novembro 14, 2003
Relógio de pulso com Mostarda (produto pluridisciplinar mítico). Uma abordagem integrada do tempo e da alimentação (ensaio sobre as teorias da inovação).
1. Tome-se um relógio de pulso perfeitamente clássico. Acrescente-se mostarda. Em caso de um ataque de fome, o novo produto é indiscutivelmente muito mais útil do que o produto clássico. Trata-se de uma inovação. As mentes esclarecidas dar-se-ão imediatamente conta da sua valia, com base na adesão ao princípio geral da superioridade intrínseca das inovações. Contudo, dada a raridade crescente dessas mentes esclarecidas, deve prever-se um processo de demonstração da superioridade desta inovação particular em concreto (método delineado nos pontos seguintes).
À esquerda: Relógio de pulso clássico. À direita: Relógio de pulso com mostarda.
2. Constrói-se um relógio de pulso com mostarda degenerado (isto é: sem mostarda). Torna-se trivialmente patente que mesmo o relógio de pulso com mostarda degenerado, apesar de não ser tão completo como o relógio de pulso com mostarda original, é tão útil para medir o tempo como um relógio de pulso clássico.
À esquerda, relógio de pulso com mostarda. À direita, relógio de pulso com mostarda degenerado.
3. Considerando:(a) que os novos relógios de pulso com mostarda são pelo menos tão bons como os relógios de pulso clássicos a fazer a única coisa que fazem os relógios de pulso clássicos (medir o tempo);
(b) que os novos relógios de pulso com mostarda têm uma valência completamente ausente nos relógios de pulso clássicos (culinária);
deve concluir-se pela superioridade dos relógios com mostarda.
Anexo: Cuidados a ter com indivíduos pouco sensíveis à inovação.Parte I - Se ao cozinheiro se fizer notar o ligeiro gosto metálico que tomou o condimento, responda-se que há que atender ao facto de que nunca antes a mostarda se vira assim associada à medição do tempo.
Parte II - Se ao relojoeiro alguém apontar que os ponteiros estão parados, faça-se ver quão notável contributo deu o pertinente cozinheiro à
nouvelle cuisine.
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Bibliografia sumária: Jean-Yves Girard, "Intelligence artificielle et logique naturelle", in TURING e GIRARD,
La machine de Turing, Paris, Seuil, 1995
Publicado por Porfírio Silva em
05:09 PM
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novembro 25, 2003
Mapa do mundo em construção.

Publicado por Porfírio Silva em
09:29 AM
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janeiro 12, 2004
Design
O que sempre me atraiu no design: as coisas devem ser bonitas (são uma forma de arte), mas têm de funcionar (cumprir o fim a que as destinam). Nisso, uma qualquer peça de design é um magnífico representante das muitas coisas que na vida aguardam uma correcta série de decisões da nossa parte. Os utensílios que desempenham o seu papel no meio da maior fealdade: vai havendo quem o consiga. As peças bonitas que em absoluto se recusam a colaborar com a vida prática: entopem as casas tanto como os remorsos das utopias mal pensadas. Ideias com pés para andar que façam algo pela suavidade dos contornos: é mais raro. Também assim é em muitos departamentos da nossa complexa colmeia. Na filosofia, por exemplo. Em todas as filosofias abundam as abstracções (e algumas virão a tornar-se assassinas). E na política. Em todas as políticas. No dia a dia. Em todos os dias de todos nós há pecados que estão no desprezo do concreto. Contra essa maré, proponho a seguinte paráfrase do que dizia o outro: "a minha política é o design". (Esta entrada é dedicada à M. Ramos.)

Colecção de sacarrolhas (designer Alessandro Mendini, marca Alessi)

