abril 16, 2004

Notinhas australianas (número zero)

Aqui há tempos tive aqui um debate, polémica, controvérsia, ... , com o Miguel Magalhães. Pois, o Miguel Magalhães vai voltar, mas com um projecto diferente. Ele está agora na Austrália, em Sydney. E vai por lá ficar durante uns poucos meses. E, durante esse tempo (todo ou em parte, ele dirá) vai escrever aqui para este blogue umas "Notinhas australianas". Para nós aproveitarmos os olhos e os ouvidos atentos dele, agora que estão do outro lado do mundo e que continuam bem ligados ao seu cérebro. Vai ser semanal, às segundas-feiras... até ele se aborrecer, ser raptado por aborígenes, ou... Portanto: a partir de agora, às segundas, "notinhas australianas". Para facilitar a consulta, foi criada uma categoria ("Temas" na coluna da esquerda) reservada a essa linha de colaboração. Fica o aviso.
Publicado por Porfírio Silva em 11:11 PM

abril 19, 2004

Notinhas australianas (1)

Inicio hoje uma colaboração regular por três meses, durante os quais enviarei semanalmente um pequeno texto acerca desta cidade (Sydney) e deste país que descobri há dois anos com admiração e prazer. Serão pequenos apontamentos sobre curiosidades, perplexidades e outras ….ades. Hoje, para fazer jus ao título genérico destes textos, vou falar de notas, sim notas de dinheiro, notas de dólares australianos: os australianos têm muito orgulho nas suas originalidades e uma delas é o seu dinheiro, que é…. de plástico! As notas de plástico são mais resistentes do que as de papel, são mais difíceis de dobrar, mas uma vez que tenham uma dobra é difícil tirá-la. Parecem resistir melhor à deterioração do que as de papel. O mais curioso é que a Austrália não tem propriamente falta de madeira (é um dos maiores exportadores mundiais). O certo é que esta solução australiana tem tido algum êxito na região, já que a Austrália fabrica notas (de plástico) para a Tailândia, Indonésia, Papuasia-Nova Guiné, Kuwait, Samoa, Singapura, Brunei, Sri Lanka e Nova Zelândia. Actualmente o dólar australiano vale aproximadamente 0,66 euros, isto é, 1 euro equivale mais ou menos a 1,5 dólares australianos. Como sempre, tentarei completar estes pequenos apontamentos com a indicação de páginas na Internet onde haja mais informações sobre o tema tratado. Quanto a notas de plástico, aconselho: http://www.questacon.edu.au/html/plastic_banknotes.html

Miguel Magalhães, em Sydney

Publicado por Porfírio Silva em 09:38 AM | Comentários (2)

abril 26, 2004

O 25 de Abril australiano (Notinhas australianas 2)

