, por dentro da própria esquerda (e também talvez por dentro da própria direita), como passa por dentro da própria esquerda e da própria direita o debate acerca do papel da ciência na sociedade. Apontar o dedo e acusar "vem aí a direita determinista", é pouco esclarecedor, não é um argumento, é uma cegueira. É um novo "ensaio sobre a cegueira".
Como assinala Richard Lee ("O destino das «duas culturas»: mais uma salva de tiros nas «guerras da ciência»", in Boaventura Sousa Santos (org.), Conhecimento Prudente para uma Vida Decente, Afrontamento, pp. 81-98), as guerras da ciência são encaradas por alguns intérpretes como uma luta no interior da esquerda política: a "velha esquerda", que vê a ciência como instrumento de luta pela justiça social; a "esquerda cultural", para quem a ciência é um poder que pode ser opressor.
A imagem a preto e branco está desfocada. Alguma subtileza recomenda-se.

Rembrandt, A Lição de Anatomia do Dr. Tulp, 1632
(comentário pp. 244-247 de
Ao Encontro de Espinosa)
Publicado por Porfírio Silva em
11:53 AM
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novembro 17, 2003
Ainda as guerras da "ciência"?
Requentadas, continuam entre nós as "guerras da ciência". Dois protagonistas maiores: Boaventura Sousa Santos (BSS) e António Manuel Baptista (AMB). O último julga ter por missão defender a ciência das teorias sociológicas do primeiro. BSS tem uma certa tendência para pensar que a ciência é literatura. De há uns tempos para cá que ando com vontade de atacar a retórica de BSS, mas AMB não deixa espaço nenhum: porque é um provocador, um praticante do estilo panfletário que julga ser seu dever defender a santidade da ciência. Assusto-me só de pensar que, criticando BSS, possa parecer que defendo AMB. BSS organizou um volume com contribuições variadas acerca dos aspectos sérios desta polémica: Um Conhecimento Prudente para uma Vida Decente (Afrontamento). Muitos textos apoiam aspectos das teses de BSS, outros mostram mais os seus limites. Mas é um volume mais interessante do que eu estava à espera. Que tem argumentos. Alguns incorrectos, mas que exigem análise e resposta. AMB não arranjou nada melhor do que responder com um texto que só posso considerar insultuoso. Foi publicado no suplemento Actual do Expresso de 15/Nov. Duas páginas completas (!) intituladas "Conversa de pássaros". Começa longamente por emparelhar (embora obliquamente) BSS e Lysenko, da ex-URSS. Não é possível explicar aqui o que significa Lysenko para a história da ciência, mas tal "recurso estilístico" neste contexto está abaixo de uma brincadeira de mau gosto. Diz que BSS ter ido a Belém com directores de institutos científicos é "como se soubéssemos que um músico «pimba» (sem ofensa) tinha ido com Sequeira e Coste e Mª João Pires". O "sem ofensa" deve ser para os músicos pimba, suponho... Diz que uma forma de desacreditar a ciência é pessoas como BSS considerarem-se cientistas. Diz que "a prosa do professor de sociologia de Coimbra, tão fluentemente rara de argumentos, se adorna e recreia (como dizem os aficionados tauromáquicos) em páginas e páginas". E diz outras coisas - mas não dá argumentos. Só berra. É uma pena. Cientistas destes é que prejudicam a imagem da ciência. Aliás, um fanático mal-educado prejudica qualquer causa, por muito nobre que ela seja.
Dedico a AMB, que deve julgar-se o cientista modelo em defesa da sua dama, o seguinte excerto de O que é uma lei física?, de Richard Feynman, prémio Nobel da Física (Gradiva):
«Para aqueles que insistem em que a única coisa importante é a concordância da teoria com a experiência, gostaria de imaginar uma discussão entre um astrónomo maia e um seu discípulo. Os Maias eram capazes de calcular com grande precisão as efemérides, por exemplo, os eclipses, a posição da Lua no céu, a posição de Vénus, etc. Faziam tudo com o auxílio da aritmética. Contavam um dado número, subtraíam outros números, etc. Não discutiam o que era a Lua, não questionavam o que se passava. Só calculavam a ocorrência de um eclipse ou da fase de lua cheia, etc. Suponhamos que um jovem ia ao astrónomo e lhe dizia: "Tenho uma ideia. Talvez esses objectos andem à roda, talvez existam lá em cima bolas feitas de algo semelhante a pedra e possamos calcular os respectivos movimentos de um modo completamente diferente do da previsão simples do seu aparecimento no céu." "Sim", diz o astrónomo, "e com que precisão consegue prever os eclipses?". Resposta do jovem: "Ainda não desenvolvi a coisa a esse ponto." Então replica o astrónomo: "Bem, consigo calcular eclipses com muito maior exactidão do que o seu modelo, pelo que a sua ideia não é muito relevante. O esquema matemático é certamente melhor." Quando alguém nos surge com uma ideia e diz "suponhamos que o mundo é desta maneira", existe uma tendência muito grande para lhe respondermos: "Qual é a resposta para este e para aquele problema?". Ele diz: "Ainda não desenvolvi a coisa a esse ponto." E os outros:"Pois bem, nós obtemos respostas muito precisas." O problema consiste, portanto, em saber se devemos preocupar-nos ou não com filosofias por detrás das ideias.» (pp. 217-218)
Publicado por Porfírio Silva em
11:17 PM
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novembro 19, 2003
Debate sobre a Vida, Debate Democrático
1. A Comissão Europeia apresentou (9.Jul.03) uma proposta relativa ao financiamento de investigação com células estaminais provenientes de embriões humanos. O Público - Última hora (19.Nov às 13h24) noticia que "O Parlamento Europeu defendeu hoje, em Estrasburgo, o financiamento comunitário à investigação das células estaminais em embriões humanos, com vista a encontrar soluções para doenças como o Parkinson e Alzheimer."