Preparador de leite com espuma (designer Stefano Giovannoni, marca Alessi)
Publicado por Porfírio Silva em
11:49 AM
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janeiro 15, 2004
O design, o concreto, o abstracto
A propósito de uma entrada anterior (Design), escrevia eu em resposta a uma mensagem de um companheiro de des-a-ventura na blogosfera: "Para mim essa questão [do abstracto vs. concreto] é uma questão central na responsabilidade que temos em relação aos outros: os outros na sua concretude e não "os outros" como representação de um qualquer "todo" (sociedade, Deus, utopia, ...)."
Para tentar explicitar, socorro-me de Thomas De Koninck, de quem, na introdução a A Nova Ignorância e o problema da cultura (Edições 70), respigo algumas frases.
«O que é novo [na ignorância] é o espírito de abstracção (...). [D]evemos [nessa matéria] acusar a falha central da cultura moderna: o erro de tomar o abstracto pelo concreto, a que Whitehead chamava, com razão, "o sofisma do concreto mal colocado" (...). Concreto (de concrescere, "crescer conjuntamente") significa "o que se formou juntamente". Nesse sentido, uma árvore, ou qualquer outro ser vivo, é propriamente concreta, ao passo que um relógio ou qualquer outro artefacto o não é, já que as suas partes foram juntas por um agente externo e são indiferentes umas às outras (...). [T]odas as disciplinas têm a revelar algum aspecto indispensável do ser humano, mas cada uma delas, ao fazê-lo, só apresenta uma parte ínfima dele. Entretanto, acreditar-se-á que ao somar todos estes aspectos, todas estas partes, se pode obter um todo que, por fim, seja o próprio ser humano? Isso significaria não ter percebido nada e, além disso, seria uma magnífica ilustração da nova ignorância . (...) As antropologias científica, filosófica e teológica "manifestam uma total indiferença recíproca" [Scheler]. (...) Falta a unidade, que só pode ser dada pelo concreto. (...) O espírito de abstracção, porém, continua a reinar tanto na ordem prática como no plano teórico. Esquecendo, ou ocultando deliberadamente, as omissões metódicas que ele torna possíveis, comete devastações no agir individual e colectivo.»
Publicado por Porfírio Silva em
02:00 PM
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janeiro 16, 2004
Tenho desejos
Ana Corrêa da Silva traduziu para as Edições Tenacitas Eichmann in Jerusalem, de Hannah Arendt (HA). O texto que se segue é a quase totalidade da Nota da Tradutora inserida nessa edição portuguesa.
Na tradução do subtítulo ("A Report on the banality of Evil") foram ponderadas diversas alternativas, pois o vocábulo "report" adquire um sentido na língua inglesa que é dificilmente transponível para português. Considerou-se, desde logo, que "estudo", expressão utilizada na tradução castelhana, não traduzia a natureza da obra, que pretende ser uma narrativa factual do processo de Jerusalém e que resultou de um trabalho jornalístico de HA. Por outro lado, entendeu-se que "relato" acabaria por incorrer no vício oposto: ver na presente obra uma mera descrição, destituída de quaisquer reflexões críticas, das diversas sessões do julgamento. Restaram, assim, as expressões "relatório" e "reportagem". (...) Optou-se por ["reportagem"] , pois é aquele [vocábulo] que, apesar de tudo, melhor ilustra o "código genético" da obra (recorde-se que HA foi enviada a Jerusalém como repórter, não na sua qualidade de filósofa ou ensaísta) e, bem assim, o seu sentido global. O livro pretende ser uma "reportagem" latu sensu do julgamento de Adolf Eichmann, reservando a autora para o Epílogo e para o Pós-Escrito as suas reflexões sobre o mesmo. É evidente que o olhar crítico de HA percorre toda a obra - aí reside, de resto, uma das grandes virtudes do livro - mas tal não lhe retira a natureza de uma "reportagem". Daí a escolha, sempre difícil, desta expressão para o subtítulo da tradução portuguesa de Eichmann em Jerusalém.
Tenho desejos. De ler na imprensa portuguesa mais coisas que pudessem dar azo a este tipo de questionamento. Que suscitassem a pergunta acerca de como classificar o que é narrativa factual e também boa análise crítica e ainda reflexão séria. Tudo ao mesmo tempo. Tenho desejos. Desejo que quem tem responsabilidades na conformação dessa matéria instável que é o espaço da reflexão pública não se esconda debaixo da farda dos estafetas da Poney Express. Esses é que são mensageiros.
Publicado por Porfírio Silva em
02:09 PM
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janeiro 19, 2004
As asas de Gabriel e os excessivos ornamentos
«Durante uma visita a Florença (…) fiquei fascinado pela "anatomia comparada" das asas de Gabriel, como se encontram representadas pelos grandes pintores de Itália. As caras de Maria e Gabriel são muito belas e os seus gestos frequentemente muito expressivos; no entanto, as asas pintadas por Fra Angelico ou Martini parecem rígidas e sem vida, apesar da beleza da sua intrincada plumagem. Mas depois vi a versão de Leonardo. As asas de Gabriel são tão flexíveis e graciosas que dificilmente me preocupei em estudar a sua cara ou notar o impacte que tinha em Maria. Até que reconheci a origem da diferença. Leonardo, que estudou pássaros e compreendeu a aerodinâmicas das asas, pintara uma máquina funcional nas costas de Gabriel. As suas asas são simultaneamente belas e eficientes, possuem não só a orientação e a curvatura correctas, mas também a disposição certa das penas. Tivesse Gabriel sido um pouco mais leve e poderia ter voado sem intervenção divina. Em contraste, o Gabriel de outros pintores transporta ornamentos fracos e estranhos que nunca poderiam funcionar.»
Stephen Jay Gould,
in O Polegar do Panda , Gradiva (p.343)