Na Austrália, o 25 de Abril é feriado: chama-se Anzac Day e a sigla ANZAC quer dizer Austrália and New Zealand Army Corps, o nome do corpo expedicionário destas antipódicas nações que desembarcou na manhã de 25 de Abril de 1915 na península de Gallipoli (Turquia), para uma das mais sangrentas batalhas da primeira Grande Guerra (ver o filme "Gallipoli" de Peter Weir) . Para quem quiser saber mais sobre o Anzac Day: http://www.anzacday.org.au/ .
O Anzac Day é o verdadeiro grande feriado nacional da Austrália, embora também haja um Australia Day (http://www.nadc.com.au/) em 26 de Janeiro. O problema é que o 26 de Janeiro celebra o dia em 1788 em que o capitão Arthur Phillip tomou formalmente posse da colónia da Nova Gales do Sul, tornando-se o primeiro governador desta colónia britânica. Ora, existe hoje na sociedade australiana uma forte corrente que pretende revalorizar a história deste país anterior à chegada dos europeus: na própria página do Australia Day estão reflectidos esses pontos de vista (http://www.nadc.com.au/ausindigenous.asp).
O que é curioso na popularidade do Anzac Day é que se trata dum feriado amado por gente com perspectivas muito diferentes, desde os que pensam com orgulho no heroísmo dos defensores "do Rei e do Império" até aos que olham com raiva para o desperdício de vidas em Gallipoli e noutras batalhas, nomeadamente em Singapura, em que as forcas australianas e neo-zelandesas, maioritariamente de infantaria, foram prejudicadas por comandos ineptos (britânicos). A verdade é que o número de baixas australianas em 1915-1918 foi o maior (proporcionalmente) dos países envolvidos, o que significa que quase todos os australianos têm histórias familiares dessa guerra. No Anzac Day celebram-se todos os mortos de todas as guerras em que a Austrália esteve envolvida, desde as duas guerras mundiais até à Coreia, o Vietname, bem como intervenções mais limitadas nesta região (Papuásia-Nova Guiné, ilhas Salomão, Fidji, Timor-Leste).
Tenho alguma admiração por esta capacidade de esquecer conflitos internos face à grandeza dos compromissos externos. Também eu, que me opus à guerra colonial e me recusei a participa nela, me sinto solidário dos da minha geração que nela participaram, pois os motivos de base de uns e outros eram os melhores: fazer aquilo que pensávamos ser melhor para o país. Bem sei que me podem dizer que muitos dos que fizeram a guerra a fizeram obrigados, mas eu penso que muitos também a fizeram voluntariamente e não é menos verdade que nas universidades portuguesas da época a tendência dominante nos anos 1970-74 era ser contra a guerra e essa tendência também condicionava muita gente. A ideia de que todos os anti-guerra eram esclarecidos e todos os pró-guerra (desculpem a terminologia simplificadora) eram manipulados é duma arrogância intelectual imprópria de pessoas bem formadas (desculpem a terminologia arcaica).
Para finalizar, dedico estas minhas palavras anteriores ao António Costa Pinto, que é das pessoas mais qualificadas para coordenar as celebrações do nosso 25 de Abril. É um historiador competente, que pôs a História de Portugal do sec. XX no mapa da História Internacional e, tendo combatido a ditadura, não se julga moralmente superior por isso.
Miguel Magalhães, em Sydney
Publicado por Porfírio Silva em 09:59 AM | Comentários (0)

maio 03, 2004

Os australianos indígenas (Notinhas australianas 3)

Da minha crónica anterior: "O Australia Day ( http://www.nadc.com.au/ ), em 26 de Janeiro, celebra o dia em 1788 em que o capitão Arthur Phillip tomou formalmente posse da colónia da Nova Gales do Sul, tornando-se o primeiro governador desta colónia britânica. Ora, existe hoje na sociedade australiana uma forte corrente que pretende revalorizar a história deste país anterior à chegada dos europeus."
Hoje vou falar, portanto, daquilo que se convencionou designar por "A questão dos aborígenes": há duas semanas o governo de John Howard decidiu eliminar a Comissão que trata do apoio público às comunidades indígenas, a Aboriginal and Torres Strait Islander Commission, que tinha sido criada há 15 anos. Não se pense, no entanto, que esta foi uma decisão unilateral, pois Mark Latham, o líder do principal partido da oposição (Partido Trabalhista da Austrália) já tinha declarado há um mês que, se fosse eleito, dissolveria a dita Comissão por motivos idênticos: má gestão de fundos públicos, corrupção, incapacidade para diminuir o fosso social e económico existente entre a população indígena (pouco mais de 1% da população total) e a restante população australiana. Quando há 15 anos foi decidido criar esta Comissão, também tinha havido acordo entre os dois maiores partidos (Trabalhista e Liberal) e a instituição deste organismo tinha correspondido a um sentimento generalizado entre a opinião pública de que, finalmente, iria ser possível melhorar o destino das comunidades aborígenes. É, pois, uma infeliz constatação de fracasso a que assistimos actualmente. Para mais informações: http://www.atsic.gov.au/ .
Esta capacidade de entendimento dos dois maiores partidos acerca das "grandes questões" do país é assumida sem complexos, independentemente do calor dos confrontos eleitorais, pois há que lembrar que na Austrália haverá certamente ainda este ano eleições legislativas e os Partidos Trabalhista (Mark Latham) e Liberal (John Howard) estão praticamente empatados nas sondagens. Talvez tudo seja apenas uma questão de "horas de voo" das democracias, como dizia com graça há uns dias António Barreto. Na verdade, o Partido Trabalhista da Austrália foi o primeiro no mundo a exercer o poder (o centenário do feito foi festejado na semana passada) e na Austrália as mulheres têm direito a voto desde o princípio do século XX!!! (Ler mais em http://www.onlinewomeninpolitics.org/suffr_chrono.htm.) Só não foram os primeiros, porque essa honra coube aos vizinhos da Nova Zelândia.
Miguel Magalhães, em Sydney
Publicado por Porfírio Silva em 09:50 AM | Comentários (1)

maio 10, 2004

Os Estados australianos e a Federação (Notinhas australianas 4)

