janeiro 07, 2004

Bush e a Imigração

A propósito do bate-papo com o meu amigo EG (ontem, por causa do véu feminino islâmico), vale a pena referir agora que, segundo o The New York Times de hoje (7-01-04), o Presidente Bush vai propor uma revisão das leis da imigração, que poderia legalizar milhões de trabalhadores indocumentados nos EUA. Segundo a nova legislação, qualquer um dos 8 a 14 milhões de trabalhadores indocumentados que se estima existam nos EUA poderia candidatar-se ao estatuto de trabalhador temporário durante um número não especificado de anos, com todos os benefícios dos empregados por conta de outrem (salário mínimo, p.ex.). Os que fossem aceites poderiam viajar livremente entre os EUA e os seus países de origem e candidatar-se ao "cartão verde" (autorização de residência permanente). O programa combinaria "trabalhadores disponíveis" com "empregadores disponíveis" num sistema de tipo bolsa. A candidatura seria conjunta (empregador/trabalhador). Segundo a proposta, trabalhadores ainda residentes em outros países poderiam também candidatar-se, desde que não houvesse nenhum americano disponível para fazer o mesmo trabalho. Haveria também incentivos para que os trabalhadores regressem aos seus países, tais como direitos de reforma com base nos rendimentos auferidos nos EUA. Círculos republicanos conservadores consideram que um programa como este é uma amnistia para pessoas que infringiram a lei. Outros críticos da proposta notaram que muitos dos trabalhadores indocumentados que se candidatassem poderiam enfrentar uma espera prolongada (10 a 20 anos) pela autorização de residência. Isso poderia significar que alguns dos que aderissem ao programa teriam de abandonar o país ao fim de certo tempo, por não chegar a horas uma resposta ao seu pedido de "cartão verde". Nesse caso, para esses trabalhadores seria melhor permanecer ilegais indefinidamente que revelar-se aos serviços de imigração e arriscar a deportação. Outros dizem que o programa poderia conduzir à exploração de trabalhadores imigrantes, colocando-os na dependência de um empregador que fica com um pedido de adesão ao programa nas suas mãos e o pode usar contra o empregado ilegal. Um número limitado de programas de trabalhadores convidados existe já nos EUA, mas são projectados para trabalhadores especializados, que vêm tipicamente da Índia, China e Europa Oriental.
Valeria a pena analisar estas propostas (inspiradas no exemplo da mal-amada Alemanha?) à luz dos argumentos sócio-económicos do meu amigo EG - nomeadamente, insisto eu, para relembrar que as questões de direitos humanos não se subsumem nas questões de gestão política das tendências demográficas pesadas.
Já agora: não haverá por aí ninguém em Portugal com medo de, apesar de tudo, ainda ser ultrapassado "pela esquerda" por G.W. Bush?
Publicado por Porfírio Silva em 02:57 PM | Comentários (0)

janeiro 08, 2004

Bush e a Imigração (2)

O The New York Times de hoje escreve: "President Bush's immigration proposal seeks to re-establish him as a compassionate conservative at the start of an election year." A sério?! Quem diria!!!
Publicado por Porfírio Silva em 04:10 PM | Comentários (0)

janeiro 23, 2004

Rebanhos e ovelhas

A 23 de Janeiro o Público noticia: Perfil e reputação colocam Vitorino na corrida à presidência da Comissão Europeia. Isto é: perfil e reputação versus outros critérios mais formais, como ter sido primeiro-ministro ou ser da cor política dominante no seu país e na Europa. Independentemente da solução concreta para esse caso, uma coisa me parece certa: as democracias necessitam, em geral, de encontrar caminhos que valorizem mais os assuntos concretos a resolver e as pessoas concretas a escolher, em vez de nos obrigar sempre a escolher rebanhos. Estou um pouco farto do princípio: se és do rebanho preto, só podes acasalar com as ovelhas negras.
Publicado por Porfírio Silva em 10:12 AM | Comentários (0)

fevereiro 11, 2004

Pompa e circunstância.

A falta de originalidade das propostas do "Compromisso Portugal" mostra onde está o mal.
Publicado por Porfírio Silva em 09:00 PM | Comentários (0)

março 11, 2004

O terror. A exploração política do terror. As certezas convenientes. A tentação de explicar o que não se pode. A realidade que rasga o mundo das palavras. O motivo pelo qual o idealismo não dá uma resposta compreensível ao materialismo. O concreto que irrompe. Os corpos rasgados não são figuras de estilo. O preto não é preto e o branco não é branco. Há um momento em que os filósofos das emoções têm de suspender a emoção. E em que os filósofos das razões têm de suspender a lógica pura. Precisamos de parar para pensar. E de pensar para parar. E mandar às malvas aqueles que, nestas ocasiões, nos dizem que o que é preciso é agir e não pensar. E mandar às malvas aqueles que nos dizem que já sabiam como as coisas são. Porque esses estão apenas a pensar em como manter quentes os seus pés em dias frios.
Publicado por Porfírio Silva em 06:15 PM | Comentários (0)

