novembro 08, 2003

FAHRENHEIT 452 (carta aos novos poetas portugueses)

passas a mão pelo pêlo do bicho
e escreves "hirto, o pêlo do bicho"
e confias que eu compreenda:
porque conheço o pêlo, conheço o bicho e conheço "hirto"
já os encontrei em outros dias não olvidados
já usei essas palavras e esse bicho
tudo isso tu esperas

imaginas que por muito pobre que eu seja hei-de ter visto um bicho algures
afinal, livros com histórias compreensíveis estão à venda nos quiosques de jornais
qualquer jornal televisivo encontra cientistas sociais nos seus inquéritos de rua
alma por alma, tens a tua, imaginas tu nos teus diálogos amorosos comigo, teu leitor;
mesmo os pedintes podem nos cruzamentos ver toda a sorte de fantasias
como se acolitassem o sumo pontífice em audiência à embaixada
que o pitoresco e gastador monarca enviou com elefantes e onças amestradas
para que se soubesse na cristandade a ventura que era ser rei deste reino de portugal
e ter assistido à descoberta do caminho marítimo para a índia e à rota do brasil

o que tu não podes saber é de onde conheço eu o bicho
nada suspeitas quanto a que hirto está o meu pêlo
e que o que mais temo é que me toques o dorso
e que o meu receio é a fraca agilidade para morder-te a mão;
transtorna-me que penses sequer no meu abrigo natural
e não penso uma só vez que isso aconteça apenas na camada de cima do teu poema

se pudesses morder-me, eu compreendia-te
mas tu escreves para que as palavras me façam sentido
para que haja uma palavra tua para cada tijolo do mundo
seja por nomeares as peças da máquina com palavras próprias
seja por podares as palavras sem dono
e isso cria-me o desconforto de sugerir que te compreendo:
parece que me desejas um abrigo
imagino a tua disposição para me acolher no recanto de onde parte o teu olhar
e isso incomoda-me

se quisesse morder-te, compreendia-te
mastigar explica muita coisa
mas como queres que a gente se morda num abrigo?
se me expulsasses
se pairassem alienígenas nas nossas salas
se as nossas mães com armas mirabolantes se apresentassem nos nossos quartos
e os nossos filhos fossem enxertados em artefactos engenhosos
se os incendiários não usassem tão apenas querosene
talvez o falecer da compreensão me ajudasse
- mas como queres que valha a pena ouvir o que já está escrito?

Podes até acariciar-me, isso não faz mal algum
porque nada explica
mas esquecem-se-me os poemas, prefiro as parábolas
fugidias.


Publicado por Porfírio Silva em 05:56 PM | Comentários (0)

novembro 25, 2003

Prudência.

Está a bordo um apontamento sobre uma informação publicada em Rua da Judiaria e que, por sua vez, Aviz comentou. O que nos diz a bordo tem a ver com a prudência e com a relação, em ética, entre o geral e o "aqui e agora". Permito-me, pois, comentar esse ponto escaldante, mais escaldante do que possa parecer aos que julgam que as normas gerais resolvem tudo. Comentar à minha maneira, claro. Com um pequeno excerto de "parábolas e argumentos".

parábolas e argumentos (excerto)

Na primeira assembleia,
conhecido que leis importantes são as das pequenas coisas,
discutia-se a regra segundo a qual um pombo
encontrado a menos de cinquenta passos do pombal
pertence, descontados incidentes supervenientes, ao proprietário
e para lá daquela distância, ao autor do seu achamento,
quando um ancião que propôs a pergunta
"que fazer quando as patas do pombo foram encontradas
uma a menos e a outra a mais de cinquenta passos?"
foi escorraçado: crueldade?
Crueldade é não fazer como o juiz prudente
que evita a proliferação dos precedentes limitando o dispositivo invocado
que recusa antever todas as horas até ao fim dos tempos
e a vinculação futura de todos os juízes havidos e a haver
às minúcias e detalhes caprichosos do caso vertente.
E desde que a palavra chegou à cidade
nada no mundo lhe é indiferente.