Hoje vou falar das rivalidades entre Estados da Federação. A Austrália tem 6 Estados com constituições e parlamentos (duas câmaras) próprios: New South Wales (capital: Sydney), Victoria (Melbourne), South Australia (Adelaide), Western Australia (Perth), Tasmania (Hobart) e Queensland (Brisbane; uma só câmara). As duas restantes regiões têm estatutos especiais: a Australian Capital Territory (Canberra), por ser um mini-estado criado exclusivamente para albergar a capital da Federação, e os Northern Territories (Darwin), por serem uma espécie de "região assistida", que tem beneficiado de consideráveis transferências financeiras da Federação.
Como acontece frequentemente em Estados federais, as rivalidades inter-Estados são patentes, mas nenhuma rivalidade se compara à que opõe as capitais dos primeiros Estados em termos cronológicos: Sydney e Melbourne. Estas duas cidades enormes (cerca de 4,5 milhões de habitantes cada uma, isto é, as duas juntas contêm quase metade da população australiana), que se estendem por cerca de 50 km para Norte, Sul, Leste e Oeste relativamente ao centro, foram e são rivais em quase tudo. A melhor cerveja do mundo é a "Victoria Bitter" em Melbourne e a "Toohey's" em Sydney, o desporto mais popular é o futebol australiano (parecido com o futebol gaélico praticado no País de Gales e na Irlanda) em Melbourne e o râguebi em Sydney (a versão preferida é o "Rugby League", jogo de países anglófilos que se joga com treze jogadores (em vez dos 15 do "Rugby Union") e tem algumas regras diferentes da versão "Union" praticada em muito mais países. Os habitantes de Sydney (Sydneysiders) consideram os de Melbourne "snobes e intelectuais" e os de Melbourne consideram os de Sydney "fúteis e superficiais". Uma típica piada de Melbourne: "Aqui é costume organizar-se uma festa quando se publica um livro. Lá basta o autor ter uma ideia para o próximo livro."
Enfim, a verdade é que Sydney é incomparavelmente mais bonita, tem melhor clima e se tornou a cidade mais importante da Austrália. Melbourne, que foi durante muito tempo mais importante, enquanto viveu do rescaldo do seu "Gold Rush" do século XIX, deixou de o ser e este facto é difícil de engolir. Não nos esqueçamos que, em 1956, pela primeira vez, os Jogos Olímpicos disputaram-se na Austrália, precisamente em Melbourne, e só 44 anos mais tarde, em 2000, é que Sydney conseguiu a sua vez. Foi também esta rivalidade que determinou a fundação de Canberra em 1911, dez anos depois de as diversas colónias britânicas que constituiam a Austrália terem decidido tornar-se uma federação independente. Nesses dez anos, Melbourne e Sydney envolveram-se numa luta sem quartel, cada uma a oferecer mais do que a outra, para convencerem os outros Estados a designarem uma delas capital federal. A solução que se acabou por encontrar foi um território do tamanho do Luxemburgo, doado pelo Estado de Nova Gales do Sul, para se construir uma capital mais ou menos a meio-caminho entre as duas eternas rivais (de facto, é um pouco mais perto de Sydney do que de Melbourne). Tratava-se então duma enorme exploração de gado ovino ("sheep station"), conhecida pelo nome de "Canberry", anglicização do nome indígena Canberra. A discussão sobre o nome a dar à cidade foi bastante pitoresca (chegou a haver a proposta de a chamar "Shakespeare"), mas acabou por singrar o nome aborígene que, por felicidade, quer dizer "lugar de encontro". Como acontece com muitas cidades criadas por motivos unicamente políticos, é bastante mal-amada: "a place for dippos, journos and polles", isto é, traduzindo do australiano, para diplomatas, jornalistas e políticos.
(...continua na próxima semana...)
Miguel Magalhães, em Sydney
Publicado por Porfírio Silva em 09:02 AM | Comentários (0)

maio 17, 2004

Os Estados australianos e a Federação (Notinhas australianas 5)