março 14, 2004

Pequeno discurso sobre a exploração política do terror

A propósito da carnificina de Madrid, falei aqui (a 11 de Março) da exploração política do terror. Agora que já se sabem os resultados das eleições espanholas, o comentário que me interessa não é político-partidário. O que me interessa principalmente não é a cor dos vencedores ou a cor dos derrotados. Até porque nem tudo o que é importante na política é determinado pela "cor". Há outros factores que interessam muito. O comentário que me interessa é cívico, é de cidadania. Vejo com satisfação que os espanhóis tenham percebido que o seu governo estava a tentar manipular eleitoralmente 200 mortos. Que estava a tentar abusar das vítimas do terrorismo. Que talvez tivesse usado os serviços secretos para os seus próprios fins mesquinhos (o que não era inédito, mesmo recentemente, mesmo em Espanha). Que mentia com ar piedoso. Por uma vez, a hipocrisia não pagou. Não me interessa aqui se os resultados eleitorais são, em si mesmos, necessariamente bons para o governo de Espanha. Mas é bom sentir que, uma vez por outra, um povo vê mais longe do que mostram as televisões, pensa que demais é demais e sacode os abusadores. Por muito que Aznar possa eventualmente ter feito por Espanha, acabou - no momento final - por mostrar a sua pequenez. Uma vez por outra damo-nos conta de que as eleições servem para alguma coisa - embora talvez não exactamente para aquilo que os "especialistas da política" estipulam.
Publicado por Porfírio Silva em 10:30 PM | Comentários (0)

março 15, 2004

As revoluções

No (já longínquo!) dia de 6/02/04 transcreveu-se neste blogue um posicionamento de Miguel Magalhães numa polémica que por aqui andou. Passado todo este tempo não quero voltar ao fundo da questão, mas, por respeito ao Miguel Magalhães, também não quero ignorar o que ele escreveu. Faço, pois, para tentar um equilíbrio precário entre falar e não falar, um comentário até certo ponto lateral.
A mensagem pela qual o Miguel Magalhães me trazia a sua opinião começava assim: «Há uns anos estivemos quase para fazer os dois um programa de rádio para polemizar, mas chegámos à conclusão que seria demasiado difícil, por haver demasiadas opiniões comuns, logo, pouca matéria para polémica.» Eu respondi-lhe: «Se nessa altura o mundo fosse o que é hoje, o programa teria avançado. Mas o "clima" mudou mais do que talvez se pudesse imaginar.» Lembro, nestes dias, essa frase. E confirmo: o clima mudou.
(Porquê o título "as revoluções" para esta entrada? Leia-se o referido texto de Miguel Magalhães.)
Publicado por Porfírio Silva em 10:10 AM | Comentários (8)

março 17, 2004

Terrorismo, Espanha, eleições, guerra, mundo

A entrada "As revoluções", que fiz aqui a 15 de Março, despoletou uma polémica com o Miguel Magalhães. Uma vez que essa polémica se desenrolou nos "comentários", que só são acessíveis num dos blogues-gémeos, decidi transferi-la para o corpo principal. Aqui vai, na ordem certa. Noutra entrada virá a minha resposta à última intervenção do Miguel.

Miguel Magalhães (15-03-04): É verdade que o clima mudou muito e lamento bastante que os terroristas consigam ter hoje bastante influência na vida pública das democracias. É claro que o PP só tem de se queixar de si próprio, por ter caído na tentação de tentar manipular a opinião pública. No entanto, uma coisa é certa: um dado essencial para qualquer eleitor hoje em dia é a forma como avalia o comportamento dos diversos partidos perante a questão do terror político, tenha ele origem no fundamentalismo islâmico, no nacionalismo exacerbado, no totalitarismo neo-estalinista ou em qualquer outra "ideologia" anti-democrática. Penso que vivemos numa daquelas épocas em que a sobrevivência dos nosos regimes é mais importante do que as cambiantes políticas dentro do campo da democracia. Eu votarei sempre, nos próximos tempos, nas forças políticas que mostrarem mais discernimento na defesa dos nossos regimes e na manutenção da coesão entre nós, vítimas de quem nos declarou guerra.

Porfírio Silva (15-03-04): Sim, sim. É preciso discernimento na defesa dos regimes democráticos. Um exemplo de uma coisa que mostra absoluta falta desse discernimento é o facto de haver governos que usam os serviços secretos para manobrar a política interna, como fez o governo de Aznar. Os que assim agem são aliados objectivos dos terroristas, porque minam os instrumentos de defesa das democracias. Ou não?

Miguel Magalhães (15-03-04): De acordo quanto ao PP, mas nessa matéria (de serviços secretos), aquilo que tenho sabido nos últimos anos pela imprensa é assustador. Isto sem falar na extraordinária comédia que foi a divulgação da famosa "lista dos nossos espiões" na altura do ministro Veiga Simão, com evidentes culpas do PS, mas também do PSD, os dois maiores partidos portugueses. Quanto ao futuro governo espanhol, desejo sinceramente que o PM Zapatero arranje forma de seguir as suas convicções na questão do Iraque, sem contudo enfraquecer o "nosso" campo, que é o da defesa dos nossos regimes, é bom não o esquecer.