in Porfírio Silva, A Arquitectura do Pecado

Publicado por Porfírio Silva em 03:16 PM | Comentários (0)

dezembro 10, 2003

parábolas e argumentos (outro excerto)

Desde a invenção dos argumentos / e a sua colocação iminente no plano da justificação e do bom fundamento, / insistem escolas e santos doutores em tresler / em quanto concerne ao apropriado do seu campo de aplicação / e cada um grava na pedra o mais que pode dos rendilhados do seu espécime. / Insiste Anselmo que àquele «algo maior do que o qual nada pode ser concebido» / que existe no entendimento / não pode faltar a perfeição da existência / fora do entendimento, / sem deixar Gaulino, monge, de lhe replicar / que houvera de ser certo então existir uma ilha perfeita / pois uma ilha perfeitíssima que existe unicamente na imaginação / não é obviamente tão boa como uma que realmente existe nas águas / - enquanto a nós, mais lhanamente, ocorre perguntar se ninguém reparou que / tudo quanto existe, vemos que não é perfeito / e nisso até achamos graça e diferença. / Se, em sua pequenez relativa ou absoluta, todo o ente depende de algum outro ente / e tal, de razão, pede um ser supremo que de coisa nenhuma está suspenso e por si só, é; / e se a este argumento cosmológico cedemos consideração / bem como às variantes do relógio que pede um relojoeiro e da obra que pede um arquitecto / - não vislumbramos assim mesmo em quê nem por quê / daí resulta na divindade qualquer solicitude ou interesse por nós, / conquanto não conste que ocorresse a alguém / aplicar o argumento das mãos sujas à origem do universo, / como se o criador tivesse pensado de si para si / resignado / "se não formos nós a fazê-lo, alguém o fará".

in Porfírio Silva, A Arquitectura do Pecado

Publicado por Porfírio Silva em 05:29 PM | Comentários (1)

dezembro 16, 2003

harém (excerto)

Entretanto, a verdadeira Xerazade nunca viu à sua volta belezas despidas e mudas,
a sua única dança é a das palavras pela noite dentro
e quando olha dois de nós, dos que viram numa prisão apalaçada um festim orgiástico,
face ao desvario, pensa:
no caso de uma revolução, qual deles mandaria matar o outro?

Se o axioma da conservação da continuidade explicasse o mundo
e o demónio de Laplace conhecesse os estados iniciais de todas as partículas
e todas as forças de que é composto o universo,
os modelos de funções analíticas explicariam
a génese e a mutação das formas
o nascimento e a morte dos alicerces
o gérmen de fissura nas caves da construção
a multiplicação dos exércitos de um homem só
as crianças com uma face que ri e outra que chora
e os lagos como o de Balkashe: metade é salgado, metade é doce
os peixes de água doce na metade salgada
os peixes de água salgada na metade doce.
Mas não explica.

in Porfírio Silva, A Arquitectura do Pecado

Publicado por Porfírio Silva em 11:21 AM | Comentários (0)

dezembro 17, 2003

Heresias e outros caminhos

Leio, em a bordo, numa entrada de ontem 16 de Dezembro de 2003: "Ao contrário das confissões que de algum modo tenderam a fazer santos de todos os fiéis, o Catolicismo sempre foi um comboio com duas carruagens. Ao lado dos que se submetiam à disciplina da santificação, sempre teve espaço para aqueles que não a suportaram por esta ou aqueloutra razão. Para uns e para nós, isto é uma virtude. Outros poderão – e justificadamente o fazem – ver nisto apenas um pretexto para o pecado e para o vício." Deixe-me conversar consigo, nessa clave, como segue.

parábolas e argumentos (outro excerto)