2. Miguel Ramalho Santos (1) dá-nos em poucas palavras o conceito científico de base: "A maioria das células de um organismo é especializada para desempenhar funções essenciais como digestão, percepção do ambiente ou locomoção. As células estaminais são raras e indiferenciadas, e tanto podem auto-renovar-se como dar origem a descendência diferenciada que, por sua vez, irá desempenhar essas funções essenciais. Assim, as células estaminais são células de reserva que contribuem para reabastecer o organismo durante a perda fisiológica de células diferenciadas ou em casos de perda aguda de células devido a lesões." (pp.473)
3. A Comissão Europeia traça assim o alcance deste tipo de investigação: "A investigação sobre células estaminais é um domínio promissor da biotecnologia para a saúde humana, abrindo perspectivas para o desenvolvimento de novos métodos de reparação ou substituição de células ou tecidos danificados por lesões ou doenças e de tratamento de doenças crónicas graves, como as doenças de Parkinson e de Alzheimer, bem como de doenças mais comuns como a diabetes. Espera-se que a investigação sobre células estaminais proporcione uma melhor compreensão sobre a vida humana e o desenvolvimento das doenças. Esta investigação resultará no desenvolvimento de medicamentos mais seguros e eficazes. Todavia, essa investigação coloca questões éticas quando as células estaminais são derivadas de embriões humanos supranumerários."(2)
"Embriões humanos supranumerários"? O que é isso? Trata-se, em geral, de embriões in vitro que resultaram, em laboratório, de técnicas de reprodução medicamente assistida - mas que acabaram por não ser utilizados. Ora, a utilização desses embriões na investigação levanta, claro, questões éticas.
4. É precisamente sobre essas questões éticas que o filósofo belga Michel Ghins (Professor de Filosofia na Universidade Católica de Louvain) publica uma nota interessante no Le Soir Forum, de Bruxelas (5.Set.03), sob o título La recherche destructrice d'embryons sape la démocratie. O essencial do argumento parte de um livro do filósofo alemão Jürgen Habermas, L'avenir de la nature humaine. Vers un eugénisme libéral (Gallimard, 2002) e corre como segue.
Habermas, em nome de uma "ética da espécie humana", pronuncia-se contra qualquer investigação "consumidora de embriões". Habermas (explica Ghins), em vez de se basear numa metafísica do embrião humano, parte do seguinte postulado: cada um de nós tem o direito de livramente tomar parte no debate democrático que possa chegar a um consenso sobre os valores éticos e as decisões políticas. Consequência imediata: qualquer decisão política que conduza à limitação (ou, a fortiori, à supressão) do direito de cada um a tomar parte no debate democrático - é uma decisão moralmente inaceitável. Assim, a pena de morte é inadmissível, porque exclui alguém definitivamente do debate público. É pela mesma ordem de razões que Habermas considera inaceitável a destruição de um embrião humano, na medida em que o embrião é antecipação de uma pessoa livre e não está em condições de participar na decisão relativa à sua própria eliminação.
Uma vez que a investigação com células estaminais do embrião humano implica a morte desse embrião, essa investigação é moralmente inaceitável - conclui Ghins (na linha de Habermas). E acrescenta: há quem argumente que é preferível dar uma utilidade a embriões que estão condenados a morrer, do que deixá-los morrer sem qualquer utilidade. E responde: isso seria como começar a tirar órgãos a um condenado à morte, em antecipação dessa morte - e é igualmente inaceitável.
Articulando a argumentação de Habermas, Ghins conclui que destruir um embrião, que é a antecipação de um humano que poderia opor-se aos nossos planos, é negar o postulado habermasiano de que o debate democrático exige que ninguém possa ser impedido de participar na preparação das decisões políticas. Nesse sentido, a investigação destruidora de embriões humanos "mina os próprios fundamentos das nossas democracias" (Ghins).
5. O objectivo primeiro deste meu comentário era dar conta da tomada de posição de Michel Ghins (porque será que em Portugal os filósofos falam tão pouco sobre o mundo enquanto filósofos?). Mas há um comentário que quero fazer para espicaçar a reflexão.
A argumentação Habermas-Ghins tem um ponto de contacto evidente com o debate sobre o aborto: a partir de que "ponto" há vida humana nos precursores biológicos de um indivíduo perfeitamente diferenciado? Só que, contrariamente ao que defendem certas vozes "pró-vida", a argumentação Habermas-Ghins assenta num postulado acerca das exigências da democracia. Isso suscita dois tópicos.