Leonardo Da Vinci, A Anunciação, c. 1474
Publicado por Porfírio Silva em
11:34 PM
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janeiro 21, 2004
Crónicas das traseiras da blogosfera (2)
Aqui há umas semanas encontrei num blogue o endereço electrónico de um determinado Professor universitário de renome: não somos amigos, nem próximos, mas no passado houve cruzamentos ocasionais entre nós. Aproveitei para lhe fazer notar uma crítica minha a um aspecto (muito pontual) de uma obra sua, aliás de grande interesse. Fiquei siderado, porque me respondeu com uma forma mal disfarçada de argumento da autoridade: eu era um brincalhão (porque pensava que ele se podia ter enganado, mesmo que naquele aspecto muito circunscrito). Deixo para as (minhas) memórias uma frase da minha resposta a esse incidente passado nas traseiras da blogosfera: "O grande mérito (e não o defeito) da ironia é que ela não pode ser compreendida a partir de dentro, porque só a partir de dentro ela não se distingue. É a crítica, nisso, diferente da ironia?"
Ainda hoje penso nisso. Alguém me pode explicar todo o sentido daquela minha frase?
Publicado por Porfírio Silva em
06:56 PM
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janeiro 29, 2004
Imagens nas Revoluções (1)
Cartaz "Mulheres da Revolução", Irão, c.1979

Ao cimo (parece que) pode ler-se: "As mulheres são as companheiras da revolução". Pois...
Publicado por Porfírio Silva em
07:06 PM
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abril 14, 2004
ARGUMENTUM ORNITHOLOGICUM
Fecho os olhos e vejo um bando de pássaros. A visão dura um segundo ou talvez menos; não sei quantos pássaros vi. Era definido ou indefinido o seu número? O problema envolve o da existência de Deus. Se Deus existe, o número é definido, porque Deus sabe quantos pássaros vi. Se Deus não existe, o número é indefinido, porque ninguém pode fazer a conta. Nesse caso, vi menos de dez pássaros (digamos) e mais de um, mas não vi nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três ou dois pássaros. Vi um número entre dez e um, que não é nove, oito, sete, seis, cinco, etc. Esse número inteiro é inconcebível; ergo, Deus existe. (Jorge Luís Borges)
Este texto de J.L. Borges provocou uma ocorrência curiosa. Enviei-o para um grupo de discussão pedindo que me enviassem breves comentários filosóficos ao mesmo, que, dizia eu, podiam ser «quer sobre a forma, quer sobre a "tese" em causa, quer sobre o raciocínio lógico a que se apela, quer mesmo sobre a possibilidade de um tal texto ter uma tese».
Recebi a seguinte resposta, de "Jocax": «Olá Porfirio! Desculpa, achei o argumento ( transcrito no fim da mensagem ) totalmente falacioso , para não dizer ridículo mesmo! :-) O fato de vc não lembrar ou não saber quantos pássaros imaginou não significa que existiu um número de pássaros bem definido pois alguns deles, como imagens, poderiam estar incompletos, como uma imagem borrada e, assim, não se poderia dizer se era um pássaro ou meio pássaro. ALÉM DISSO, vc se lembra quantas crianças tinha na sala de aula do seu primeiro ano de primário no dia 12/11/1960 ? Alguém neste mundo vai lembrar disso? E se os documentos sobre isso foram queimados naquele incêndio da escola? Isso prova alguma coisa sobre Deus? Não tem nada a ver! Embora o número de alunos fosse, diferentemente do exemplo dos pássaros, um número bem definido, ninguem vai lembrar! Vc precisa ler com cuidado o Link que vou te mandar Ok ? Leia (segue um link). Jocax.»
Manifestamente, por vezes não gosto de ser levado demasiado a sério. Respondi: «Obrigado, Jocax. O link que sugere eu vou re-encaminhar para o Jorge Luis Borges, o autor do "argumento". Trata-se de um texto LITERÁRIO de Borges, não de um texto FILOSÓFICO. Borges fez muitas ironias desse género, que podem ser apreciadas filosoficamente, mas não como se pretendessem demonstrar alguma coisa. Eu não estou em nenhuma movimentação para DEMONSTRAR a existência ou não existência de Deus: por razões filosóficas, esse tema não me interessa. O que me interessa, neste ponto específico, é apenas a forma de proceder do grande Borges. Obrigado por ter dado atenção à minha mensagem. Um abraço. Porfírio»
Aqui fica a historinha. Voltem ao início e gozem o texto de Borges. E a suprema ironia do falso cego. (Tal como se pode gozar a pretensa lucidez de outros verdadeiros cegos.)
Publicado por Porfírio Silva em
10:15 PM
abril 21, 2004
Acho que me esqueci de qualquer coisa...