Desculpem o comprimento da minha última notinha, mas tinha de dar alguma informação de base para dar sentido ao que quero dizer. É que uma das curiosidades que permite aqui a qualquer pessoa manifestar uma lealdade pessoal ao "seu" Estado é a retórica das chapas de matrícula dos automóveis. Eis alguns exemplos: http://www.gugus.com/au/roli_e/e_carpl.htm. É claro que, como acontece noutros países de língua inglesa, hoje em dia é possível obter chapas de matrícula verdadeiramente personalizadas: http://www.rta.nsw.gov.au./registration/numberplates/pricelist.html. Esta tendência para a autopromoção está a diluir as rivalidades inter-estatais, porque deu também origem a rivalidades inter-regionais: http://www.regionalplates.com/.
Enfim, eu, que sou duma época em que havia poucos automóveis, lembro-me de me distrair com os meus irmãos em longas viagens no automóvel dos meus pais (há 40 anos 100 km era uma longa viagem, com direito a paragem para piquenique), contando os automóveis (tantos VW, tantos FIAT, tantos Ford, etc.). Hoje, na Austrália, quando me quero distrair a olhar para os automóveis, tento decifrar chapas de matrícula supostamente engraçadas: UTRYIT (que se pode ler "you try it") foi uma que vi há alguns dias.
Voltando às chapas de matrícula dos Estados, a mais divulgada na Austrália do Sul é "South Australia - The Festival State". Porquê? Porque Adelaide, a capital deste Estado, foi a primeira grande cidade australiana a apostar num grande Festival das Artes para se promover. O modelo foi seguido por todas as outras e Sydney não é excepção: Maio e Junho são meses de grande actividade artística e cultural em Sydney. De 17 a 23 de Maio decorre o Sydney Writers' Festival - http://www.swf.org.au/ -, em que participam mais de 200 escritores dos mais variadas especialidades. No dia 3 de Junho inaugura a Biennale of Sydney, International Festival of Contemporary Art - www.biennaleofsydney.com.au -, que se prolonga até final de Agosto, com obras de 50 artistas de mais de 30 nacionalidades. Seguidamente, de 11 a 26 de Junho, decorre o Sydney Film Festival - http://www.sydneyfilmfestival.org/. Isto é, num espaço de menos de um mês, são inaugurados três grandes festivais internacionais, com bastante prestígio na respectiva área. Espero na próxima semana começar a dar notícias destes festivais, e também começar a escrever sobre uma questão que está a "aquecer" aqui na Austrália: o petróleo de Timor. Ontem (10 de Maio), no principal canal nacional de televisão (ABC), passou às 20,30 uma longa reportagem muito bem documentada e bastante favorável às posições timorenses; a imprensa escrita também não parece muito convencida pelos argumentos do governo australiano. A ver vamos....

Miguel Magalhães, em Sydney

Publicado por Porfírio Silva em 09:47 AM | Comentários (0)

maio 24, 2004

O petróleo do mar de Timor (Notinhas australianas 6)