Mas em certa linhagem Nabucodonosor não entra e se entra se confunde,
pois o arquitecto, avisado, nas parábolas labirintos inacabados determinou.
Que o trigo desejado e o joio acrescentado devam como irmãos crescer juntos até à ceifa
e até lá sorver da mesma água e alimentar-se na mesma terra
e que tal convenha ao lavrador, prevenido contra o zelo intempestivo,
nada apura da natureza essencial ou contingente das espécies botânicas implicadas.
Que da repartição desigual dos talentos, do capital, do empenho e da astúcia
resulte que a todo aquele que tem, dar-se-á e terá de sobejo
e àquele que não tem, mesmo o que tem lhe será tirado,
não chega a resolver as equações atinentes aos dramas da liberdade e da responsabilidade.
E das parábolas do fermento e do grão de mostarda
(da força dos pequenos e de como as aves do céu vêm abrigar-se nos seus ramos),
da ovelha perdida, do filho pródigo e do bom estrangeiro
(das alegrias e dos receios que parecem desajustados),
da rede lançada ao mar, dos dois devedores, do amigo importuno
(da clemência e dos estratagemas a que recorremos na sua falta),
dos trabalhadores da vinha, do semeador e do administrador infiel
(do peso do mundo e das manhas que ele origina),
- não posso dizer que resulte orientação preclara e distinta,
antes avenidas como becos, impasses
de que me alimento quotidianamente enquanto a saciedade me não devora.
Preferirias talvez convocar concílios para estreitar a variação semântica,
mas procura antes pares para a escuta dos silêncios nas parábolas
e com eles cerzir uma forma de vida.
Digo-te que colombo inventou a américa como tu descobres passagens numa parábola
e que prefiro a lei das parábolas,
que te perguntam
e te perguntam como perguntar
e te perguntam se vês a quem perguntas
o rosto que lá há-de estar.

Porfírio Silva, in A Arquitectura do Pecado

Publicado por Porfírio Silva em 10:19 AM | Comentários (1)

janeiro 08, 2004

(sem título)

Estou cansado de polémicas neste meu blogue. Estou cansado de prosa séria. Ainda por cima, entrei em temas claramente políticos, o que não estava no programa genético desta máquina. Para repousar, aqui vai um soneto que dedico à minha mulher (para que ela não se preocupe: o trabalho avança, mesmo com o blogue às costas).


Soneto dos anjos bruscos (e de por que te procuro)

Entre asas de anjos bruscos vogamos.
Fora, o dia do cão negro espreita
e a chuva que cai, cai rarefeita.
Amargamos novos dias de ramos.

Dentro, desnudos, os dois criamos
trinta estirpes de rosas: colheita
dos corpos na alegre cama desfeita,
aromas secretos delas reclamos.

Tu tens profecias no corpo, lê-mas:
diz-me como com pedras fazes casas,
como sem palavras fazes poemas,

como com tanto frio tu abrasas;
explica-me o mundo e os dilemas,
mas encosta às minhas as tuas asas.


in Porfírio Silva, Cinco Sonetos Imperfeitos de Amor e outras narrativas

Publicado por Porfírio Silva em 11:16 AM | Comentários (3)

janeiro 14, 2004

Diga de sua justiça

O esforço que tenho vindo a fazer para gastar menos tempo com a blogosfera tem "efeitos colaterais" desagradáveis: continuo a conseguir escrever, mas cada vez leio menos os outros blogues. Alguns dirão (esperançados): lê mais e escreve menos, ficamos todos a ganhar. Vou pensar nisso. Entretanto, este é um problema central (até nas nossas democracias: o falar e o ouvir estão muito mal distribuídos).
Por isso acontecem coisas como esta: só agora vejo que A Praia publicou uma entrada intitulada A justiça está nos procedimentos no passado dia 8 de Janeiro. A frase que escolho para representar a ideia central: «Mas o mais perturbador para mim, que não sou jurista, foi aquela ideia [de Jorge Sampaio na última alocução formal] de que podemos ou devemos dispensar "os procedimentos". Pensava eu que os procedimentos eram mesmo a única coisa em que podíamos confiar para ter a certeza de que a verdade descoberta pela justiça é realmente a verdade para lá de todas as dúvidas; e pensava que qualquer verdade fora do estrito respeito por todos os procedimentos formais não podia ser aceite como verdade, por mais que haja muitas pessoas a acreditar nela.» Confesso que esta preocupação me diz muito. Por isso comento como segue (esperando que A Praia me acompanhe neste piscar o olho a Luhmann e ao seu La légitimation par la procédure).