Primeiro: estão os "pró-vida" disponíveis para uma aplicação política mais generalizada desse tipo de postulado? É que isso pode ressuscitar o velho debate acerca da liberdade: liberdade formal ("burguesa") versus liberdade concreta (direito às condições materiais que permitem a fruição efectiva das possibilidades da vida).
Segundo: se o argumento Habermas-Ghins for válido, isso implica que esse debate é um debate político, que implica uma escolha política - contrariamente àqueles que pretendem subtrair essa questão ao âmbito da decisão democrática, pretendendo que ela seria uma questão de moral que, como tal, "não se vota".
(Agradeço ao Michel Ghins por me ter chamado a atenção para o seu texto.)
______________________________________
(1) SANTOS, M.R., "Células estaminais como densidades autopoiéticas", in SANTOS,B.S. (org.),
Conhecimento Prudente para uma Vida Decente, Porto, Afrontamento, 2003, pp.471ss
(2)
Comunicado da Comissão Europeia sobre a investigação com células estaminais embriónicas humanas (versão portuguesa)
Publicado por Porfírio Silva em
02:07 PM
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Uma curiosa fraude científica
O Público - Última hora publica (21.Nov.03, 9h22) "Fraude do Homem de Piltdown foi desmascarada há 50 anos". O texto começa assim: "Poucas fraudes científicas terão atingido o requinte da do Homem de Piltdown. Em 1912, foram encontrados na localidade de Piltdown, na região de Sussex, em Inglaterra, umas ossadas que foram consideradas vestígios de um antepassado dos humanos modernos com 500 mil anos, um "elo perdido" da evolução, que apresentava características de homem e de macaco. Os fósseis foram levados para o Museu de História Natural de Londres e lá ficaram, durante mais de 40 anos, até cientistas da Universidade de Cambridge terem conseguido provar que os fósseis eram falsos. O museu só reconheceu o engano histórico a 21 de Novembro de 1953, faz hoje 50 anos. O autor da fraude, no entanto, nunca foi descoberto."
Dado que este é um curioso motivo de reflexão acerca das relações entre ciência, pseudociência e sociedade, gostaria de acrescentar aqui qualquer coisa. Socorrendo-me de quem saiba mais do que eu, é claro.
Stephen Jay Gould faz, em O Polegar do Panda (Gradiva), uma análise deste caso (pp. 120-138), extraíndo dele certas conclusões. Resumo como segue a leitura de Gould.
Nos anos 1910, foi apresentado na Grã-Bretanha o que ficou conhecido como "o homem de Piltdown": fragmentos de uma caveira, incluindo partes de um crânio e o maxilar inferior, datados como muito antigos. O notável é que o crânio era claramente humano e a mandíbula claramente simiesca. A descoberta foi considerada notável pelos maiores paleontólogos ingleses e demorou trinta anos a estabelecer com segurança que se tratava de uma fraude: uma mistura intencional de remanescentes de dois animais diferentes. Gould pergunta-se "porquê?" e aponta quatro razões:
(i) a imposição de fortes esperanças sobre evidências dúbias: a paleontologia inglesa desesperava com falta de indícios dos seus antepassados, enquanto os franceses lidavam com superabundância de restos de Neanderthaler e Cro-Magnons - e agora, de repente, o homem de Piltdown, nosso antepassado mais antigo, reduzia o Neanderthaler a ramo lateral;
(ii) redução de anomalias ("buracos" numa teoria científica) encaixando-as em preconceitos culturais: favorecia as teorias da primazia do cérebro na evolução humana: foi um cérebro moderno disponível desde o princípio que nos deu vantagem evolutiva e inspirou as modificações no corpo;
(iii) redução das anomalias equiparando os factos à expectativa: o crânio era completamente moderno, mas na altura foi descrito como se tivesse características próprias para ser tão antigo como era necessário para o engano funcionar;
(iv) prevenção da descoberta pela prática: o comportamento do Museu Britânico tornava praticamente impossível a outros investigadores, que não os proponentes do achado, examinar os originais da caveira.
No global, Gould considera que isto mostra a ciência "como uma actividade humana, motivada pela esperança, pelos preconceitos culturais e pela busca de glória, cambaleando na sua trajectória errática em direcção a um melhor conhecimento da natureza".
Na ilustração: caveira da fraude e esquema do puzzle de despojos humanos e simiescos.
Para mais informações sobre esta fraude científica, consultar (por exemplo) a página que Richard Harter dedica em exclusivo a este tema: aqui
Publicado por Porfírio Silva em
11:00 AM
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Um argumento a favor da diversidade
Eis um argumento a favor da diversidade (de Leibniz, via Borges). Consideremos duas bibliotecas com exactamente o mesmo número de livros. Vamos supor que há um livro que é o melhor livro do mundo: o livro perfeito. Suponhamos que o livro perfeito é a Eneida, de Vergílio. Uma daquelas bibliotecas só tem exemplares da Eneida. A outra biblioteca tem um exemplar da Eneida e todos os outros livros são exemplares de livros inferiores ao livro perfeito. Qual das bibliotecas é a mais interessante? (lembrado por G.J. Chaitin)
Publicado por Porfírio Silva em
03:32 PM
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Postal de Natal
Está aberto um concurso de ideias subordinado ao seguinte lema: como extirpar das nossas famílias a extrema dependência em que nesta época natalícia a expressão de carinho se encontra relativamente ao massivo presentear com bens materiais? As respostas devem ser concretas e operacionalizáveis - e devem ser capazes de preservar tudo o que queremos preservar, apagando apenas o que nos foi sendo imposto pela esfera da exterioridade. Bom Natal, pois.