Porfírio Silva (15-03-04): Meu caro: eu prefiro ser cauteloso com certos conceitos. Tu, é claro, sabes muito bem o que é "o nosso campo". Mas, pergunto eu: os muçulmanos moderados, os árabes moderados, os crentes islâmicos moderados, os que são perseguidos pelos governos dos seus países, os que foram exilados desses países, esses são do "nosso campo" ou do "inimigo"? E os que, como o governo de Aznar, brincam com a mentira para fins de baixa política por cima do sangue das vítimas, são do "nosso campo" ou do "inimigo"? As coisas não são assim tão simples, meu caro Miguel - e é por isso que me repugna a (tua) ideia dos compagnos de route (ver a tua entrada de 6-fev no corpo deste blogue) e do pragmatismo na escolha dos aliados. As teorias dos "realistas" em relações internacionais só têm dado asneira. Já me esquecia, Miguel, mais uma pergunta: o que sugeres é que Zapatero, que prometeu durante a campanha retirar do Iraque, agora meta a sua promessa na gaveta e faça diferente? É assim que vês a política? Parece-te defensável que, depois do governo Aznar ter caído por ser mentiroso, o governo Zapatero comece o seu mandato pela escolha de ser também mentiroso? Meu caro Miguel, eu gostaria tanto de não te ver entrar por esse tipo de análise política... Milhões de espanhóis escolheram votar por uma razão moral (despedir os mentirosos) e, em menos de uma semana, deixaram para trás aquilo que tinha sido a sua opção político-partidária "normal" (votar PP) para fazer uma escolha "ética". Políticos hiper-racionalistas ficam atordoados com o sobressalto moral dos povos e inventam qualquer teoria que venha à mão. Mas nem tudo o que é sofisticado (ou apenas rebuscado) tem valor.

Miguel Magalhães (16-03-04): Quanto ao Zapatero, subscrevo o que escreve hoje no Público a Teresa de Sousa: http://jornal.publico.pt/2004/03/16/EspacoPublico/O03.html. Quanto aos "muçulmanos moderados, os árabes moderados, os crentes islâmicos moderados, os que são perseguidos pelos governos dos seus países, os que foram exilados desses países", tudo o que eu escrevi só te pode levar a pensar que, sim, considero-os dos "nossos". Não sou ingénuo: sei bem que usas esta terminologia do "nosso campo" e do "inimigo" para tentar desqualificar o meu ponto de vista. Não é nada de novo como método de debate. É verdade que assumi, tal como felizmente muitas outras pessoas, que me (nos) declararam guerra. E é verdade também que estou preocupado com a nossa falta de capacidade para enfrentarmos esse terrível desafio que nos impuseram.

Porfírio Silva (16-03-04): Miguel: Basta leres o que vem acima para verificares que as expressões «"nosso" campo» e «nossos regimes» foram introduzidas por ti. Logo, não é razoável que me acuses de introduzir essa terminologia e ainda por cima me acuses de que isso é uma tentativa de desqualificar o teu ponto de vista. Não estou muito virado para entrar em meta-argumentos, muito menos quando eles não respeitam a factualidade do que se disse. Interessa-me mais a substância. E, para mim, a substância é que o teu raciocínio sobre esta matéria é simplista e, sendo simplista, é perigoso. Usas argumentos que pressupõem que o mal está todo de um lado e o bem todo do outro. Dizes que nos declararam guerra. Pois, mas quem é o "nós" dessa declaração? Por aí passa uma parte do problema e, quando os problemas são complexos, os raciocínios simplistas devem ser afastados. Também me declaram guerra aqueles que violam o direito internacional e agem como as milícias populares no plano mundial. O conceito apropriado é "espiral de violência". E nenhuma espiral de violência se detém com mais do mesmo. Se o que queres sublinhar é que há muita ingenuidade em certas leituras da cena internacional, concordo contigo. Mas, para não ser ingénuo não basta (nem é preciso) ser "falcão". Eu, pelo meu lado, penso que não há pior ingenuidade do que ser simplista face à complexidade. Manda sempre.

Miguel Magalhães (17-03-04): Ainda bem que finalmente polemicamos. Para ajudar, vou dizer mais algumas coisas simplistas, já que a guerra, infelizmente, simplifica muito as coisas. O meu problema é aperceber-me da falta de solidariedade que existe entre adversários políticos em democracia. Bush, Sharon, Chirac, Aznar são adversários políticos, não são inimigos da democracia. O facto de o sistema eleitoral dos EUA ter permitido a eleição de Bush não me faz esquecer que somos aliados. O facto de não concordar com a forma como foi invadido o Iraque, não me impede de desejar que "aquilo corra bem" e de me regozijar com a captura do Saddam. O facto de o Sharon estar a utilizar as forças armadas dum modo brutal, injusto e oportunista não me impede de reconhecer que em Israel há eleições, há liberdade de imprensa e de associação. Na Cisjordânia e em Gaza, só há liberdade de imprensa e de associação para os terroristas. O mesmo acontece nos pequenos municípios bascos controlados pelos amigos da ETA. Aqui é que está o busilis: eu não aceito que as nossas regras para tempos normais nos impeçam de, em tempos excepcionais, nos armarmos contra os nossos inimigos mortais. Sim, sou a favor de legislação de excepção para combater o terrorismo, sim, sou a favor dos controlos reforçados nas fronteiras dos EUA, de agentes à paisana nos aviões, etc. Quantos milhões de mortos e quantos anos de guerra se teriam poupado se em 1936 e/ou em 1938 as democracias europeias, em vez do apaziguamento tão desejado pela opinião pública, tivessem tido uma atitude belicosa contra Hitler, como era aconselhado por alguns que eram então considerados "perigosos belicistas"? O problema com o excesso de escrúpulos em tomar medidas fortes é que elas serão necessárias de qualquer maneira e quanto mais tarde foram tomadas mais consequências negativas terão. Para terminar, se é verdade que a guerra é um assunto demasiado sério para ser deixado unicamente sob responsabilidade dos militares, não é menos verdade que a paz é um assunto demasiado sério para ser deixado unicamente sob responsabilidade dos pacifistas.