a construção (fragmento)


Não te enganes: um processo não é um ritual
em que a cada momento uma só e única acção fosse possível,
num encadeamento predeterminado de cada um dos actos de uma série
- isso seria demasiado ligeiro.
O processo engaja-te em ilusões relativas à complexidade do mundo
e ao alcance da tua mão,
gera um número suficiente de alternativas para que tu e todos vejam que escolhes
e organiza os trâmites necessários para as dispor em encruzilhadas sucessivas
e tu, na incerteza do resultado - o que te move é a incerteza do resultado
e o não teres ainda percebido o lugar da justeza e da verdade no procedimento -
participas na disposição generalizada para acatar sentenças ainda por ditar,
realizas sem remuneração um trabalho cerimonial
contribuindo, com cada acto processual, para o inelutável momento da decisão
em que morre a última das alternativas que hão de morrer
para que uma só viva e essa se torne um facto
e esse facto se torne uma premissa da acção dos homens
e mude os teus dias e o que vês ao espelho.
Atenta no direito da prova e verás, o sistema produzindo a sua diferença,
que nem todos os factos do mundo são tramitados nesta instância,
que nem todas as leis dos reinos vigentes aprovisionam os tribunais competentes
e que, por isso, não é inútil apresentar em juízo coisas que toda a gente sabe,
pois verdades correntes nos céus e na terra que nunca foram reduzidas a peças processuais
alimentam continuamente os depósitos de súbditos inimigos.

Porfírio Silva, in A Arquitectura do Pecado

Publicado por Porfírio Silva em 12:22 PM | Comentários (1)

fevereiro 11, 2004

Outro versículo da história da cidade de T.

As palavras, deambulando umas, mais certas do seu caminho outras, encontraram-se junto ao mercado, onde as pessoas se juntavam devido aos seus afazeres. E aí deram conta do seu recado.


(a máquina no mundo)
As linguagens, como os continentes, derivam e apartam-se.
Uma máquina funciona de certa maneira, produz certos movimentos,
dadas as regras construtivas e os muitos cuidados organizados que encarna:
a máquina perfeita é um símbolo do seu efeito.
Esta máquina, contudo, habitava o mundo:
se é certo que os mais apenas a certas manivelas próximas do piso térreo davam uso,
se de todo ousavam tocar-lhe,
já os mercadores rabiscavam sem cessar planos de pormenor
para adaptar o mecanismo às mais subtis mudanças de humor dos forasteiros,
pois os forasteiros espalham as notícias e as notícias convém sejam boas;
os profetas, esses, raramente usavam os procedimentos mais procurados para os fins práticos,
antes impunham vastas mudanças de ritmo das componentes principais,
desgastando-as em acelerações bruscas de que poucos escrutinavam a intenção;
os imperadores podavam a máquina como pomares,
ora um raminho aqui e outro raminho ali, ora cegando os troncos mais viçosos,
menos à luz de meros caprichos do que da esclarecida necessidade de poupar o povo a ilusões;
os estetas, propositadamente, trocavam peças úteis por inúteis
só para calcular o efeito do aleatório no desempenho
- e, a uma máquina que assim até à raiz habita o mundo,
pode uma ou outra das suas peças entortar,
o comportamento real da máquina deforma-se,
certas peças vão ao ponto de partir: que violência se faz à palavra.
As palavras escolhem o que se semeia e o que se amealha,
nem tudo se pode dizer com estas palavras:
quando em definitivo saíste da casa do pai,
as palavras e as coisas não jogavam umas com as outras,
como se o último copérnico falasse do nascer e do pôr do sol.
Receias justamente:
animais ferozes, inominados, escondem-se na fala organizada
e saltam dos ramos, emboscados, ao mais leve descuido
semeando desordens.