Como prometi na minha crónica anterior, vou falar da questão do petróleo do mar de Timor. Pequeno resumo: A Austrália assinou um acordo com a Indonésia que lhe é bastante favorável, porque o fez numa época em que a ditadura de Suharto precisava de reconhecimento internacional como pão para a boca, devido à oposição internacional à sua ocupação de Timor-Leste. Um pequeno resumo da situação pelo respeitado jornalista australiano John Pilger: aqui. O programa do I Governo Constitucional de Timor-Leste explica claramente a vontade de negociar as fronteiras marítimas, quando refere a questão do petróleo: aqui .
Durante o período de transição, os australianos tentaram repetidamente pressionar os dirigentes timorenses para que ratificassem o acordo enquanto novo país independente. Felizmente, os dirigentes timorenses, bem aconselhados pela ONU, nunca "enfiaram o barrete" e agora, como constataram que a Austrália está a agir de má-fé, adiando sistematicamente as negociações enquanto continua a bombear petróleo nas concessões que são objecto de litígio, optaram, e bem, por combater as posições australianas dentro da própria Austrália. Eis dois exemplos de posições australianas pró-timorenses: aqui e aqui.
Há uns dias, Alexander Downer, o ministro dos Negócios Estrangeiros, fez declarações que demonstram que "sentiu o toque". Num tom enfadado, afirmou que "a táctica escolhida pelos timorenses de tentarem culpabilizar os australianos mostra a sua ingratidão face aos milhões de dólares dos contribuintes australianos que gastámos para assegurar a independência de Timor-Leste". É claro que podemos contra-argumentar que, se Timor-Leste conseguir que sejam reconhecidos os seus direitos no mar de Timor, a soma despendida pela Austrália será bem inferior à que já obtiveram da exploração do petróleo nas áreas contestadas. Além disso, a Austrália, embora de facto tenha dado um contributo positivo para a independência de Timor-Leste, nos anos que precederam o referendo apoiou ininterruptamente a Indonésia de Suharto, facto pelo qual foi amplamente "recompensada" através dum acordo "de amigos" sobre a exploração do petróleo do mar de Timor.
A 20 de Maio foi celebrado também aqui na Austrália o segundo aniversário da independência de Timor-Leste. Em Sydney, algumas centenas de manifestantes protestaram contra as posições australianas no que diz respeito ao petróleo do mar de Timor. O cônsul timorense nesta cidade esteve presente e declarou que "a Austrália deveria compreender que é do seu próprio interesse ter um Estado vizinho que seja estável e próspero". O noticiário da noite na televisão falou de manifestações "all over Australia", mas sem especificar, o que me faz pensar que há alguma movimentação, mas ainda confinada ao lobby favorável a Timor-Leste. Assunto a seguir atentamente...

Miguel Magalhães, em Sydney

Publicado por Porfírio Silva em 02:35 PM | Comentários (0)

maio 31, 2004

Ainda o petróleo de Timor, mas também a Bienal de Sydney (Notinhas australianas 7)

Ontem, dia 25 de Maio, o principal jornal desta cidade, o Sydney Morning Herald publicou um artigo com um resumo duma entrevista a Xanana Gusmão, sob o título "How can we behave like beggars?", em que o presidente de Timor-Leste critica duramente a Austrália pelo seu comportamento quanto ao petróleo de Timor. O editorial do mesmo jornal, sob o título "A fair go for East Timor", critica claramente o governo australiano. A expressão "a fair go" é uma espécie de leitmotiv da política australiana, muito marcada pela noção de igualdade de oportunidades. No mesmo jornal de hoje, 26 de Maio, são publicadas 5 cartas de leitores sob o título "Greed over Timor gas and oil shames Australia" (Ganância com petróleo e gás de Timor envergonha a Austrália), das quais 4 são claramente contrárias às posições do governo australiano e a única que tenta desculpá-las termina concluindo que a posição australiana "seems petty, to say the least" (parece, no mínimo, mesquinha). Esta carta contém um elemento interessante, que é sublinhar o facto de a renegociação proposta por Timor-Leste implicar também a negociação de fronteiras com a Indonésia. A Austrália está portanto, mais uma vez, a tirar partido das dificuldades de Timor-Leste com o seu poderoso vizinho, adiando negociações que não lhe convêm, sob o pretexto de "não pressionar a Indonésia". A prova de que os timorenses já perceberam o jogo cínico do governo australiano é a forma como estão a encarar a questão do general Wiranto, anunciando publicamente que não insistirão em persegui-lo judicialmente. Estão assim a agir prudentemente para ultrapassar o passado, por muito que isso custe a pessoas mais sensíveis. Note-se ainda que há duas semanas Ramos Horta foi o principal convidado dum dos principais talkshows da televisão australiana, tendo aproveitado a ocasião para evocar com veemência a questão do petróleo. Entretanto, soube-se que os australianos terão pedido discretamente aos negociadores timorenses que se abstivessem de tentar mobilizar a opinião pública australiana. A resposta foi inequivocamente negativa. Xanana diz na supracitada entrevista que os timorenses se consideram nesta questão como "David contra Golias" e os australianos não devem esperar que Timor-Leste renuncie a todas as armas de que possa dispor. De qualquer forma, o facto de os australianos estarem a "pedir batatinhas" demonstra que estão incomodados. Continuarei atento a esta questão...