Publicado por Porfírio Silva em
03:34 PM
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O véu
Começo o meu "ano bloguista" discordando fortemente de um homem que respeito: Vital Moreira. VM escreve hoje (dia de reis de 2004), no Público, um artigo intitulado "Entre a nação e a tribo", onde (em geral) discorre sobre os caminhos a seguir para encarar as sociedades multiculturais que os movimentos migratórios estão a criar na Europa, (em concreto) critica a opção francesa de proibir o uso ostensivo de símbolos religiosos nas escolas com financiamento público e (especificamente) abomina que com isso se pretenda limitar o porte do véu feminino islâmico. O seu argumento é: isso prejudica "a liberdade de cada um, querendo, mostrar publicamente a sua profissão religiosa". Todo o argumento, embora contenha importantes elementos de reflexão, tem um defeito fundamental: assenta no pressuposto de que o porte do véu é necessariamente uma manifestação de liberdade individual. Desse modo, todo o argumento falha o problema principal: o de todas aquelas mulheres que são obrigadas a esse acto público de submissão pelas arcaicas estruturas de poder (e repressão) que certas comunidades imigrantes importam dos seus países de origem. VM não viu ou não leu nada sobre uma certa manifestação de mulheres islâmicas contra esta lei francesa? Não leu que as supostas organizadoras dessa manifestação foram impedidas de falar à imprensa? Não leu acerca do musculado serviço de ordem "barbudo" que manteve as manifestantes cuidadosamente separadas dos demais circunstantes? Concordo que é preciso preservar a liberdade religiosa no concreto, mas não nos peçam que, para fazer isso, tenhamos nós de nos esconder atrás de um véu de ignorância acerca das realidades concretas de opressão que certas estruturas querem trazer para dentro das nossas sociedades.
Publicado por Porfírio Silva em
01:49 PM
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O véu (2)
O meu amigo EG reagiu como segue à minha entrada anterior. «É uma problemática muito complexa. A imigração torna o assunto candente. Os países chamados desenvolvidos não podem prescindir de importar mão de obra. Qual a sua origem? Porquê tanta importância dada ao mundo árabe? A questão religiosa marca a agenda. Os USA, ou melhor, a sua administração ultraconservadora, "empurra" a Europa para fora de uma política de acolhimento moderada e tolerante mesmo no plano da religião. Os governos europeus não podem deixar-se embarcar na onda da discriminação das comunidades imigrantes. Os USA são uma sociedade multicultural onde coexistem povos de todos os continentes. Mas as suas fronteiras estão longe do mundo árabe. Nós estamos às portas dele. Havemos de ter com ele uma relação diferente. Manda o bom senso e a necessidade.» Concordo que a problemática é complexa e que há um esforço de imaginação política que temos de fazer para encontrar a forma de conciliar vários valores. Acerca disso, leio hoje com agrado nos jornais que vai acabar alguma da discriminação que se fazia contra os filhos dos imigrantes em matéria de apoio escolar. Mas mantenho vários pontos. É completamente irrealista pensar que as comunidades de imigrantes são quimicamente puras. É criminoso esquecer os fenómenos de repressão endógena profunda que perpassam algumas dessas comunidades. É pura cegueira ignorar que muitos dos que vêm para a Europa o fazem também para se libertar das tradições culturais de que não conseguiriam fugir se permanecessem nas suas terras natais. Caso contrário, qualquer dia estamos a defender a legalização da excisão feminina em Portugal, só porque ela se pratica às escondidas entre nós como herança de tradições que, a meu ver, a nossa cultura não pode - e NÃO DEVE - suportar.
Publicado por Porfírio Silva em
04:20 PM
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O véu, Vital Moreira e o "argumento feminista"
Vital Moreira (VM), no
Causa Nossa, numa entrada intitulada
Proibição do véu islâmico, responde a um argumento de um seu leitor. Esse argumento desse seu leitor é, na raiz, semelhante ao meu próprio argumento, que apresentei numa entrada intitulada "O véu" e publicada aqui ontem (6-01-04). Mas a resposta de VM é fraca. E, lamentavelmente, passa demasiado depressa por cima de questões demasiado importantes. Vou transpor os pontos de VM, um a um, e dizer de minha justiça acerca de cada um deles.
VM: "Primeiro, o uso do véu não é uma obrigação universal, não sendo usado por muitas mulheres, sobretudo nos meios urbanos."
Respondo. O facto de as estruturas repressivas não se conseguirem impor a todas as mulheres, não significa que não se imponham a algumas mulheres, a muitas mulheres, ou mesmo à maioria das mulheres que usam véu. Em termos de direitos humanos, "número não é documento".
VM: Segundo, não é sustentável a tese de que as mulheres o usam forçadamente na maior parte dos casos (no caso francês a polémica resultou de duas jovens que lutaram pelo seu uso na escola), sendo perigoso defender que elas devem ser obrigadas a libertarem-se daquilo que elas não sentem como opressão, mas sim como expressão religiosa pessoal.