Porfírio Silva, in A Arquitectura do Pecado

Publicado por Porfírio Silva em 03:59 PM | Comentários (0)

março 29, 2004

Luto (1)

Farei em cinco dias uma semana de luto. Pelo estado do mundo. Com um texto em cada dia. Pelo estado do mundo. Depois de terem passado as manifestações, venho eu agora ao luto. Pelo estado do mundo.


Fragmento de uma de biologia dos monstros antigos


Poderás pelo poder da tua fábrica produzir monstros antigos?
Poderás, mesmo sem vestígios fósseis,
pela pura compreensão do seu genoma,
construir um centauro,
de raiz, sem pai nem mãe,
como um programa na máquina a correr,
ou apenas com peças avulsas de monstros modernos?
Será possível um corpo,
metade homem metade cavalo,
que a evolução não trouxe, natural, até hoje,
resultar da tua habilidade recente?
Nasceria de tal arte um rosto, torso e braços semelhantes aos teus
com garupa e pernas de equídeo?
Pergunto-me de que outras estruturas corporais complicadas
será capaz o teu engenho.
Bichos fantásticos, metade lagostim metade cabra,
vivendo ora em seco ora na água?
entes metade anjo metade escorpião,
metade virgem metade rei,
metade candura metade linguagem?
Estará no poder da tua fábrica
compreender a génese ao ponto
de estruturas corporais espantosas resultarem,
produzindo novos monstros antigos,
metade palavra metade silêncio,
vivendo ora nos teus ora nos meus medos?

in Porfírio Silva, Cinco Sonetos Imperfeitos de Amor e outras narrativas

Publicado por Porfírio Silva em 09:58 PM | Comentários (0)

março 30, 2004

Luto (2)

Segundo dia de uma semana de luto pelo estado do mundo.

Construtores de almas


Nada tanto como os animais selvagens
sabe do método de construção de almas.
É simples: vagueia-se pela planície, predador e presa,
avança-se lentamente com os membros anteriores flectidos
arrastando o sexo hirto pelas pedras no solo
preparando a culminante cópula desta estação
como mandam as leis do reino.
Assim avança o travejamento da alma do animal,
até que ele esteja pronto a compreender
os astros que alumiam a planície à noite
e as instituições do grupo a que assim cada vez mais pertence.
A alma é uma tenda onde o animal se abriga,
ao lado dos seus irmãos e dos seus medos,
estrutura que enforma matérias várias consoante a espécie:
aos homens, as palavras dizem muito.
Vê por ti:
limpas o aparo da caneta na carne
a raiva das palavras na tinta inflama o corpo
a febre sobe e fragiliza-te
o animal que da carne vai à tinta alimenta a escrita
rebentos verdes urgem no corpo agora rugoso da caneta
a caneta move-te a mão navegante no papel
e vês-te autor de palavras que com esforço haverás de interpretar.
Roçando o corpo nas palavras dos seus irmãos
o homem faz a alma à sua medida,
faísca apertada entre pedras.

in Porfírio Silva, Cinco Sonetos Imperfeitos de Amor e outras narrativas

Publicado por Porfírio Silva em 05:58 PM | Comentários (0)

março 31, 2004

Luto (3)

Terceiro dia de uma semana de luto pelo estado do mundo.