Publicado por Porfírio Silva em 09:37 AM | Comentários (0)

Again: Terrorismo, Espanha, eleições, guerra, mundo

Meu Caro Miguel Magalhães: Aqui vão quatro comentários, tão breves quanto as minhas capacidades permitem, à tua última intervenção.
(1) A guerra não simplifica nada as coisas. Torna-as mais complexas, tanto do ponto de vista político como do ponto de vista moral. Quem passa a raciocinar de forma mais simplista perante a guerra é um irresponsável (dou de barato que não seja, apenas, um criminoso).
(2) Ser aliado dos EUA não é ser acrítico. A União Europeia é formada por Estados que discordam radicalmente em muitos assuntos e não é por isso que somos menos aliados. Mas este ponto está requentado, não vale a pena insistir. Só penso o que dirás se o governo dos EUA mudar e a sua política neste ponto se tornar diferente. Mudarás de opinião nessa altura para não ofenderes os nossos aliados?
(3) Não basta haver eleições para haver democracia. Salazar e Caetano sabiam disso. As democracias populares também sabiam. Alguns parece que já esqueceram. Estás preocupado com os fundamentalismos. Eu também. Fazes ideia do peso dos fundamentalistas judaicos no governo de Israel? Das consequências práticas disso? Ou só reconheces certos fundamentalismos e és incapaz de ver os outros?
(4) Eu não sou pacifista no sentido em que o sugeres, pelo que o teu ataque é deslocado. Para esse peditório já dei durante a guerra fria, já escrevi (há vinte anos) o que tinha a escrever sobre isso. Já nessa altura eu desprezava a retórica das armas boas e das armas más, como expediente de ocultação da realidade e como técnica para tentar excluir as alternativas. Quanto às medidas de excepção: bem sabes que muitas medidas que são tomadas não têm qualquer eficácia contra o terrorismo, apesar de serem bastante eficazes contra os adversários políticos internos de certos "líderes". Por vezes a história limita-se a repetir-se, não é?
Já agora, Miguel: já reparaste que vou tentando responder às tuas questões? Já reparaste que há uma série de questões que te coloquei às quais não tentaste sequer responder? Isto é um debate, não é?
Fico à escuta.
Publicado por Porfírio Silva em 09:59 AM | Comentários (9)

março 18, 2004

Fecho: Terrorismo, Espanha, eleições, guerra, mundo

Continua - e termina - a polémica com o Miguel Magalhães. Outras se seguirão no futuro? Estou sempre a pensar que quero evitar certas coisas aqui no blogue, mas acabo sempre por ceder à tentação.

Miguel Magalhães (17-03-04): Uma resposta a quatro comentários, já que dizes que não respondo. Como sabes, não é verdade. 1 - A guerra não simplifica tudo, mas simplifica alguns dilemas morais, devido ao carácter brutal e inadiável de certas escolhas. Mesmo em relação a certos extremismos (que não são, por enquanto, terroristas) há que ter uma postura minimamente coerente. O exemplo recente do Partido Socialista da Áustria que se aliou com o Haider na Caríntia, quand há poucos anos andou a convencer os governos socialistas (e não só) europeus a boicotarem a Áustria por esta ter um governo de coligação com o Haider é uma vergonha. 2 - Se a política dos EUA mudar, eu fico contente porque não concordo com esta. Mas, embora não concorde com esta, prefiro que os EUA e aliados na coligação consigam arranjar uma saída "airosa". Portanto, não preciso de mudar de opinião se mudar a política dos EUA. 3 - Curiosamente eu falo em eleições, liberdade de imprensa e liberdade de associação, mas tu perguntas-me se eu acho que eleições bastam. Penso que está respondido. Tenho plena consciência de quanto os fundamentalistas judaicos têm prejudicado Israel, os israelitas e os judeus. Mas insisto em afirmar que em Israel existem eleições, liberdade de imprensa e liberdade de associação e isso não acontece em nenhum país oficialmente inimigo de Israel. 4 - Conheço muito bem o argumento que se opõe a qualquer medida mais antipática por alegadamente ser ineficaz e ser, de certeza, desviada para outros fins. É exactamente o problema que eu levanto na minha mensagem anterior. Sem um mínimo de boa-fé e confiança entre os partidos democráticos não é possível combater o terrorismo. Há uns anos, em Espanha, houve um caso paradigmático: os GAL. Nessa altura não havia blogues, mas eu defendi o PSOE publicamente em alguns debates. Se os partidos políticos (o PP, os nacionalistas bascos, alguns elementos dentro do próprio PSOE) e muitos magistrados só estão preocupados em nunca ultrapassar os limites duma estrita legalidade e desatam a disparar contra os governos à primeira derrapagem, o que pode fazer um governo responsável que tem que fazer o que tem que fazer? Ficar a olhar, impotente e alheado, para as actividades criminosas da ETA? Aquilo que eu digo é que as democracias não podem ser virgens suicidas. Têm de ter armas, serviços secretos, polícias e práticas (sim, sobretudo práticas) de combate ao terrorismo. Não é possível fazê-lo, se a nossa principal preocupação for apenas ganhar as próximas eleições ou manter o poder a todo o custo.