Publicado por Porfírio Silva em
10:48 PM
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abril 22, 2004
apostilha à história das instituições (o dia seguinte)
Rasgar o mapa dos poderes: sorrateiramente, evitando mostrar que sabes, dar a palavra ao servo e fazê-lo brilhar; deixar o senhor, falando, tão solene, sombrar. Não infringir à luz do sol nenhuma norma clara, mas agir antes pela astúcia da razão: deturpar certos preceitos orais da tradição e fazer da cautela uma vergonha rara. Estilhaçar o uso das ferramentas morais, usando-as, usando a honra como a espada dos samurais. Ler livros proibidos às horas de refeição, desgostar os teus amigos sendo tão solitário, tomar a dose de individualismo diário; falar alto ao medo, solto, pregá-lo no chão. Acreditar que os últimos podem ser primeiros; que o calor, apertando, pode mudar os janeiros; que a brisa, querendo, pode acalmar o verão; que há revoltas para lá da escassez de pão. Rasgar o mapa das estradas e deixar a cada desvario que aconteça, aguardar pelos perfumes nas encruzilhadas; partir, venturoso, sem esperar que amanheça, aproveitando que as guardas dormem de noite. Escrever, sendo dextro hábil, com a mão esquerda, para pelo pasmo criar a oportunidade de ler com ambas enterradas em corpos aflitos. Saltar da cama à noite para acudir aos gritos aos quais te juntas noutro leito mesmo ao lado, pedindo ao teu parceiro perdão do teu pecado e ao teu pecado perdão pelo tempo perdido, incapaz confesso do risco de ser malquerido. Rasgar a solidão escrevendo letras de trovas e com elas ao mundo dar, mentindo, boas novas e a todos os povos, ignaros, novos continentes. Nada importa, se acreditam, quanto tu mentes. Amar apaixonadamente todos os miseráveis e comer chocolates belgas, dos puros, ao lanche, aflito com a queda do cacau nas bolsas mundiais e com os maus desenvolvimentos desiguais. Aflito, tu, que nada vês na economia, que não ligas os pobres e a barriga vazia? Preocupas-te lindamente. Saudoso das antigas crises existenciais, das que lembram livros e boa filosofia, fazes por sofrer dores duras como as do parto, antes, durante e depois de um jantar farto. Se a literatura acabar, logo se verá: podendo tirar delas sofrimento aceitável, haja dores: eu espero estar por cá.
Publicado por Porfírio Silva em
08:12 PM
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abril 23, 2004
Como eu vejo o 25 de Abril hoje

(Agradecimentos a http://web.mit.edu/philos/www/subjects.html)
Publicado por Porfírio Silva em
08:46 PM
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abril 27, 2004
Farol
Há quem pense que estar dentro do farol garante uma melhor visão do mundo. Puro engano. Guiamo-nos melhor quando damos atenção aos outros; somos fonte de orientação quando sabemos olhar o que vai no mundo. O ponto não está em ser olhado, está em olhar. Quando só queremos guiar, perdemo-nos; querendo ser o sol da terra, encerramo-nos na nossa cela. Por isso, conduzir é saber partilhar. Não se faz sociedade de dentro de um farol. Por mais potente que seja a sua óptica, o farol é um invólucro. Quantas vezes sabemos estar atentos?
Publicado por Porfírio Silva em
05:17 PM
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maio 27, 2004
Um poema extraviado subiu no horizonte

(Porfírio Silva, Impressão Acidental)
Publicado por Porfírio Silva em
10:50 AM
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maio 28, 2004
A espuma dos dias
Não sejas tão leve com o que chamas a espuma dos dias. Porque nem sempre vem uma onda de mar que limpe essa espuma. E essa espuma pode ganhar consistência, enrijar, tomar posse dos trilhos por onde ainda precisarás de passar, travar-te os passos, tolher-te os movimentos, encher-te a boca de mudez. Disso se faz a poluição mais refractária. É do uso e abuso da leveza, do tanto-faz, do não-é-nada-comigo, do quem-sou-eu-para-saber, ... que fluem tantas inesperadas barreiras que nos atravessam a pele e nos escurecem os dias.

Publicado por Porfírio Silva em
03:00 PM
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