Introdução à história geral dos impérios


Estavam os homens a escrever palavras no papel
e as palavras bebiam a água devida à raiz das plantas.
Os homens diziam que as plantas não se movem.
Certa manhã, partindo cada uma do canto de sua casa,
todas as mulheres batem com a mão no peito
com uma vontade (de quê, não sei) que o país inteiro estremece.
Como dos braços do regente com orquestra nascem sons,
dos olhares que lançam sobre os povos saem pedras
em concerto elas, em desconcerto eu
busco as brechas entre a partitura e a interpretação,
o acto entre a herança e a profecia,
o caminho (que estreito nas minhas mãos...) entre o reconhecimento e o receio.
Mas mesmo não o querendo, temo.
Era deveras meu intento acreditar
mas pousei a pedra em cima do livro
e a fractura passou do livro para a pedra,
a água que inchava as folhas de papel rasgou o minério.
Sabia-se que não é nada difícil ver o invisível:
basta espalhar um pouco de pó do chão por cima
e os contornos do mundo aparecem.
Difícil é compreender a prioridade aos lírios do campo.

in Porfírio Silva, Cinco Sonetos Imperfeitos de Amor e outras narrativas

Publicado por Porfírio Silva em 10:16 PM | Comentários (0)

abril 01, 2004

Luto (4)

Quarto dia de uma semana de luto pelo estado do mundo.

do inferno


O inferno é uma terra onde o movimento mói:
ao andar roça-se a pele nas mais pequenas labaredas,
os pés pisam pedras rubras do toque antigo do fogo,
as mãos agarram, como corrimões, braços de condenados
que despertam memórias azedas
lembranças das andanças passadas
pedaços de aventuras mal tentadas
tenções dispersas de heroísmos transviados.

O inferno é uma terra onde o movimento dói:
pelos rasgões das peças de roupa
que o mexer expõe como gretas
entram baforadas de enxofre,
os braços e pernas agitando-se
atiçam como sopros as chamas,
os pés revolvem as poucas ilhas de cinza
renovando o fulgor da lava interior,
o movimento lembra tudo
acorda, a todas as horas, essas horas nos dias passados
aviva a sombra dos teus passos em fuga
e ausentifica aquilo de que sentes saudade
até a dor moral te doer no corpo.

O inferno é uma terra para se estar quieto,
desentendido, repousando,
tudo ignorando e esquecendo,
uma terra onde o concreto fere
e alguma abstracção convém à saúde,
onde as traves mestras vaguearem um pouco acima da casa
facilita as coisas e areja os planos.

Por isso te digo, eu que vi,
que só sentado se está bem no inferno.

O inferno é estar, bem, sentado.

Publicado por Porfírio Silva em 09:22 PM | Comentários (1)

abril 02, 2004

Luto (5)

Quinto dia de uma semana de luto pelo estado do mundo. Último de cinco dias úteis dessa semana. Uma semana de "dias úteis" é uma semana útil? O estado do mundo responde, de cada vez, a essa pergunta. Mas nem todas as perguntas chegam a ser uma questão.

Puseram-te em prisão à porta de minha casa


A intervalos dentro dos meus livros
há pedaços de jornais,
discretos gestos corporais
distraindo-nos das palavras dos mestres,
encruzilhadas habituais
onde anjos tocam o caminho dos infernos.
Sorvo gestos teus, ternos
ao acaso na poeira das ruas,
temores tão modernos
invocando animais manhas e tão cruas.
Há lágrimas tão fugazes como tu e eu.

Os caminhos de terra
desenham um mapa neste jardim
onde os destinos já andavam antes de ti e de mim,
mas, regulados por um jardineiro descuidado
os repuxos de água
levam-nos por mais floreados percursos
e ensinam-nos quão imaginosa é a mágoa
abrindo veredas que trouxeram
um homem que já foi meu irmão
tão perto quanto tal era improvável.

Explica-me
porque o puseram em prisão à porta de minha casa.