Porfírio Silva (17-03-04): Já percebi qual é a tua técnica: falar de tudo ao mesmo tempo e não levar nenhum assunto até ao fim. Começámos em Espanha, passámos para Israel, agora estamos na Áustria. Fica-te muito bem assumires que apoiaste o PSOE na questão dos GAL. Fica-te bem porque mostra qual é a tua linha: há terrorismos maus e terrorismos bons. Parece, aliás, que há muito tempo preferes o terrorismo de Estado - e que continuas a preferi-lo, porque para esse arranjas sempre desculpas. A minha linha não é essa. Quanto ao mais: o meu método não é discutir tudo ao mesmo tempo só porque tu adoptas o método do caleidoscópio. Por isso, vou ficar-me por aqui. Podes continuar a fazer rodar os temas à tua vontade. Um abraço.

Miguel Magalhães (17-03-04): Só um pequeno comentário para não se dizer que uso a técnica do caleidoscópio. Comparar o terrorismo (Ben Laden, Hamas, ETA, IRA,etc.) com as actividades de defesa do Estado democrático é algo que sou incapaz de fazer. Terrorismo de Estado é o que faz a Coreia do Norte ou fazia o Iraque de Saddam ou fazia a Alemanha nazi, a Espanha franquista, a URSS estalinista. a China maoista ou o Camboja de Pol Pot. Lamento, mas não sou sequer capaz de compreender quem compara Bush a Hitler. Quanto ao Iraque, é fácil distinguir um discurso responsável dum discurso irresponsável. Basta comparar o que Sampaio e Louçã disseram sobre a presença da GNR no Iraque.

Porfírio Silva (17-03-04): Os GAL eram terrorismo de Estado. Promovido por um partido socialista. Custa-te a aceitar? Também a mim. É por isso que os simplismos não funcionam: nem do ponto de vista político, nem do ponto de vista analítico.

Miguel Magalhães (17-03-04): Os GAL foram o resultado duma situação em que muitos dos agentes que deviam defender o Estado democrático (políticos, magistrados e jornalistas, por exemplo) só se preocuparam em impedir que o governo tivesse capacidade para actuar de forma eficaz contra a ETA. Eu não defendo os GAL. Defendo é que se deveria ter compreendido melhor o dilema insolúvel com que o PSOE se teve de debater e, portanto, dever-se-ia ter sido benevolente no julgamento dos culpados. Cá está, podes dizer que eu defendo que a lei não é igual para todos. Mas o que eu defendo mesmo é que as democracias têm de ter meios para fazer também os trabalhos sujos que são necessários para a sua defesa. O que nos diferencia dos terroristas nesta matéria é sabermos que só o queremos a título excepcional, em situações de extrema necessidade. A não ser assim, terão eles as armas todas e nós todos os impedimentos. É uma guerra demasiado desigual para poder ser vencida.

Porfírio Silva (17-03-04): Meu Caro Miguel: Levaste as coisas a um ponto em que eu já não preciso de dizer nada. Basta ler as tuas palavras. Está lá tudo. Eu podia dar-me ao trabalho de fazer uns "recortes" dos teus comentários e teria assim um retrato fiel do ponto a que chegaram certas opiniões nos dias de hoje. E depois perguntava: é esta a democracia e a paz que tu queres? Mas não vale a pena, porque não é preciso procurar muito. Em tempos difíceis precisamos de mais ponderação e menos excitação.

Miguel Magalhães (18-03-04): Concordo em que fiquemos por aqui. Pela minha parte, este é o último comentário que farei. Só posso acrescentar que preferiria estar enganado e não ter de olhar de frente para as difíceis opções que temos de assumir. É verdade que seria melhor que não houvesse armas, mas o que não posso aceitar é que haja fanáticos com armas viradas contra mim sem que eu (e quem me representa) esteja capacitado para resistir e vencê-los.

Porfírio Silva (18-03-04): Miguel: Penso que tu e eu queremos ambos o mesmo, como resultado final. Discordamos acerca do diagnóstico e acerca da terapêutica (talvez mais acerca da terapêutica do que acerca do diagnóstico). Mas acredito que nunca nenhum de nós se passará para o lado dos que preferem matar o doente. Por isso, aceito sempre as polémicas (por mais duras que sejam) com quem pode querer berrar comigo, mas não quer apertar-me a garganta. Volta sempre!

Publicado por Porfírio Silva em 09:52 AM | Comentários (1)

Terrorismos

Do outro lado do mundo (literalmente) recebo uma mensagem de um Amigo. Meu caro Paulo Godinho: eu a tentar fugir da política-política e tu a puxar este blogue para esses lados outra vez! Bem sei que te limitaste a enviar um comentário e fui eu que decidi puxá-lo para aqui. Sim, mas espera, porque a coisa tem água no bico: para quando a tua resposta (positiva) a um desafio que te fiz um destes dias? Mais não digo, aqui e agora, porque espero que daí venha uma novidade saborosa um destes dias (saborosa para os leitores, claro).