Estamos a dez dias da inauguração oficial da Bienal de Sydney , que será a 4 de Junho (3 de Junho para imprensa e convidados). A maior parte dos artistas já se encontra em Sydney, o catálogo está impresso (início da distribuição: 1 de Junho) e a montagem está a decorrer em bom ritmo. As primeiras notícias começaram a aparecer nos jornais de referência, o já citado Sydney Morning Herald e The Australian , o único grande jornal verdadeiramente nacional, embora seja editado em Melbourne (todos os outros jornais importantes são estaduais). Na próxima notinha espero poder relatar algo mais sobre os dias finais antes da inauguração.

Miguel Magalhães, em Sydney
Publicado por Porfírio Silva em 09:10 AM | Comentários (0)

junho 07, 2004

A Bienal de Sydney (Notinhas australianas 8)

Ontem, dia 1 de Junho, começaram as festividades de pré-inauguração da Bienal de Sydney. Talvez se lembrem daquela definição que os de Melbourne dão da actividade festiva de Sydney: "aqui em Melbourne só damos festas para coisas importantes, por exemplo o lançamento dum livro. Lá em Sydney qualquer pretexto serve, basta o autor ter uma ideia para o próximo livro." Pois com a Bienal passa-se o mesmo. Ontem, houve a pré-inauguração na Art Gallery of New South Wales, hoje acontece idêntica cerimónia no Museum of Contemporary Art. Ontem também, houve três inaugurações noutras tantas galerias que representam artistas presentes nesta edição da Bienal e, last but not least, houve ainda a festa oferecida pelos cônsules europeus em Sydney aos artistas, que se realizou no Consulado da Irlanda.
Entretanto, a cidade está cheia de publicidade da Bienal e todos os dias saem reportagens nos jornais. Provavelmente, em Portugal irão ser publicadas notícias brevemente (o Público enviou uma jornalista, Vanessa Rato). Daqui até ao fim-de-semana, continuarão as festas, motivo pelo qual esta notinha desta semana será a mais curta de que há memória. Para a semana espero poder voltar com mais sumo e, sobretudo, recuperado.
Miguel Magalhães, em Sydney
Publicado por Porfírio Silva em 11:07 AM | Comentários (0)

junho 14, 2004

Bienal de Sydney, Dia de Portugal (... e esta vai ser a antepenúltima notinha australiana - 9)

A Bienal tem recebido cobertura jornalística em Portugal através do jornal Público, que enviou a jornalista Vanessa Rato a Sydney. Por esse motivo, limitar-me-ei a uma ou duas informações adicionais. A conferência inaugural da Bienal, um dos poucos eventos com ingresso pago, foi um grande êxito, tendo os bilhetes esgotado no segundo dia de venda ao público. Beatriz Colomina, Professora de Arquitectura e Directora do Program on Media and Modernity na Universidade de Princeton, deu uma conferência especialmente preparada para a Bienal de Sydney em que falou do projecto de casa do futuro dos arquitectos Alison e Peter Smithson, que foi apresentado em 1956 no âmbito do Daily Mail Ideal Home Show. A Bienal tem um extenso programa de conferências, sobre o qual falarei mais detalhadamente na próxima semana.
Hoje é Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas e o nosso Cônsul-Geral em Sydney organizou um almoço volante no Parlamento da Nova Gales do Sul. O discurso inicial de boas-vindas foi feito pelo Presidente do Parlamento. Simultaneamente foi inaugurada uma exposição da fotógrafa Justine Kerrigan, que documenta a montagem das várias exposições da Bienal. O Consulado tem uma página Internet com muita informação útil acerca da pequena comunidade portuguesa que vive na Austrália.
Nas próximas duas semanas darei mais informações sobre a presença portuguesa na Austrália. Entretanto, para algumas informações históricas de base, aconselho a página do Professor luso-australiano Chrys Chrystello (ver o artigo Yawujibara).
Miguel Magalhães, em Sydney
Publicado por Porfírio Silva em 09:26 AM | Comentários (0)

junho 21, 2004

Conferências da Bienal de Sydney e a questão aborígene (Notinhas Australianas 10)