Respondo. Repete o erro anterior: que haja mulheres que usam livremente o véu não implica que não haja mulheres forçadas a usá-lo. E há. E as que o usam livremente não podem ser argumento a mobilizar contra as que são forçadas a usá-lo. E também já se sabe que há mulheres forçadas a aparecer "livremente" a defender o véu.
VM: Terceiro, se a principal razão para proibir o véu nas escolas públicas fosse o libertação da opressão feminina que ele significa na cultura islâmica, então a solução não deveria ser proibi-lo somente na escola, mas sim em todos os espaços públicos.
Respondo. Privilegiar a escola nessa questão é dar particular relevo a um espaço formativo por excelência, a uma fase da vida em que a dependência ainda é normalmente grande e favorece o estreitamento da margem de manobra em opções cívicas. Uma jovem estudante vivendo em casa dos pais no seio de uma comunidade islâmica ortodoxa é mais vulnerável do que uma mulher adulta trabalhadora vivendo num local da sua escolha e depois de ter aprendido que tem direito às suas opções. Além disso, cuidado com referências genéricas à "cultura islâmica": há muitas culturas islâmicas, tal como há muitas culturas cristãs, tal como em todas há os que abusam delas e os que as vivem como espaços de liberdade.
VM: Quarto, com essa justificação para a interdição do véu perde todo o sentido proibir os símbolos religiosos das demais igrejas, contra os quais não vale o argumento feminista.
Respondo. O enquadramento da questão do véu na questão mais vasta da ostensão de símbolos religiosos foi uma tentativa, talvez insuficiente mas louvável, de não discriminar uma religião entre outras. O que VM chama, aparentemente de forma depreciativa, "o argumento feminista", não é separável de todos os outros argumentos ligados aos direitos humanos. Os direitos humanos não são esquartejáveis, e se o forem tornam-se mais fracos e mais difíceis de defender.
VM: Quinto, a liberdade individual, ainda por cima em matéria religiosa, só deve ser restringida quando o seu exercício possa lesar outrem ou interesses públicos suficientemente fortes para prevelecerem sobre ela. Ora, fora os casos de proselitismo agressivo ou hipóteses afins, não se vê que tais requisitos se verifiquem no caso do uso do véu islâmico.
Respondo. Isto não é um argumento. É uma mera repetição da tese (errada) em apreço, segundo a qual o porte do véu é necessariamente uma manifestação de liberdade individual. Já vimos que o porte do véu não é sempre uma manifestação de liberdade, nem é sempre uma manifestação de individualidade.
Não vejo, pois, que VM tenha sido capaz de mostrar que aquilo que ele chama "o argumento feminista" seja "um argumento inconcludente" ou "assaz claudicante".
Preocupa-me, aliás, que não se perceba que o relativismo cultural não nos pode levar a bom caminho. E que podemos ser aliados objectivos do relativismo cultural mesmo sem o querermos.
Publicado por Porfírio Silva em
05:31 PM
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O véu, Vital e as coisas concretas que fazem a beleza dos caminhos
Há dois dias que ando a desencontrar-me com Vital Moreira (VM) a propósito do véu islâmico em França, seja com base em artigos (dele) no
Público ou em entradas no
Causa Nossa. Hoje, VM responde, numa entrada intitulada
De novo o lenço de cabeça islâmico à minha última nota sobre a matéria. O genuíno respeito que nutro por VM obriga-me a responder-lhe - mas satisfazer essa obrigação é para mim um prazer.
(a) Eu não acredito que o ponto que tenho vindo a defender constitua, por si só, a solução do problema. O que critico é que ele seja ignorado na apreciação global da situação. As condições da liberdade individual não se garantem automaticamente pela concessão de direitos a um grupo: os direitos do grupo podem tornar-se causa de opressão do indivíduo. Esse é o meu ponto e reivindico que ele seja considerado a par com outras vertentes, relevantes, da situação. Um só véu imposto que seja, é um problema de direitos humanos.
(b) A subtil técnica retórica de dar a ideia de que se está a defender a comunidade X ou Y é enganadora: a própria comunidade islâmica em França está dividida sobre a matéria, entre os fundamentalistas que querem manifestações a favor do véu e os moderados (como o reitor da Grande Mesquita) que julgam terem conseguido aperfeiçoamentos no projecto legislativo que os deixam "apaziguados" (cf.
Público de hoje, p. 26).
(c) Mesmo antes da notícia referida, eu já estava certo de que há mulheres (e homens) muçulmanas/os em França que concordam comigo. A justeza das aspirações desses indivíduos humanos concretos em nada deve depender da contingência de os argumentos feministas serem X ou Y no momento T ou T+1. Daí que o recurso de chamar "argumento feminista" ao argumento X nada acrescente ao conteúdo do debate.
(d) VM não acredita em libertações por via legal. Isso pode querer dizer muita coisa. Também concordo que não se faz a revolução por decreto. Mas quererá isso dizer que as leis não são necessárias à protecção da liberdade? É claro que é um problema por resolver saber até onde devem ir as leis, mas daí a excluir a via legislativa para todos os aspectos de protecção da liberdade... vai um passo que nenhum de nós quererá dar. Isto é: os bons princípios gerais não resolvem todos os nossos problemas concretos, temos de analisar cada caso na sua complexidade.