Caro Porfírio, lamento desiludir-te mas as “certas coisas” que queres evitar no teu blogue são possivelmente as mais interessantes que por cá aparecem, pelo menos do meu ponto de vista. Suponho que estarás a fazer um esforço no sentido de evitar circunscrever à actualidade política ou aos temas políticos o conteúdo do teu blogue mas, de facto, foi nesta área que encontrei algumas das reflexões mais interessantes, vide não apenas as resultantes da mais recente “escaramuça” com Miguel Magalhães mas também as da anterior com Vital Moreira. Aliás, mais uma prova disso é o facto de hoje me ter sentido tentado a alinhavar algumas linhas em torno da polémica em torno do “terrorismo”, quando até agora me tinha mantido atento mas silencioso.
Desde o dia em que o presidente Bush declarou “guerra ao terrorismo” que sinto que, talvez deliberadamente, se tenta enfrentar um fenómeno complexo pela via simplista de “meter tudo no mesmo saco”. Seguindo a lógica maniqueísta de dividir permanentemente o mundo entre bons e maus (o que do ponto de vista da comunicação política junto de um eleitorado pouco esclarecido e pouco empenhado em se esclarecer até pode ser uma via eficaz), a “guerra ao terrorismo” passou a ser tratada como se a Al-Qaeda, o IRA, o Hamas, a ETA, o Abu Sayaf, os rebeldes chechenos, as FARC, ou qualquer outra organização que combate através das armas, pelos mais variados motivos, governos próximos dos Estados Unidos, não passassem de bandos de malfeitores que, presumivelmente de forma articulada entre si, combatem as democracias e põem em causa a paz mundial.
Sem querer apoiar a forma ligeira como Mário Soares se referiu à necessidade de negociar com os “terroristas” (pois penso que a questão está mal colocada à partida quando se aplica a eito o rótulo de “terrorista”, não se percebendo, portanto, do que, ou de quem, se está a falar quando se diz “os terroristas”), reconheço que a forma como hoje se generaliza a utilização da palavra “terrorista” e, sobretudo, como se procura uma fórmula única (a da força) para lidar com todos os “terrorismos” é, muito provavelmente, a pior maneira de tentar ultrapassar esse grave problema que afecta quase todas as sociedades ocidentais e ocidentalizadas (cada vez existem mais “sociedades ocidentais” noutros pontos geográficos).
Valeria a pena reflectir sobre os objectivos políticos e os meios utilizados por cada uma das organizações ditas “terroristas” e o quadro histórico e social em que cada uma delas nasceu e se desenvolveu, antes de as meter a todas no mesmo saco e de aplicar a todas a mesma receita.
Não sei se os rebeldes que se bateram pela independência dos Estados Unidos da América, na segunda metade do século XVIII, não poderiam ser considerados “terroristas” à luz dos critérios de hoje...
("Assinado": Paulo Godinho)

Publicado por Porfírio Silva em 04:18 PM | Comentários (1)

abril 15, 2004

Revolução e Evolução

A primeira frase do Editorial de José Manuel Fernandes no Público de hoje é assim: «O debate sobre se o 25 de Abril foi uma "revolução" ou uma "evolução" é tonto.»
Pois eu discordo radicalmente. Por vários motivos. Primeiro, porque há uma razão para não ter havido evolução: o facto de o sector (então?) dominante na direita portuguesa ser de uma burrice atroz e de uma cobardia sem nome. Segundo, porque essa direita tosca continua a ter muito peso entre nós, preferindo o faz-de-conta do falso conservadorismo ao risco de fazer coisas que valham a pena para o país. Terceiro, porque a diatribe da "evolução" contra a "revolução" é apenas mais um acto do revisionismo da actual maioria de direita: Durão fala das nacionalizações de 1975 como se se tratasse de um caso de tribunal e não de uma opção política (talvez menos desastrosa para o país do que certas privatizações); Portas fala de militares que traíram Portugal e criminosamente meteram as suas mãos (e as armas que não eram suas) nas guerras civis pós-coloniais, como se eles fossem heróis - ao mesmo tempo que diz cobras e lagartos da descolonização que os seus maiores deviam ter feito a tempo e horas e não souberam.
É por isso que a falsa ingenuidade de J.M. Fernandes não me convence. Ele tem obrigação de saber que a conversa da "evolução" cheira tão mal como aqueles camaradas que tinham o hábito de apagar os caídos em desgraça das fotografias, para as tais fotografias passarem a ser politicamente correctas. Ou como aqueles revisionistas que dizem que o holocausto nunca existiu. Os espanhóis tiveram evolução. Isso teve, para eles, a vantagem de não terem tido à solta malucos maoístas como Durão Barroso. Nós tivémos revolução. Goste-se ou não, já naquele tempo a nossa direita era muito distraída e incompetente.
Procura-se direita inteligente! (a ver se a esquerda pode, pelo seu lado, fazer o seu próprio trabalho...)
Publicado por Porfírio Silva em 06:54 PM | Comentários (0)