A Bienal de Sydney tem um extenso programa de conferências nos dois principais museus participantes: Museum of Contemporary Art e Art Gallery of New South Wales (http://www.biennaleofsydney.com/2004/whats_on.html ).
Um dos pontos discutidos logo nos primeiros dias que suscitou maior interesse é o do difícil equilíbrio, que hoje se procura de algum modo alcançar em todas as sociedades, entre identidade e universalismo. Um dos participantes, Nikos Papastergiadis, Director do Australian Centre da Universidade de Melbourne, falou sobre The Traffic and Ruins of Art and Globalization. Infelizmente, não disponho de resumo, mas há uma recensão sobre um livro coordenado pelo mesmo autor sobre o mesmo tema: http://www.lib.latrobe.edu.au/AHR/archive/Issue-April-2004/maclean.html.
Um dos aspectos tratados pelo Professor Papastergiadis foi precisamente a questão do desmantelamento da Aboriginal and Torres Strait Islander Commission , sobre a qual falei na notinha número 3. Quando este desmantelamento foi anunciado em Junho, John Howard, o actual primeiro-ministro, aproveitou a ocasião para falar do "fracasso do multiculturalismo", tentando assim desqualificar décadas de esforços para melhorar a sorte das populações aborígenes e das populações recentemente emigradas para a Austrália. A posição de John Howard representa a duma parte importante do seu eleitorado, que nunca viu com bons olhos quaisquer esforços de integração que pudessem pôr em causa a velha matriz anglo-saxónica e vitoriana deste pais, que foi predominante até meados dos anos 60. Note-se que só em 1967 é que foram retirados da constituição os artigos discriminatórios dos aborígenes e, para que tal acontecesse, foi necessário um referendo em que, claro, os aborígenes nem sequer podiam votar, dado que não lhes era reconhecida a cidadania: http://www.naa.gov.au/fsheets/fs150.html.
Felizmente, este país mudou bastante nestes últimos 40 anos e hoje há uma grande percentagem da população (mesmo entre o eleitorado conservador) que apoia a causa dos aborígenes. Por exemplo, no Museum of Contemporary Art, ao lado da bandeira oficial da Austrália, está arvorada a bandeira aborígene: http://www.itsanhonour.gov.au/flag/indigenous_people.html. Em muitos carros, casas e barcos de Sydney vê-se a bandeira aborígene. Muitos, neste caso, quer dizer muito mais do que a percentagem de pouco mais de 1,5%, que corresponde à da população aborígene da Austrália comparada com a população total.
Se é pois verdade que muitas das boas intenções dos últimos quarenta anos não chegaram para mudar radicalmente a situação de miséria de muitas populações aborígenes, não é menos verdade que a Austrália é hoje muito mais aberta ao mundo e a uma releitura menos "imperial" da sua história. Apesar do conservadorismo racial ainda ser importante (mesmo entre o eleitorado progressista), a verdade é que tem perdido constantemente terreno nas últimas décadas. Por isso, o mal disfarçado contentamento de John Howard com o "fracasso do multiculturalismo", além de ser tremendamente injusto para muitas pessoas de boa vontade que muito contribuíram para melhorar este país, talvez não o faça sorrir daqui a uns tempos, se todos os que sinceramente lamentam o dito "fracasso" forem capazes de tirar as necessárias lições para novos avanços na reconciliação que tanta falta faz à Austrália para que possa ser respeitada e apreciada enquanto nação.
Miguel Magalhães, em Sydney
Publicado por Porfírio Silva em 09:00 AM | Comentários (0)

junho 28, 2004

De Sydney a última notinha australiana (11)

Chegou a altura de me despedir das pessoas que têm lido estas notinhas, que foram escritas sem grandes pretensões, apenas para registar algumas opiniões duma pessoa que veio à Austrália há dois anos, gostou do país, fez amizades e viveu aqui durante os últimos três meses. Nesta última "notinha" faço um breve resumo de três assuntos que gostaria de ter tratado e que deixei por tratar ou tratei incompletamente:

1 - A Austrália para além de Sydney: só falei ocasionalmente deste vasto país, mas a verdade é que desta vez viajei pouco e acabei por não encontrar motivação para falar doutras grandes cidades australianas que conheci há dois anos (Melbourne e Adelaide) ou agora (Brisbane) e sobretudo das zonas mais remotas (Deserto Central, Northern Territories, Kimberleys) onde aprendi há dois anos o (pouco) que sei sobre as populações indígenas da Austrália e as suas culturas.