(e) Para vermos até onde podem ir as consequências dos princípios, talvez tenhamos de futuro de analisar outras situações. Estará VM ciente do que acontece, por exemplo, em termos de protecção dos menores filhos de imigrantes de determinadas culturas em situações como a separação litigiosa dos pais, naqueles casos em que nessas culturas de origem prevalece a ideia de "propriedade" dos filhos por um dos pais? Indo mais longe na análise das consequências talvez se perceba melhor o que eu quero dizer.
O meu ponto é, no essencial, simples: vejamos a paisagem em toda a sua complexidade e não à luz do princípio abstracto do respeito por todas as culturas. Nessa altura, tornar-se-á claro que não é muito pertinente avançar para mim com o argumento dos erros do anticlericalismo. Os meus erros serão outros. Mas esse não. Se me conhecesse, um homem da elevada estatura moral e intelectual de VM far-me-ia a justiça de reconhecer isso.
Publicado por Porfírio Silva em
10:38 AM
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O véu, o lenço islâmico de cabeça, ... (recortes de imprensa)
Andou no distinto colega
Causa Nossa (pela pena respeitada de Vital Moreira) e por aqui (6, 7 e 8 de Janeiro) uma "polémica" (debate, troca de pontos de vista,...) acerca do véu islâmico feminino. Calei-me acerca do assunto, até porque estava à espera de outros contrapontos. Mas não resisto - à luz do que tenho lido por aqui e por ali, ao acaso - a deixar umas notas complementares. Para reflexão.
O
The Wall Street Journal lembrava há semanas que Kemal Atatürk, o fundador da Turquia moderna, proibiu o uso do véu - e não parece que ele fosse, em qualquer sentido rigoroso, um inimigo dos muçulmanos. Aliás, ainda hoje é proibido o uso do véu na administração e nas instituições governamentais turcas.
O sociólogo libanês Dalal al-Bizri, no diário árabe
Al Hayat (publicado em Londres, ou pensavam que podia ser dado à estampa na Arábia Saudita?), denuncia a falta de sentido da pretensão do clero islâmico fundamentalista a justificar religiosamente o uso do véu. Argumenta que nada no Corão justifica que o véu seja elevado a critério de fé, que o véu não pode ser comparado para esse efeito à esmola e ao jejum; que apenas um versículo corânico menciona as vestes femininas em geral e que as interpretações desse versículo são largamente divergentes. E avisa que o clero que impõe o uso do véu, se pudesse faria em todo o sítio como no Irão: todas as mulheres são obrigadas ao véu, independentemente da sua religião. Quanto a esse abuso da interpretação religiosa, o jornal
Público de 27-01-04 noticia que, no Irão, o Conselho dos Guardiães, na sua tentativa de escolher quem pode e quem não pode ser candidato ao parlamento, continua a tecer minúcias à volta das leis eleitorais. E, para isso, justifica cada nova malvadez invocando "a religião e a Constituição".
Ainda no
Al Hayat, Samir Kassir, também libanês, analisa com preocupação a actual mobilização de certos meios religiosos islâmicos contra a lei francesa sobre o porte ostensivo de símbolos religiosos - com preocupação, porque tende a "meter no mesmo saco" todos os muçulmanos, como se em geral tivessem essa posição. E reclama que se debata essa questão abertamente, no mundo árabe, "quanto mais não seja para honrar a memória de Hoda Chaarawi e a de outras muçulmanas que, no início do século XX, retirando o véu que lhes tinha sido imposto, reivindicaram esse acto como uma libertação".
Um artigo do jornal
Il Foglio, de Milão, lembra as denúncias de que em muitas escolas públicas francesas se tornou impossível abordar nas aulas temas como a guerra da Argélia, o caso Dreyfus ou a Shoah - por pressão social de um certo número de alunos e das suas famílias. E que isso vai de par com a intimidação das raparigas que não usam o véu, por serem "más muçulmanas". E pergunta se, com o tempo, certos alunos não poderão recusar-se a responder a perguntas de professorAs que não sejam portadoras do véu.
Perante isto, só me apetece perguntar: saberá uma certa esquerda portuguesa com quem partilha a barricada nesta ocasião?
Já agora: porquê chamar-lhe (candidamente?) "lenço de cabeça"? Distingue-se
teologicamente do véu?
Publicado por Porfírio Silva em
10:45 AM
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Ver as coisas para além do véu
Este espaço tem andado pouco movimentado. Mas esta crise passará - e voltarei um destes dias com a mesma vontade de antes. Entretanto, tem andado por aqui um debate que se renova: o véu e todos os problemas para que ele aponta. Do Miguel Magalhães recebi o posicionamento que passo a transcrever. Um destes dias reagirei (entretanto, vou pensar no que ele diz). Se outros entenderem tomar a palavra,façam favor. (Espero que nenhuma mensagem tenha sido "comida" pelos vírus que têm chegado às largas dezenas ao endereço electrónico da "máquina".) Escreveu-me, então, o Miguel Magalhães:
«Muitos de nós, que discordarmos da medida anunciada por Jacques Chirac (independentemente da opinião que se tenha sobre tal personagem política), fazemo-lo por motivos de táctica, pois o que queremos é encontrar a melhor forma de combater o "fenómeno".