abril 21, 2004

O 25 de Abril dos robots

Já lá vão 30 anos que aconteceu neste país uma revolução. Isso: aconteceu. Só aqueles que gostam de fazer "reconstruções racionais" dos acontecimentos históricos é que podem pensar outra coisa. Aconteceu uma revolução porque uns quantos fizeram um golpe, em estado de necessidade. Em estado de necessidade, porque a coisa estava podre. Podre, porque umas quantas abéculas estavam sentadas em cima do poder convencidas que daquele ninho vazio mais tarde ou mais cedo nasceriam pintos. E o povo, essa entidade mítica habituada a ser nomeada sem licença, começou a fazer coisas. Dessas coisas, algumas correram bem. E outras correram mal. Como nós, na maior parte dos casos, nunca estivémos dentro de um laboratório na qualidade de reagente, não sabíamos muito bem o que tudo aquilo viria a dar. Mas foi-se avançando: umas vezes avançando para a frente, outras vezes às arrecuas. Mas é mesmo assim o caldo de multidões e de emoções. É por isso que me dá uma certa vontade de rir quando uns certos revisionistas de agora falam do que se fez e não fez na revolução como se tudo devesse ter sido feito com régua e esquadro e à luz dos critérios de hoje. Esses pensam com as suas cabecinhas de robot, de robot com muitas manhas e pouco juízo. Os processos históricos concretos são panelas a ferver. Com gente dentro. Por vezes estoiram nas mãos dos distraídos. Contudo, nunca, mas mesmo nunca, obedecem aos racionalistas de gabinete. Muitos menos àqueles que só fazem prognósticos depois do jogo. Que descansem em paz.
Publicado por Porfírio Silva em 10:24 PM | Comentários (0)

abril 23, 2004

Citação

«Pensar abstractamente é pensar no vazio e permite a maior das indignidades, como pensar uma coisa e fazer exactamente o contrário.» (J. Bragança de Miranda, entrevista ao DNa de hoje)
Publicado por Porfírio Silva em 06:29 PM | Comentários (0)

abril 25, 2004

O meu 25 de Abril na blogosfera

Poder fazer coisas e ser responsável por elas, sem demasiados formalismos e sem sermos calcados por isso, é algo que o 25 de Abril nos trouxe. Não estou hoje com dedos para grandes palavras, mas quero informar os meus caros leitores que hoje começa uma pequena aventura que deve algo à revolução dos cravos. Participo, com outros, no lançamento do blogue colectivo Abébia Vadia. O tempo dirá o que isso vale. Por mim, isso permitirá recentrar um pouco esta Máquina de Turing no seu projecto cultural e deixar o debate mais propriamente político para aquele espaço colectivo. A cidadania também passa por estas coisas, penso. Estar neste blogue que Abril abriu é, pois, a minha modesta forma de comemorar o 25 de Abril na blogosfera.
Publicado por Porfírio Silva em 10:36 PM | Comentários (0)

abril 29, 2004

Consumou-se o divórcio

Hoje concretiza-se uma promessa: os temas imediatamente políticos que me passe pela cabeça abordar não ficarão inscritos nesta máquina, mas antes na Abébia Vadia, blogue colectivo e plural que abriu recentemente. Por isso, O pequeno revisionista pode ser lido lá e não aqui. Para os leitores, a vantagem reside em que, por aqueles lados, eu sou apenas uma voz entre muitas (várias).
Publicado por Porfírio Silva em 02:17 PM | Comentários (0)

maio 23, 2004

E não há quem lhe parta a cara?

Soubesse eu de um qualquer macho considerado humano que ele dissera "Não sou homossexual. Quem achar que sou que me traga a irmã." e eu perguntaria: e não há quem lhe parta a cara? Estava eu assim a pensar na vida e leio na Única/Expresso que José Mourinho disse isso. Esse gajo é treinador dos macacos do Zoo (perdoem, macacos) ou treinador do campeão nacional de futebol?
Publicado por Porfírio Silva em 10:05 PM | Comentários (0)

junho 09, 2004

Homenagem à Política

Morreu um cidadão. Sousa Franco era insusceptível de um rótulo. Insusceptível de ser acantonado em qualquer lugar pré-marcado de uma bancada de espectadores. Irredutível a uma marca. Sem medo de ter ideias. Sem medo de ter mau feitio (quando a alguns apenas interessa o feitio do fato). Descobrindo-se agora de novo, perante o país, na alegria da luta política. Dizendo, com a simplicidade da inteligência, as coisas que passam pelo meio da banalidade dos slogans sem se sujarem. Sousa Franco estava a mostrar que a coragem dos políticos democratas não passa pela fanfarronada, pelo chavão fácil, pelo falso heroísmo - mas sim pela humildade de ser lúcido, de saber que o caminho estreito só se descobre atendendo aos pequenos detalhes das coisas bem feitas. Que Sousa Franco tenha morrido a fazer política, na alegria (e nas dificuldades) da coisa pública, é uma homenagem à Política. Mas, certamente, não a todos os políticos.
Publicado por Porfírio Silva em 02:21 PM | Comentários (0)

julho 27, 2004

De novo o genocídio: Darfur / Sudão

Periodicamente a humanidade rasga esse seu nome. Comemos os filhos da nossa espécie, como se a biodiversidade das plantinhas fosse mais crucial do que as mulheres e homens de outras etnias, credos, saberes. Acontece de novo em Darfur, perante a nossa passividade criminosa. Não vamos aqui dizer o que outros disseram melhor do que nós poderíamos fazer. Vejam Nunca mais! na Rua da Judiaria; no Aviz, Darfur, a raiva que nos dá é um dos textos sobre o problema; Darfur, no Avatares de um desejo. A uma escala mais global, veja-se o sítio Darfur Genocide e o blogue Sudan: The Passion of the Present. Passem a palavra, falem disto a um amigo, agitem as águas paradas - porque estamos todos a morrer cada dia. Quem puder, que escreva algo mais reflectido do que isto...
Publicado por Porfírio Silva em 11:47 AM | Comentários (0)