2 - A presença portuguesa: acabei por só falar uma vez no assunto na notinha número 9. Infelizmente, não tive tempo para investigar alguns dados interessantes que me chegaram às mãos, como, por exemplo, a fundação de Watson's Bay por pescadores portugueses. Uma breve explicação: Watson's Bay é a última das 6 baías situadas entre o porto central (onde fica a ópera de Sydney) e a barra (isto apenas na costa Norte, já que na costa Sul há outras 6). Foi até há poucas décadas uma aldeia de pescadores e ainda hoje é conhecida como zona de bons restaurantes de peixe, sobretudo o famoso Doyle's, que é da família Doyle há 5 gerações e é o mais conhecido restaurante de peixe de Sydney. Actualmente, aliás, há quatro Doyle's em Sydney, mas o original é o da praia de Watson's Bay ( http://www.doyles.com.au/ ).

Li, num livro de memórias de Alice Doyle, que Watson's Bay tinha sido fundada no início do século XIX por pescadores portugueses que tinham desertado dum navio baleeiro dos Estados Unidos que estava a pescar ao largo das costas da Nova Gales do Sul. Infelizmente, não tive tempo para aprofundar o assunto, mas vi documentado que entre os pescadores de Watson's Bay no século XIX havia uma larga percentagem de portugueses e algumas receitas dos livros de Alice Doyle são "portuguesas": as "Portuguese mussels" que ainda hoje aparecem por vezes na ementa do Doyle's são aquilo que nós designaríamos por "mexilhões à espanhola". Enfim, lamento não ter podido investigar melhor este assunto e volto a dar o endereço da página do consulado de Portugal em Sydney, pois contém dados interessantes sobre os portugueses na Austrália: ( http://www.consulportugalsydney.org.au/) .

3 - O clima das cidades australianas, a proximidade do deserto e o problema da água: penso ter falado brevemente, numa das primeiras "notinhas", da estranha distribuição da população australiana, quase toda concentrada em grandes cidades da costa e respectivos subúrbios (de oeste para este: Perth, Adelaide, Melbourne, Sydney e Brisbane). Destas cinco, só Brisbane não tem sérios problemas de falta de água. Em Sydney, por exemplo, não chove praticamente desde Fevereiro (comparando com Portugal, seria como se não chovesse uma única vez entre Julho e Dezembro), há restrições drásticas ao consumo e as barragens que abastecem a cidade estão com água a menos de 50% da capacidade. Perth vive há mais de vinte anos com constantes restrições ao consumo de água. Esta crescente seca tem a ver com a alteração climática global, mas também com práticas agrícolas de grande produção que muito têm contribuído para a erosão dos solos. Não tenho preparação científica para poder falar seriamente sobre o assunto, por isso limito-me a deixar este curto apontamento e um endereço: ( http://www.sydneywater.com.au/ ).

Adeus pois e os meus agradecimentos ao Porfírio por me ter proporcionado este espaço.

MIGUEL MAGALHÃES, em Sydney

NOTA DO EDITOR: Termina, por ora, a "coluna" do Miguel Magalhães aqui no blogue. Foram onze semanas seguidas de "crónicas" da Austrália. Estou muito contente de me ter lembrado de lhe fazer este desafio quando soube que ele partia para aquela parte do nosso mundo. Muito lhe agradeço por ter trazido aqui um ponto de vista pouco habitual para o nosso eurocentrismo. Infelizmente, a azáfama dos últimos tempos não me deixou dar-lhe toda a atenção que eu pretendia, o que passava por entrar em diálogo com ele a propósito de algumas coisas que o Miguel ía escrevendo. Talvez isso venha a acontecer a posteriori, quem sabe. Muito obrigado, Miguel. E boa viagem de regresso à barbárie...
Publicado por Porfírio Silva em 06:53 PM | Comentários (0)