Publicado por Porfírio Silva em 07:09 PM | Comentários (1)

maio 31, 2004

Porque hoje é 31 de Maio

Porque hoje é 31 de Maio. E este 31 de Maio foi o que foi. Porque nem tudo o que demora, tarda. Porque nem tudo o que já devia ter vindo, vem atrasado. Porque um ressuscitar vem sempre a tempo (mesmo que nenhuma ressurreição seja definitiva). Por tudo isso, hoje pratico o que já há algum tempo por aqui não se fazia: publico um poema.

memória futura


A esta hora já a árvore estremece
e folhas que eram aninhadas nos ramos começam a cair.
A árvore dá agora espaços vazios como frutos.
Por eles entrarão incertos raios de sol da manhã,
tenha o astro poisado num ponto do céu
pelas puras leis do movimento dos corpos.
Mas, sem nada mudar na óptica ou na geometria,
tenha o astro poisado naquele preciso ponto do céu
elaborado pelo conselho dos astrónomos atentos às coisas terrestres
e, em lugar da luz, a grossa chuva negra da noite
fará um caminho triunfante entre as verduras.
Porque caem as folhas? Para que caem as folhas? Como caem as folhas?

Em breve o chão juncado desenha um trilho circular
onde em torno do tronco uma procissão roda em direcção à vertigem
arrastando-te, entre sirenes de alarme, como se fosses tu a convocatória.
Daqui, amarrado ao tronco da árvore
e vendo a tua cabeça quase submersa pelos falsos flagelantes,
pergunto-me porque me toca a queda das folhas e não me toca o vento,
ou porque não treme a terra
ou porque as gaivotas no mar não gritam
não berram os gansos nas fazendas
e as azedas nas encostas não param de crescer a esta hora
se tudo isto devia ser uma comoção da natureza.

Olhei as nervuras das folhas caídas e nelas vi
marcas, imagens, textos, memórias, confissões,
palavras gravadas de fresco hoje,
gravadas de fresco ontem,
de fresco há muito tempo,
palavras gravadas de fresco no futuro pelo pó dos sapatos.
Deu-se então o meu apercebimento
de ser aquela a árvore dos testemunhos.
Talvez por isso vi chegar a pergunta:
o que uma mão de homem pode
seria capaz de abanar a árvore dos testemunhos?
Não ficou em mim nenhuma infância depois disso.

Porfírio Silva
(9 horas de 1 de Setembro de 2003. Sem dedicatória.)
Publicado por Porfírio Silva em 10:30 PM | Comentários (0)

julho 26, 2004

Ao grupo da varanda

Uma palavra hoje para o grupo da varanda: M. R., E. G., M.A.B., J.M.R., M.M. - nos séniores. Sem esquecer os júniores: a M. e o M.M..

Na varanda das azenhas


Ele diz, eu digo, tu dizes
a confusão instala-se um bocadinho no fim de tarde
na varanda exposta
ao sol, ao mar e a outras rodas de comensais.
Há palavras por todo o lado
comportando-se com o esvoaçar quebrado dos mosquitos,
como foguetes que estrelejam mal começam a subir
assustando os sentidos que vinham para a festa
e se alimentam agora de um cheiro a pólvora queimada
que se mistura com o repasto.
Até noite alta saltaremos de pedra em pedra
evitando escorregar para as águas revoltas
a que uma e outra vez regressamos:
enquanto o borrego se come com as batatinhas em boa ordem,
os argumentos agarram-se mal com os garfos
e saltam prato fora salpicando os circunstantes.
Os cavalos no carrossel defronte abanam molemente as cabeças
desdenhando do estranho ritual com que esta tribo de humanos
alimenta a sua amizade original.
Penso nos adolescentes refugiados noutro canto da casa
e como na sua madurez contarão como ferviam seus pais
no tempo em que todas as coisas do mundo já tinham arrefecido.

Publicado por Porfírio Silva em 09:47 AM | Comentários (2)