setembro 16, 2004

Um mestre de categoria

Um papel que me caiu nas mãos conduziu-me à inevitabilidade de tratar aqui um assunto menos "científico" e mais "social" (ou será "político"?).
O Professor João Caupers, Director da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, distribuiu aos seus alunos de Direito Administrativo I neste ano lectivo de 2004/2005 uma nota introdutória que merece aqui um destaque.
O Prof. Caupers sublinha o "nível de exigência muito elevado" que se pratica na disciplina. Isso é bom. E avança a prova desse traço: "os elevados níveis de reprovação (entre 33 e 44%) aí estão como testemunho de tal nível de exigência". Lindo! Em qualquer escola decente, esses níveis de reprovação obrigariam o professor a explicar o que é que funcionou mal, exigiriam uma análise à qualidade pedagógica da actividade docente - até se concluir de que lado estaria o defeito. Neste caso, o Prof. Caupers, não contente com gabar-se desses níveis de reprovação, considera que isso é um indicador da exigência da disciplina. Isso quer dizer que as outras disciplinas da mesma faculdade têm um nível de exigência insuficiente, só porque não chumbam tanto? Aliás, o Prof. Caupers tem uma forma fácil de melhorar a avaliação da sua disciplina: reprova mais alunos e está feito. Nem precisa de fazer nenhum esforço para ser melhor professor. Basta reprovar mais alunos. E chega.
Depois, o Prof. Caupers escreve que "estudar é uma actividade penosa, que exige esforço, trabalho e espírito de sacrifício". Eu concordo que estudar exige esforço e trabalho - e até espírito de sacrifício. Mas "estudar é uma actividade penosa"? Eu, por mim, sempre gostei de estudar - e continuo a gostar. Por isso não compreendo que um professor universitário diga aos seus alunos que estudar é uma actividade penosa. Contudo, se para o Prof. Caupers estudar é uma actividade penosa, compreendo o motivo de tanto fel na sua escrita: depois de tantos anos a exercer uma actividade tão penosa, ficou definitivamente marcado pelo ferrete de tanto sofrimento e agora descarrega sobre os seus alunos. Que pena que se diga aos estudantes que estudar é uma actividade penosa...
Mas o Prof. Caupers ainda oferece outra pérola. Escreve, no capítulo da "Boa educação": "Os estudantes tratarão as estudantes com a gentileza adequada: a igualdade entre mulheres e homens não justifica o tratamento das primeiras sem a devida deferência". Dizem-me que o Prof. Caupers, em certas situações, obriga os alunos a deixar as alunas entrarem primeiro na sala de aula. Deve ser dentro do mesmo princípio, que ele inclui na "boa educação", e que não passa de machismo mal encapotado. Não terão as estudantes a mesma obrigação de respeitar os estudantes?
Caramba. Isto passa-se na Faculdade de Direito de UNL, que é provavelmente o que entre nós há de melhor no ramo. Se calhar sou eu que estou fora de moda, mas, para o meu critério, um professor que só é capaz de disciplinar a sua disciplina com estes meios, está fortemente necessitado de ser submetido a provas de aptidão pedagógica. Com urgência.
Publicado por Porfírio Silva em 07:32 PM | Comentários (5)

novembro 29, 2004

Escrever direitos por linhas tortas

O El País é, como se sabe, um reaccionaríssimo diário do país vizinho. Passo a resumir um texto do seu editorialista Hermann Tertsch, publicado há alguns dias.

Desde há pelo menos 20 anos que países como a Alemanha ou a Holanda tudo faziam para que os imigrantes muçulmanos não renunciassem à sua cultura. Tudo o que não fosse nesse sentido era considerado racista e xenófobo. Nessa linha, racistas eram os que pugnavam por um esforço de integração por parte dos imigrantes. Os partidos democráticos desinteressaram-se do problema. As elites pregavam a tolerância, mesmo com os intolerantes.

Foi preciso o assassínio de Theo van Ghog para que se afundasse a grande mentira. Na Holanda contam-se já vinte atentados anti-muçulmanos desde aquela morte. Em França, os jovens muçulmanos são a ponta de lança do anti-semitismo europeu. Há pouco tempo o Der Spiegel publicava um dossier acabrunhante sobre os maus-tratos, as torturas e os sequestros que sofrem milhares de mulheres no seio das suas famílias na Alemanha. Em certos países europeus há bairros onde já não se aplica a Constituição, mas a sharia. Tal como em muitos lares.

Seria cruel dizer que merecemos as consequências do nosso relativismo. Mas temos uma responsabilidade evidente: o nosso erro não foi o de exercer os nossos direitos, mas sim o de não os fazer respeitar. Tanto repetimos ao longo dos anos que todas as ideias são boas, que acabámos por convencer disso aqueles que matam e morrem por valores diametralmente opostos aos nossos.
Convém sempre lembrar que a imensa maioria dos imigrados muçulmanos na Europa são gente de bem. E que há muitos indesejáveis “cristãos”. Mas a polícia holandesa calcula que 5% dos imigrantes muçulmanos nesse país são fanáticos preparados para a violência. Isto é: 50.000.

E que tal um combinação inteligente de firmeza e tolerância, a par com a consciência dos perigos que realmente corremos?

Publicado por Porfírio Silva em 02:19 PM | Comentários (2)