Todo o debate em torno do véu assenta, na minha opinião, num equívoco, que consiste em pensar que obrigar as mulheres a usar véu é uma prática retrógrada, que desaparecerá mais ou menos "naturalmente" com a evolução e o desenvolvimento das sociedades muçulmanas. Penso, pelo contrário, que o uso obrigatório do véu, bem como muitas das restantes práticas de submissão violenta das mulheres nas sociedades muçulmanas, com vista a mantê-las exclusivamente dedicadas à sua função de reprodutora, é uma actuação revolucionária, com todas as características próprias desse tipo de militantismo: condicionamento da vontade individual em benefício dum desígnio comum ("triunfo do Islão"), policiamento dos comportamentos desviantes, promovendo uma sociedade de bufos e esbirros, ideologia totalitária e imperialista (um Islão árabe proselitista e conquistador - veja-se o que aconteceu às tradições locais não islâmicas em países não árabes como o Irão, Malásia, Indonésia, Paquistão, etc., como explica V.S. Naipaul). O duplo discurso, que consiste em dizer que ter uma carrada de filhos é um duplo desígnio moral (vontade de Alá) e político (a demografia é a arma atómica dos pobres) é duma eficácia extraordinária, sobretudo nos meios da emigração, já que proporciona aos muçulmanos "exilados" nas sociedades "ocidentais" um motivo de "legítimo" orgulho e de coesão contra uma sociedade em que sentem marginalizados. E não tenhamos dúvidas que é esse o discurso político-religioso que se ouve nas mesquitas europeias, que foram construídas quase todas com dinheiro saudita.
Face a esta prática revolucionária, que é ameaçadora pela sua eficácia, temos de agir com um equilíbrio entre firmeza e abertura que não é fácil de obter. Sem querer defender a lei de Talião, deveríamos agir com maior sentido de reciprocidade e igualdade: exigir a liberdade de culto na Arábia Saudita e noutros países muçulmanos que a proíbem; obrigar todos os estudantes, independentemente de discrepâncias culturais, às mesmas obrigações escolares, sociais, etc. (aulas de ginástica, ensino da biologia científica, defesa da nossa "visão" no ensino da História, etc.). Pelo contrário, deve-se permitir tudo o que não ponha em causa tal reciprocidade e igualdade (por isso se deve proibir a burka, por exemplo, que impede a identificação da pessoa, mas não o véu, nem a kippa, nem o turbante sikh, etc.).
A pergunta que fazes no fim do teu texto de 28/01 - "saberá uma certa esquerda portuguesa com quem partilha a barricada nesta ocasião?"- é um argumento não muito sério numa questão com esta gravidade. Em todas as lutas difíceis e prolongadas, há sempre "compagnons de route" pouco recomendáveis, como a História tem demonstrado amplamente. Não nos devemos deixar ficar paralisados por escrúpulos excessivos (nessa matéria especificamente), pois paralisar-nos, no sentido literal, é exactamente aquilo que nos pretende fazer o militantismo islâmico fundamentalista, actualmente a maior ameaça para a paz mundial.» (Miguel Magalhães)
Publicado por Porfírio Silva em
06:48 PM
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Ensaio sobre a lucidez
Há fins de tarde que correm bem. Acabo de comprar o último (em data) romance de José Saramago, Ensaio sobre a Lucidez. O lançamento é só no próximo dia 29, mas chegou hoje à livraria onde passei. Não sei se devo ter muita esperança de vir a gostar tanto deste "ensaio" como do anterior (Ensaio sobre a Cegueira, que é o meu preferido de todos os saramagos, o mais metafísico). Apesar de que (ou antes "porque") acabo de ouvir na TSF o autor dizer que se acha lúcido. Pode um cego escrever um ensaio sobre a cegueira? Pode um lúcido escrever um ensaio sobre a lucidez?
Publicado por Porfírio Silva em
07:36 PM
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"Amor pela passiva" e "amor pela activa"
Ontem, pela noite, Teatro do Bairro Alto, Companhia de Teatro da Cornucópia,
Filodemo de Luís de Camões. Auto. Comédia. Tragicomédia. A minha companhia de teatro de culto, desta vez mais longe da camada de chumbo que recobre o mundo e que com tanto saber nos costuma dar a saborear. Desta vez, pequenas tragédias quotidianas com que nos rimos até. Por outro lado, este encenador continua a explorar a favor do teatro o facto de que nem todos somos iguais nos nossos corpos, de que uma parte da alma (no sentido que se queira dar-lhe) está à flor da pele que nos delimita o volume. A editora Cotovia continua a dar expressão a estas jornadas culturais da Cornucópia, mais uma vez tornando acessível o texto que se leva à cena. Tantas coisas boas numa só noite... Só uma sombra: em termos de teatro (e não só) dá pena não podermos viver também em outras terras deste país (o Porto, por exemplo; mas não só).
Nos "textos de apoio" disponibilizados no
sítio do Teatro da Cornucópia, o seguinte diálogo aparece como exemplo do contraste entre amor platónico ("amor pela passiva") e amor fisicamente expresso ("amor pela activa"):
FILODEMO - (...) é necessário que primeiro alimpeis como marmelo e que ajunteis pera um canto da estrebaria todos esses maus pensamentos vossos, porque, segundo estais, mal avinhado, danareis tudo o que agora em vós deitar. O caso é este. Já vos dei conta da pouca que tenho com toda a outra que não é servir a senhora Dionisa; e ainda que a desigualdade dos estados o não consinta, eu não pretendo daqui outra senão não pretender cousa nenhua. O que lhe quero, consigo mesma se paga. É este meu amor como ave fénix, que de si só nasce e não de nenhum outro interesse.(...)
DORIANO - Eu vo-lo direi: porque todos vós outros, que amais pola passiva, dizeis que o amador fino como melão que não há de querer mais de sua dama que amá-la viva. E virá logo o vosso Petro Bembo, Petrarca e outros trinta Platões (mais safados destes hipócritas que uas luvas dum pajem d'arte) mostrando-nos rezões verisemelhantes pera homem não querer mais de sua dama que ver, até falar. E ainda houve outros inquisidores d'amor, mais especulativos, que defenderam a vista por não emprenhar o desejo. E eu faço voto a Deos, se a qualquer destes lh'entregarem sua dama entre dous pratos, tosada e aparelhada, que não fique pedra sobre pedra nem lugar sagrado em que se possa dizer missa daí a mil anos, nem lugar tão preveligiado em que a fúria da justiça não buscasse até os caminhos escaninos. De mim vos sei dizer que os meus amores hão de ser activos. E eu hei de ser a pessoa agente e ela a paciente. E esta é a verdade. Mas tornando a nosso prepósito... Vá vossa mercê com sua história avante.
Publicado por Porfírio Silva em
09:49 AM
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Crítica da lucidez anunciada
Lido o último Saramago, concluo pela dificuldade da lucidez. Pelos vistos, apesar da pose grave que tem posto o nobel autor nestes dias de publicidade, não é lúcido quem quer. O interesse narrativo só deixa os lugares comuns lá para meio do livro, quando este romance se engancha no outro "ensaio" (sobre a cegueira). Até se chegar a essa terra do meio (talvez descontado o breve impulso do arranque), a banalidade impera, o esquema básico é uma espécie de ficção política de cordel, por demais previsível e sonolente. Depois do meio, quando a narrativa da lucidez passa a repousar no reenvio para a narrativa da cegueira, o mundo ganha então alguma espessura. As personagens descobrem-se, só aí, possuídas do mistério saramaguiano. O final-mesmo-no-fim volta a ser de telenovela: simplista, a preto e branco, maniqueísta como é na totalidade este "ensaio sobre a lucidez". Puro engano: não há nunca lucidez no simplismo. O maniqueísmo esquematista deste "ensaio" é assustador. A metáfora central (a do voto em branco) é capaz de dar votos na eleição do mercado (Zeferino anuncia 100.000 exemplares), mas é pobremente manuseada no texto literário propriamente dito. A lucidez é muito difícil. E a triste comédia do exílio a cuja encenação Saramago agora volta não é mais lúcida do que o ensaio (tenha lá ele as razões que tenha, e tem). Senhor candidato pela CDU: o senhor mostra bem que a cegueira é mais fácil do que a lucidez. Já n'A Caverna devia ter percebido que a subtileza literária da evidência não usa ser muito estimulante. Agora reincide. É lá consigo. Não vale a pena é tanto lirismo pseudo-radical só para vender. Em todo o caso, um "saramago" é um "saramago". Vale a pena ler. Ainda por lá andam umas quantas páginas do mistério que recobre as paredes mais quotidianas.
Publicado por Porfírio Silva em
09:18 AM
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Literatura Juvenil
Carlos Miguel Fernandes, em
No Mundo, publicou a 27 de Maio uma entrada muito interessante intitulada
Moby Dick e o Público Juvenil. Nesse texto, CMF questiona a inclusão de
Moby Dick, de Herman Melville, na
Colecção Geração Público (os livros das quartas-feiras do Público). Em causa está que considerar Moby Dick "literatura juvenil" é um ponto de vista redutor sobre a obra.
Pode alguém espantar-se, mas nunca li essa obra. Talvez seja desta. Contudo, quero juntar-me aos que consideram que a categoria "literatura juvenil" é
sempre redutora. Por várias razões, mas aqui aponto apenas uma: porque em
qualquer momento pode
qualquer criança ou jovem deixar-se impressionar e/ou mobilizar por textos que não lhe são em princípio destinados.
Eu li
Um dia na vida de Ivan Denisovich, de Alexandre Soljenitsin, com dez ou onze anos (às escondidas, porque me diziam em casa que não era para a minha idade). E esse livro, de um autor cujo pensamento político eu abomino, marcou-me tão profundamente que certas opções políticas (a conivência com certas conveniências misturadas com falsos idealismos) se tornaram um interdito absoluto para mim. Desde sempre e, espero, para sempre. Para mim,
Um dia na vida de Ivan Denisovich foi magnifíca literatura infanto-juvenil.
Publicado por Porfírio Silva em
01:49 PM
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